Em 2024, o coaching Pablo Marçal colocou em seu perfil do instagram, um vídeo em que ele dizia ter passado pela experiência de uma turbina do helicóptero falhar enquanto ele e a família estavam presentes dentro dele. De acordo com Marçal, o piloto entrou em pânico, mas ele tratou logo de acalmá-lo, já que eles estavam na "reta final do voo". E ainda tirou onda com o cara, dizendo que ele, o referido piloto, tinha treinamento pra isso. Como toda pessoa que sofre daquele famoso efeito dunning-kruger, o que Marçal quis dizer foi o seguinte: "hei, eu sei mais que você, que recebeu treinamento pra isso?". Engraçado né? Mais ainda, como uma figura caricata dessa consegue enganar as pessoas com esse papo idiota.
Mas e se eu te dissesse que essa mentira que ele contou é proposital? Que ele sabe que está mentindo e joga informação de propósito pra viralizar? Que ele cria vídeos falando bobagens de propósito pro pessoal corrigir. Veja aqui esse vídeo dele mesmo explicando suas táticas.
Seu influencer "bem intencionado" se presta a assistir o vídeo dele de graça, que às vezes ele mesmo foi na página de origem procurar e lançou piada em cima pra se promover. Só que ao fazer isso, ele acabou dando extrema visibilidade a essas figuras que, sejamos honestos, na internet de outrora sequer teriam vez.
O influencer do bem fez o seu react, informou você que tudo aquilo estava errado e praticou seu ato genuinamente verdadeiro de combate à desinformação, além de trazer esclarecimentos. Você achou útil, afinal, se não fosse por ele, talvez você não saberia a real informação. Aí você compartilha porque quer que todos saibam a verdade. Só que esse ato do bem gera um outro problema: o algoritmo não manda o conteúdo dele só pra você. Vai viralizar por toda rede social e será visto por pessoas que terão curiosidade pra saber quem é essa figura que o influencer do bem reagiu. E agora que a merda toda tá feita, o sujeito que fala bosta de propósito pro teu influencer com doutorado desmentir ganhou mais seguidores, mais visibilidade e mais dinheiro.
Eu entendo o influencer do bem. Ele estudou, se prestou a ler artigo, a perder o precioso tempo dele no combate à desinformação, mas cá pra nós, é uma espécie de efeito backfire, um fenômeno psicológico em que a pessoa fortalece mais ainda suas crenças mesmo quando é confrontada com a verdade. Você desmascara absolutamente tudo aquilo, ponto a ponto e prova que é mentira. Como resultado, a pessoa fica ainda mais firme em sua crença. Eu não estou exatamente dizendo que isso sempre ocorrerá, mas é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser tanto cara quanto coroa.
Temos inúmeros exemplos na vida real de coisas bem esquisitas que contemplam esse fenômeno.
1) Barbra Streisand
Por meio de um processo judicial, ela tentou remover da internet uma foto aérea de sua casa por questão de proteção. Ninguém tinha visto sua casa antes mas depois do processo vir a público, a foto aérea da casa viralizou no mundo inteiro. Gerou até um nome "efeito Streisand".
2) Alex Jones
Jornalistas tentaram desmentir as teorias estapafúrdias desse cidadão e isso só instigava a curiosidade alheia. As pessoas foram todas em seu vídeo pra consumir o conteúdo original. Tentar informar aumentou o volume da desinformação.
3) Anders Behring Breivik
Depois do ataque, houve bastante cobertura de conscientização. Porém, isso deu visibilidade e as pessoas foram atrás da ideologia dele. Informar também pode dar palco meus amigos...
4) Logan Paul
A avalanche de críticas contra um vídeo polêmico na floresta do suicídio no Japão fez ele brilhar mais ainda alcançando mais gente do que ele mesmo imaginava. Criticar impulsiona o alcance.
5) Checagem de fatos do facebook
Vou aqui dar meus dois centavos de opinião contrária aos que acreditam que checagem de fato pode ser útil. Eu achava isso também, mas depois de pesquisar um pouco, ler e entender o que está por trás do engajamento, mudei bastante de opinião. Como bem disse Byung-Chul Ham, não adianta fazer checagem de fatos. Não porque ela é inútil, mas porque vivemos num excesso de opiniões e conteúdos diversificados. Se os conteúdos são bons ou ruins, vai depender do ponto de vista. Checagem vira só mais um conteúdo disputando a atenção. Nas redes sociais o que vale mais é engajamento e o que provoca raiva, indignação e ódio é priorizado pra que o viralismo continue se espalhando e você perca seu tempo dando atenção.
A noticia do cara que matou os próprios filhos e depois se matou pra punir a ex me deixou chocada. Eu não tenho a menor dúvida que o que esse sujeito fez é doentio e errado. Essa mulher é uma vítima. Mas acharam que seria uma boa ideia espalhar uma mentira que ela o traiu. Isso fez com que o delírio persecutório se voltasse contra ela. Foi então que desmentiram essa bobagem. A real é quem traiu foi ele, mas pouco adiantou esclarecer isso. A notícia se espalhou ainda mais. E ainda que ela tivesse traído, isso não justifica crime nenhum.
O ativo mais importante das redes sociais é sua atenção e ela se dá por meio de engajamento. Pouco importa se estão tentando combater desinformação. Seu influencer do bem está contribuindo para a disseminação de mais desinformação ainda. Isso é a condição material de estar na rede social. Você não precisa estar ali, você escolheu estar. Mas você não escolhe o que vai ver, isso quem decide é a big tech e cada engajamento seu significa que você trabalha de graça pra eles.
Você trabalha noite e dia com curtida, like, engajamento no combate à desinformação fazendo isso numa rede social que é feita pra que as pessoas percam completamente a percepção da realidade. Você entrega seu tempo e sua vida pra eles de bom grado e a recompensa é só likes e notificações. Rede social é aquele lugar onde pessoas que tomam sol no brioco ganham respaldo porque ela é desenhada pra isso. Rede social torna fantasias absurdas em realidade.
Eu sei o que muitos pensam: esse é o bom e velho papo manjado de "não dar palco". Eu até ficava irritada com isso antigamente, quando fazia sentido. Afinal, é preciso debater coisas ruins, falar sobre suicídio e morte abertamente, sobre nazismo, sobre escravidão, racismo e assuntos incômodos. Devemos debater política, sem sombra de dúvidas. Devemos fazer denúncias, isso é até indiscutível. Mas hoje reagir a conteúdos produzidos por pessoas estúpidas é trabalhar de graça pra elas, gostem as pessoas de saber disso ou não. As redes potencializam e dão volume a vozes polêmicas.
Em um post aqui do blog, eu coloquei um print de um sujeito dizendo que Hitler era da magia negra de esquerda.
O Alex Jones, teórico da conspiração há décadas, não tinha nenhum respaldo antes da era do engajamento nas redes. Ele disse que o Massacre de Sandy Hook foi tudo encenado e que as vítimas eram atores. O vídeo dele foi compartilhado, engajado e visto por milhões de pessoas pelo mundo. Ele foi condenado, mas o estrago estava feito e as famílias são perseguidas até hoje.
Outro exemplo são essas dietas extremas como da selva, do paleolítico, low carb, glúten free e por aí vai. Eu garanto que elas sempre existiram, sempre. Tem posts muito antigos que já traziam essas coisas como bizarras e a dieta uga-uga está entre elas. Só que a diferença é que isso ficava na marginalidade da internet e as redes sociais as transformaram em coisa séria.
Fico aqui me perguntando se figuras como Monark cairiam tanto nas graças das pessoas se não tivesse tanto engajamento e vídeo fazendo react. React favorece quem está lucrando com o conteúdo alheio, mas favorece o canal de onde sai a desinformação.
E a minha resposta para seu influencer do bem? Há grandes chances dele só querer dinheiro e foda-se as consequências. Eu sempre insisti que as pessoas procurassem textos escritos na internet ao invés de informações, digamos, ultraprocessadas nas redes sociais. Se alguém diz algo sobre Aristóteles, vá ler o próprio. Se alguém diz que um livro é ruim, leia ele pra ver se é mesmo. São práticas que fazem com que o cérebro não atrofie e nem se afunde nesse esgoto que são as redes sociais.
Se você optar por criticar, faça isso de forma responsável. Evite react, evite citar nomes, tente abordar o assunto de forma séria e não debochada. Lembre-se que hoje isso pode ofender e ofensa é um sentimento passível de engajamento. Se você decidiu estar numa rede social trabalhando de graça pra um algoritmo, ok, cada um com seus problemas. Mas hoje, tentar combater desinformação idiota é dar palco e favorecimento sim. As big techs vão usar essa sua boa vontade de informar como instrumento de viralismo.
E viralismo favorece desinformação.
Ah, e mais uma coisa... Existem casos em que até funciona o react e a checagem de fatos. Mas como argumentei antes, é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser cara, 50% de chance de ser coroa. Considere ao menos pensar sobre.


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