sexta-feira, 24 de abril de 2026

Como seu influencer com doutorado trabalha de graça pro charlatão

 

 

Em 2024, o coaching Pablo Marçal colocou em seu perfil do instagram, um vídeo em que ele dizia ter passado pela experiência de uma turbina do helicóptero falhar enquanto ele e a família estavam presentes dentro dele. De acordo com Marçal, o piloto entrou em pânico, mas ele tratou logo de acalmá-lo, já que eles estavam na "reta final do voo". E ainda tirou onda com o cara, dizendo que ele, o referido piloto, tinha treinamento pra isso. Como toda pessoa que sofre daquele famoso efeito dunning-kruger, o que Marçal quis dizer foi o seguinte: "hei, eu sei mais que você, que recebeu treinamento pra isso?". Engraçado né? Mais ainda, como uma figura caricata dessa consegue enganar as pessoas com esse papo idiota.

Mas e se eu te dissesse que essa mentira que ele contou é proposital? Que ele sabe que está mentindo e joga informação de propósito pra viralizar? Que ele cria vídeos falando bobagens de propósito pro pessoal corrigir. Veja aqui esse vídeo dele mesmo explicando suas táticas.

Seu influencer "bem intencionado" se presta a assistir o vídeo dele de graça, que às vezes ele mesmo foi na página de origem procurar e lançou piada em cima pra se promover. Só que ao fazer isso, ele acabou dando extrema visibilidade a essas figuras que, sejamos honestos, na internet de outrora sequer teriam vez.

O influencer do bem fez o seu react, informou você que tudo aquilo estava errado e praticou seu ato genuinamente verdadeiro de combate à desinformação, além de trazer esclarecimentos. Você achou útil, afinal, se não fosse por ele, talvez você não saberia a real informação. Aí você compartilha porque quer que todos saibam a verdade. Só que esse ato do bem gera um outro problema: o algoritmo não manda o conteúdo dele só pra você. Vai viralizar por toda rede social e será visto por pessoas que terão curiosidade pra saber quem é essa figura que o influencer do bem reagiu. E agora que a merda toda tá feita, o sujeito que fala bosta de propósito pro teu influencer com doutorado desmentir ganhou mais seguidores, mais visibilidade e mais dinheiro.

Eu entendo o influencer do bem. Ele estudou, se prestou a ler artigo, a perder o precioso tempo dele no combate à desinformação, mas cá pra nós, é uma espécie de efeito backfire, um fenômeno psicológico em que a pessoa fortalece mais ainda suas crenças mesmo quando é confrontada com a verdade. Você desmascara absolutamente tudo aquilo, ponto a ponto e prova que é mentira. Como resultado, a pessoa fica ainda mais firme em sua crença. Eu não estou exatamente dizendo que isso sempre ocorrerá, mas é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser tanto cara quanto coroa.

Temos inúmeros exemplos na vida real de coisas bem esquisitas que contemplam esse fenômeno.

1) Barbra Streisand 

Por meio de um processo judicial, ela tentou remover da internet uma foto aérea de sua casa por questão de proteção. Ninguém tinha visto sua casa antes mas depois do processo vir a público, a foto aérea da casa viralizou no mundo inteiro. Gerou até um nome "efeito Streisand".

 

2) Alex Jones

Jornalistas tentaram desmentir as teorias estapafúrdias desse cidadão e isso só instigava a curiosidade alheia. As pessoas foram todas em seu vídeo pra consumir o conteúdo original. Tentar informar aumentou o volume da desinformação.

 

3) Anders Behring Breivik 

Depois do ataque, houve bastante cobertura de conscientização. Porém, isso deu visibilidade e as pessoas foram atrás da ideologia dele. Informar também pode dar palco meus amigos...

 

4) Logan Paul  

A avalanche de críticas contra um vídeo polêmico na floresta do suicídio no Japão fez ele brilhar mais ainda alcançando mais gente do que ele mesmo imaginava. Criticar impulsiona o alcance. 

 

5) Checagem de fatos do facebook

Vou aqui dar meus dois centavos de opinião contrária aos que acreditam que checagem de fato pode ser útil. Eu achava isso também, mas depois de pesquisar um pouco, ler e entender o que está por trás do engajamento, mudei bastante de opinião. Como bem disse Byung-Chul Ham, não adianta fazer checagem de fatos. Não porque ela é inútil, mas porque vivemos num excesso de opiniões e conteúdos diversificados. Se os conteúdos são bons ou ruins, vai depender do ponto de vista. Checagem vira só mais um conteúdo disputando a atenção. Nas redes sociais o que vale mais é engajamento e o que provoca raiva, indignação e ódio é priorizado pra que o viralismo continue se espalhando e você perca seu tempo dando atenção.

 

A noticia do cara que matou os próprios filhos e depois se matou pra punir a ex me deixou chocada. Eu não tenho a menor dúvida que o que esse sujeito fez é doentio e errado. Essa mulher é uma vítima. Mas acharam que seria uma boa ideia espalhar uma mentira que ela o traiu. Isso fez com que o delírio persecutório se voltasse contra ela. Foi então que desmentiram essa bobagem. A real é quem traiu foi ele, mas pouco adiantou esclarecer isso. A notícia se espalhou ainda mais. E ainda que ela tivesse traído, isso não justifica crime nenhum.

O ativo mais importante das redes sociais é sua atenção e ela se dá por meio de engajamento. Pouco importa se estão tentando combater desinformação. Seu influencer do bem está contribuindo para a disseminação de mais desinformação ainda. Isso é a condição material de estar na rede social. Você não precisa estar ali, você escolheu estar. Mas você não escolhe o que vai ver, isso quem decide é a big tech e cada engajamento seu significa que você trabalha de graça pra eles.

Você trabalha noite e dia com curtida, like, engajamento no combate à desinformação fazendo isso numa rede social que é feita pra que as pessoas percam completamente a percepção da realidade. Você entrega seu tempo e sua vida pra eles de bom grado e a recompensa é só likes e notificações. Rede social é aquele lugar onde pessoas que tomam sol no brioco ganham respaldo porque ela é desenhada pra isso. Rede social torna fantasias absurdas em realidade.

Eu sei o que muitos pensam: esse é o bom e velho papo manjado de "não dar palco". Eu até ficava irritada com isso antigamente, quando fazia sentido. Afinal, é preciso debater coisas ruins, falar sobre suicídio e morte abertamente, sobre nazismo, sobre escravidão, racismo e assuntos incômodos. Devemos debater política, sem sombra de dúvidas. Devemos fazer denúncias, isso é até indiscutível. Mas hoje reagir a conteúdos produzidos por pessoas estúpidas é trabalhar de graça pra elas, gostem as pessoas de saber disso ou não. As redes potencializam e dão volume a vozes polêmicas.

Em um post aqui do blog, eu coloquei um print de um sujeito dizendo que Hitler era da magia negra de esquerda.


Lá pelos anos de 2014, essa história de nazismo de esquerda ganhou força total nas redes sociais. Antes ficava escondida em lugares obscuros da internet. O blog podia até ser famoso, mas só olhava quem ia lá visitar. A rede social, no entanto, é uma fábrica de cliques e faz com que pessoas desse calibre tenham respaldo e isso é proposital, pois gera engajamento e quanto mais engajamento, mais atenção. Atenção significa lucro.

O Alex Jones, teórico da conspiração há décadas, não tinha nenhum respaldo antes da era do engajamento nas redes. Ele disse que o Massacre de Sandy Hook foi tudo encenado e que as vítimas eram atores. O vídeo dele foi compartilhado, engajado e visto por milhões de pessoas pelo mundo. Ele foi condenado, mas o estrago estava feito e as famílias são perseguidas até hoje.

Outro exemplo são essas dietas extremas como da selva, do paleolítico, low carb, glúten free e por aí vai. Eu garanto que elas sempre existiram, sempre. Tem posts muito antigos que já traziam essas coisas como bizarras e a dieta uga-uga está entre elas. Só que a diferença é que isso ficava na marginalidade da internet e as redes sociais as transformaram em coisa séria.

Fico aqui me perguntando se figuras como Monark cairiam tanto nas graças das pessoas se não tivesse tanto engajamento e vídeo fazendo react. React favorece quem está lucrando com o conteúdo alheio, mas favorece o canal de onde sai a desinformação.

E a minha resposta para seu influencer do bem? Há grandes chances dele só querer dinheiro e foda-se as consequências. Eu sempre insisti que as pessoas procurassem textos escritos na internet ao invés de informações, digamos, ultraprocessadas nas redes sociais. Se alguém diz algo sobre Aristóteles, vá ler o próprio. Se alguém diz que um livro é ruim, leia ele pra ver se é mesmo. São práticas que fazem com que o cérebro não atrofie e nem se afunde nesse esgoto que são as redes sociais.

Se você optar por criticar, faça isso de forma responsável. Evite react, evite citar nomes, tente abordar o assunto de forma séria e não debochada. Lembre-se que hoje isso pode ofender e ofensa é um sentimento passível de engajamento. Se você decidiu estar numa rede social trabalhando de graça pra um algoritmo, ok, cada um com seus problemas. Mas hoje, tentar combater desinformação idiota é dar palco e favorecimento sim. As big techs vão usar essa sua boa vontade de informar como instrumento de viralismo.

E viralismo favorece desinformação.

Ah, e mais uma coisa... Existem casos em que até funciona o react e a checagem de fatos. Mas como argumentei antes, é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser cara, 50% de chance de ser coroa. Considere ao menos pensar sobre.

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O caso Shy Girl

 


Nesse link aqui do reddit, alguém achou muito esquisito a escrita de um certo livro chamado Shy Girl, de uma escritora chamada Mia Ballard. O autor do post argumenta que o texto dela tem muita, mas muita cara de que foi escrito por IA. E por que? Abuso de travessão "—", palavras com conexões estranhas, como por exemplo:

 "Então a porta se abre com estrondo, e ele entra como uma tempestade, arrastando o fedor azedo de bebida atrás dele, sua presença preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço"

Ou

"Meias brancas sobem pelas minhas pernas, suas rendas delicadas, um sussurro de inocência sobre os machucados por baixo, aqueles que ele diz que não deveriam acontecer se as meias estiverem lá — mas sempre acontecem." 

Isso é a prova cabal de que foi escrito por IA? Certamente não, mas é muito estranho porque não segue bem um padrão que um humano normalmente escreveria quando precisa usar palavras um pouco mais sinestésicas.

Eu já pedi pro Chat GPT escrever assuntos sobre coisas que já tratei aqui. Não foi muito satisfatório o resultado. Chat GPT não conclui, não tem opinião. Tudo que ele escreveu foi apontamento genérico.

"Diante desse cenário, torna-se urgente discutir limites e responsabilidades. Plataformas digitais, anunciantes e os próprios criadores de conteúdo precisam ser cobrados. Mais do que isso, é essencial investir em educação midiática, para que os usuários desenvolvam senso crítico diante desse tipo de propaganda."

Vejam que no caso do livro de Mia Ballard, escrever esse tipo de coisa "preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço" pode ser um indício de qualquer palavra juntada pelo Chat GPT. Afinal, IA não tem sentimento, não consegue escrever sensação genuína experimentada por um indivíduo que possui cognição. Há quem argumente que não é todo mundo que consegue nomear os sentimentos. Isso é real. Porém, o sentimento tá ali, é sentido e se tentamos falar sobre ele, muitas vezes conseguimos usando exemplos.

Mia Ballard, no entanto, exagerou nas repetições, nas inconsistências, no uso de travessão e em fechamentos de frases que não faziam sentido. O tom de tudo parece neutro demais, coisas bem estranhas para um ser humano. Como escritora, ela deveria reler seu texto e tentar entender se aquilo tem coerência. 

O lance de Shy Girl terminou mal. Pela primeira vez na história uma editora cancela a publicação do livro porque, fazendo análises, concluíram que 70% do livro foi escrito por IA. Mia Ballard, por sua vez, alega não ter usado IA, ela enviou para um revisor e este sim usou IA. Se é verdade, ela terá meios de provar, mas duvido muito. Se eu enviasse meu texto a um revisor e ele usasse IA, eu saberia. É preciso ter tal delicadeza. Por fim, Mia Ballard diz que está com a reputação destruída e a saúde mental em frangalhos. Imagino que deve ter sido triste pra ela, mas não se pode quebrar as regras e esperar que tudo dê certo.

Eu particularmente não sei explicar as razões que me levam a desconfiar que algo foi gerado por IA. Acredito que até o presente momento, a IA "produz" coisas muito artificiais. Não há nada expressivo na IA, ela parece apenas concatenar um certo número de palavras que fazem algum sentido. Falta a qualia, o pessoísmo

Qualia é um termo usado na filosofia pra descrever subjetividades. Eu posso olhar pra uma flor sem julgar, mas a qualia me permite pensar que a flor é de um azul profundo, de um cheiro cheiroso, de uma beleza única. É como se fosse a alma, o signo de cada coisa. A IA parece não ter qualia. Ela só junta lé com cré. Posso estar sendo um tanto simplista, mas é o que me parece.

Uma vez vi um vídeo de entrevista com o físico Roger Penrose falando sobre a IA. Ele usou o teorema da incompletude de Gödel pra explicar que se temos um conjunto de regras, sempre existirá uma verdade que essas regras não conseguem provar, mas nós humanos sabemos se ela é ou não verdadeira. Uma IA não consegue provar que sua própria regra é verdadeira. Nós que temos que observar se aquilo funciona ou não e isso depende da nossa consciência.

Eu posso fazer um calculo usando certinho uma fórmula e esse resultado dar errado. Eu percebo porque tenho consciência pra entender que pode ou não estar certo. Isso acontece porque estamos conscientes do que pensamos.

A IA não entende o significado das coisas que faz, ela é apenas uma calculadora gigante e sofisticada que segue as regras da computação. Isso serve de aviso pra qualquer escritor que esteja aspirando uma chance de ter seu romance publicado. Isso requer trabalho sério e duro e isso implica não pedir pra IA melhorar o texto ou expor ideias nonsenses. Reconhecer a artificialidade da escrita é preciso.

Uma vez eu li um livro chamado Impostora, da escritora R. F. Kuang. O livro conta a história de duas mulheres, June e Athena, que se formam juntas e seguiram fazendo companhia uma para a outra depois da faculdade. Athena se torna uma escritora de extremo sucesso, enquanto June, também escritora, apenas coleciona fracassos. Em dado momento, Athena morre e June rouba o manuscrito do romance que Athena estava concluindo em vida. Ela então decide fazer algumas alterações porcas e publica como se fosse seu. O sucesso do romance é imediato, se tornando um tremendo best seller.

A obra roubada fala sobre os trabalhadores chineses durante a primeira guerra mundial. A editora sugere que June use um nome ambíguo, Juniper Song, para dar algum efeito na obra e assim ela passa a ter uma nova identidade no mundo literário. Porém, no auge do estrondoso sucesso, alguém percebe que aquilo tudo é uma fraude e que a obra pode ter sido roubada de Athena. 

Algum tempo depois da polêmica que só piora as coisas para June, alguém publica algo no twitter dizendo que a obra parece ter sido escrita por uma pessoa e remendada por outra. E esse é um dos pontos que eu queria comentar. Temos muitos exemplos de textos que começaram ser escritos por uma pessoa e outras terminaram. Trago dois exemplos, Assassin of Secrets, de Q. R. Markham e How Opal Mehta Got Kissed de Kaavya Viswanatha. Ambos livros são obras copiadas de vários trabalhos. Muitos leitores notaram que esses autores não plagiaram só as histórias, mas copiaram trechos inteiros de outros livros famosos como James Bond e The Princess Diaries. Era como pegar uma frase e mudar ela colocando as suas considerações. Acredito que esses autores não sabem o que é estilística.

Outro ponto que eu queria comentar é que, Kuang passa no livro a ideia de que as editoras funcionam por meritocracia e isso não é verdade conforme vemos na prática. No caso de Mia Ballard, a editora Hachette Book Group aceitou publicar um livro possivelmente gerado por IA, mas dificilmente deve dar chance a quem faz um trabalho dedicado, bem escrito e caprichoso.

Por fim, quero destacar algo nesse livro que me incomodou, que é o fato das pessoas ficarem surpresas que June não era chinesa e arriscou escrever algo sobre a China. Eu concordo que há coisas sobre nossa cultura que requer um olhar experiente e muitas vezes nativo. Mas a grande questão é que essa coisa identitária não é bem verdade e não se sustenta tanto quando a gente observa a nossa realidade material. Vejam o caso de Leandro Narloch que escreveu o tal guia do politicamente incorreto da história do Brasil, cheio de erros, mentiras e interpretações abjetas. Um Brasileiro falando sobre o Brasil, mas com um ponto de vista completamente errado e pernicioso.

O caso é que nós temos muita resistência à IA. Não que ela não ajude. Eu particularmente uso bastante pra resolver problemas que me deixam travada. Mas é preciso saber dosar. Pedir pra IA fazer tudo é um grande problema. Uma dúvida pontual, ok. Mas resolver volume grande de problemas é complicado.

Ainda sim, o olhar que temos que ter é de desconfiança. Não acredite cegamente nas informações que as IAs te dão. Uma vez um amigo estava debatendo e saiu postando argumento formatado que ele perguntava pro Chat GPT. Disseram pra ele não usar IA e ele garantiu que não estava usando, mas estava. A IA citou trechos de livro que eu mesma reconheci não serem verdadeiros e abri o livro perguntando a ele onde estava escrito aquilo. Depois, as fontes que a IA postava, ou eram artigos que nada tinham a ver com o tema ou não existiam. A maioria não existia. Meu amigo então, admitiu que usou IA. E eu, que só tinha dado a ele duas fontes que ele não olhou, expliquei que eu estudei aquelas duas fontes, não saio por aí lendo um monte de coisa sem critério nenhum.

Se a IA te der exemplos, procure esses exemplos na internet e tente comprovar se aquilo é verídico. Se a IA passar fontes, pesquise essas fontes pra ver se existem ou se estão falando do mesmo assunto que você perguntou para a IA. Se você estiver escrevendo, tente não pedir pra IA reescrever seu texto melhorado. Ela pode ajudar a corrigir gramática, mas revise bem você mesmo pra ter certeza. Processo criativo é trabalhoso e a IA não substitui o trabalho humano.

Sei que ouvimos por aí que ela vai roubar nosso emprego, mas a menos que ela ganhe consciência e saiba exatamente o que está fazendo, eu fico aqui com o benefício da dúvida. Pela internet é possível encontrar textos escritos por IA. Se você puder, aponte. Sei que isso é insano, mas sempre aponte se você desconfiar que algo foi escrito por IA. Ao menos é uma forma de mostrar que não queremos tolerar que nossas vidas sejam tomadas por isso.

E por fim, a velha dica clichê: use com muita sabedoria e moderação. Tente, em princípio não usar. Leia e faça pesquisas primeiro, tente não sair perguntando tudo de cara para a IA. Ainda não temos clareza do que isso pode fazer com nosso cérebro, então o melhor é ter muita moderação e bom senso. 

Eu não tenho uma visão necessariamente otimista, mas não sinto um completo pessimismo na humanidade. Não é todo mundo que vai concordar com isso e o caso Mia Ballard serve pra nos mostrar o quanto o humanismo tem grande valor para todos nós. Se tudo está muito artificial, nós sentimos que tem algo errado. Se você sentir isso, não ignore. Não vamos permitir que a IA tome conta de tudo sem reagir.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ler é mais fácil, indiscutivelmente

 

Você está pesquisando na internet. Digamos que queira uma lista de recomendação de jogos, filmes, séries ou livros sobre determinados assuntos. Você abre o youtube e pesquisa, com muito otimismo, até encontra um vídeo de 10 minutos, mas grande parte deles tem de 15 a 30 minutos. Você dá play e já suspira de desânimo porque vai ter que assistir 2 minutos de propaganda sem a possibilidade de pular.

Mas não só isso. Não basta a propaganda, o produtor do vídeo também vai começar o dando recadinho inútil do tipo "eu não ia falar sobre isso", mentira, ia sim. Pede pra você se inscrever, esmola like, enche as paciências com vinheta inútil, também faz propaganda e aí sim ele entra no assunto do vídeo. Você acelera porque acredita que não tem tempo, quer umas dicas mais rápidas. Você nem pensa em abrir a internet e procurar por textos, você vai no youtube. Ou você pode também ir no tiktok, já que lá tem vídeo curto e sua mente não está mais acostumada a exercer paciência.

A teoria da internet morta diz que até 2016, a internet ainda era como nós conhecemos lá no passado. Depois disso, tudo mudou. As redes sociais dominaram o mercado e as cidades digitais entraram em ruínas. Para a grande maioria, a internet virou instagram, facebook, twitter, tiktok e youtube e tudo fora disso parece não existir mais. Ainda existem pessoas insistentes, que escrevem em blogs como eu, mas isso aqui é um fracasso absoluto. Eu só continuo porque ainda acredito que podemos retomar a web sem necessidade nenhuma de rede social.

Quando criei esse blog, inclusive, eu tinha facebook. Foi naquele tempo que percebi que não conseguia mais ler nada, minha paixão por livros ficou no passado. Eu não aceitei isso e retomei a leitura, diminuí  a frequência nas redes e por fim, excluí o facebook há quase 10 anos e nunca mais voltei. Nesse tempo ainda fazia grande sentido ter blog. As pessoas no facebook compartilhavam coisas vindas de blogs, ainda navegavam pela internet e procuravam assuntos de seus interesses usando buscadores como google. Hoje, muitos nem ligam mais o computador, e na minha opinião, os celulares estão muito mais adaptados pra ver vídeos. 

Voltando lá pro assunto que você foi pesquisar e caiu num vídeo qualquer que poderia ser feito em 4 minutos, mas deu 20 contando com propaganda e inutilidades desses youtubers, se você pesquisasse o assunto em texto, certamente você poderia encontrar uma lista amigável. Encontraria jogos bacaninhas escondidos na plataforma de games ou livros aconchegantes que você ficou feliz de descobrir que existiam.

O texto não ficaria esmolando seu like. Qualquer coisa fora do contexto, você poderia pular. Ok, vc pode fazer isso no vídeo, mas ler um texto funciona melhor. É mais rápido. Consumir a mídia escrita é um exercício também de paciência. Antes era tudo natural, hoje parece que não temos mais paciência pra ler nem uma polêmica até o fim. Eu acompanhava muito o blog mundo gump. Ele ainda existe, ainda é atualizado, eu ainda visito. Não com tanta frequência, mas ainda estou por lá. O autor do blog escrevia coisas polêmicas sobre suas atividades no blog que geravam textos imensos, mais de 10 minutos de leitura e as pessoas liam tudo com atenção. 

Mas, muitos blogs que eu visitava não existem mais. Os autores deles migraram para as redes sociais e ficaram por lá. Ou o blog, infelizmente acabou se transformando em um canal no youtube.

Eu gostava muito de listas. Elas ainda existem por aí. Se você procurar "lista org" no buscador, vai aparecer muitos sites assim.

Clique aqui pra um exemplo 

Eu recomendo que você, ao menos de vez em quando, crie o hábito de pesquisar textos na internet e ler eles antes de recorrer a vídeos. Era natural ler. A gente lia sem qualquer problema, era prazeroso. Era o que tínhamos. Hoje, pra muita gente ler se tornou um peso enorme, é mais fácil e irresistível assistir vídeos, ou ouvir enquanto faz outra coisa.

Como eu disse anteriormente, meu blog é um fracasso total. Sequer aparece nas pesquisas do google e o blogger é do google. Se você digitar "fecharede blog" no buscador do duckduck go, ainda aparece. Eu recomendo usar outros buscadores que não seja o google. O google não te mostra tudo, suprime pesquisas e você vai achar que aquela informação não está ali presente em textos, mas está. O google, no entanto, não está mostrando pra você porque a google só te mostra o que ELA acha relevante.

Alguns podem argumentar que escrever blogs não dá dinheiro. Eu discordo, mas vejam, nem tudo é por dinheiro. Eu nunca comecei a escrever pra ganhar dinheiro, eu não tenho essa ilusão. E ainda que fosse propício, eu sigo meu princípio que informação tem que ser gratuita. Eu não frequentei uma faculdade pública pra ficar retendo informações e cobrando pra dar acesso exclusivo para as pessoas.

 


Estava pior, mas até um canal de um webcomunista chamado História Pública fechou alguns vídeos pra quem pode pagar por eles. As pessoas precisam viver, concordo, mas se você tem um ideal, faça sua estadia na internet valer a pena pra todo mundo.

Textos não te cobram, não te entucham de propaganda, não pioram sua ansiedade, não tentam fazer você comprar camiseta bosta que nem o youtuber acredita nisso. Leia mais. Sei que são palavras de quem não tem relevância digital alguma, mas tente relaxar, ter paciência e não permitir que esse mar de informação que é a internet se afunde nas mãos de algumas big techs sem escrúpulo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Virei uma pregadora da palavra Linux

 


Há 20 anos eu usava o Debian e era um horror, ao menos no início. Até me habituar e conseguir fazer as coisas do dia a dia, demorei umas 2 semanas. Fiquei muitos anos assim, até voltar pro windows novamente. Pra ser honesta, não entendia bem de formatação e nunca quis arriscar ter linux de novo. Eu não sabia instalar, não conhecia ninguém que sabia e ficou por isso mesmo. Também nunca quis pagar pra fazerem isso, até porque os notebooks que comprei nos anos seguintes já vinham com o windows. E assim os anos passaram.

Então chegamos em 2022. Eu tinha um Vaio até que bom. HD de 1TB, intel i5 broadwell, 8GB de ram, coisas que suportam e muito bem o básico do meu dia a dia. Quando entrou o home office, era esse notebook que eu usava. Eu precisava de excel, do teams e de um acesso à VM. E o excel eu poderia usar dentro da VM. Basicamente meu notebook só precisava ser um terminal burro.

Mas tudo deu muito errado. Uma coisa simples se tornou um suplício porque esse notebook era "pouco" pro windows: demorava 20 minutos pra ligar. Fiz de tudo pra deixar o sistema o mais limpo possível, configurei tudo, mas não adiantava. Se tinha atualização - das quais a gente nunca pede -, demorava até 40 minutos pra ligar. Cada vez que eu era forçada a parar o trabalho pra atualizar, era um novo choro. Isso atrasava demais a minha vida e, nesse tempo, a empresa que eu trabalhava se recusou a me dar um notebook novo. Eu sei... Tá totalmente errado, mas a gente precisa trabalhar né...

Então, eu gastei um dinheiro que não podia pra comprar um notebook novo. Ele veio com o windows 11 instalado e com SSD, o que ajudou muito, pois ligava bem rápido e não tinha mais problemas. Além do mais, para uso pessoal estava de bom tamanho. Assim, o velho Vaio de guerra foi abandonado num cantinho obscuro da estante dentro de uma bag pegando poeira.

Pulando pra 2025, comecei a olhar mais os canais que divulgam linux. A facilidade de instalação e o uso dele me chamou muito a atenção. Além, do que, eu comprei um PC Gamer e não queria pagar pelo windows. Se ele custasse R$100,00 ainda seria caro na minha opinião, e não me importo com julgamentos. Não vale R$1.099,00 nem a pau. É muito caro pra pouca coisa e falta total de liberdade. Nunca entendi bem a razão de não conseguir desinstalar aquela coisa grotesca do copilot. Além do que, nunca me senti realmente estável com o windows. O medo de dar alguma novidade ruim sempre me acompanhou nessa jornada. Então eu peguei aquele Vaio empoeirado e instalei o linux Pop!_OS. E fiquei feliz de ter feito isso, é tão simples que eu mal acreditei que formatei meu próprio notebook.

Quando reiniciou, tive outra surpresa: ligou em 10 segundos. Ou seja, o Linux ressuscita tudo que o windows aposenta. Meu note velho voltou à vida. Usei, teste, aprovei. Quando o PC gamer chegou, coloquei o Zorin OS e tem funcionado muito bem assim. Eu jogo normalmente, com gráficos lindíssimos e tudo flui muito bem. No trabalho, eu descobri o teams for linux, que não é oficial da microsoft mas funciona como mágica e, diferente do windows, não é um suplício pra dar login, nem precisa daquele lixo do intune que minha empresa exige e eu tenho bastante resistência em instalar. Meu patrimônio, minhas regras.

Muitos são do partido que o usuário só quer ligar a máquina e usar. Ok, eu também sou dessas. Tanto que fiz idiotice pra comprar um notebook novo que eu pudesse ligar e usar. Mas o linux não é como há 15 anos. Hoje é simples, intuitivo, e grande parte das pessoas que só usam pra mexer em planilha, ver vídeo no youtube e estudar, de fato não precisam do windows. Aqueles que trabalham com determinados aplicativos, como o office, podem usar ele online ou usar os aplicativos do linux como onlyoffice e libre office. Sério, é a mesma coisa. Quem escreve tese de mestrado e usa o computador pra pesquisa seria beneficiado pelo linux. Programadores, de maneira geral, com certeza o linux é muito melhor pra vocês, exceto se você é desenvolvedor Delphi/ .Net / C# /Xcode /Jogos com engines windows e qualquer coisa que só tenha assistência ao windows. Pessoas que usam photoshop, corel draw, pro tools e ferramentas com suporte apenas no windows e macOS também não estão aptas a fazer migração até o presente momento. Mas é um nicho específico. Grande parte das pessoas podem fazer migração e isso lhes traria grandes benefícios. Você não se preocuparia em parar o trabalho pra atualizar nada, não teria IA nenhuma no sistema, desinstala o que quer, roda o que quer, sua máquina velha vai voltar à vida com linux, sem gargalo e seu gasto será ZERO.

Além do mais, os que partem desse princípio e dizem que "é só configurar o windows", ainda que você faça isso, o sistema não te dará liberdade. A telemetria continuará existindo, goste você ou não. A propaganda e as notícias inúteis continuarão lá. E pra quem só quer ligar e usar, saibam que os usuários médios - como eu -, que mesmo que possuam algum conhecimento, também é um trabalho ficar fazendo isso. Não queremos ligar e ficar configurando, queremos ligar e usar. E aqui vou falar a palavra usuário porque é isso que somos pro windows: usuários que se acostumam com tudo que eles empurram goela abaixo por julgarmos não haver outras opções. O windows te chama de usuário, o linux de comunidade.

Não quero dizer com isso que o linux é perfeito. Não meus amigos, ele não é e certamente há coisas que terão problemas. Mas o windows também tem problemas e muitas vezes a gente precisa pastar pra resolver. Coisas que funcionam como um toque de mágica são utópicas. Mas vale muito a pena usar o linux, principalmente porque as distros não são mais como antes. São simples, fáceis e bonitas como o linux Mint, o Zorin OS e o Pop!_OS. E pra instalar elas, basta fazer um pendriver bootável (que você encontra fácil um tutorial na internet), reiniciar seu computador apertando F12 (ou qualquer modo como seu computador entra no boot), selecionar a iso do linux no pendriver e instalar dando next. Sério. Só escolher o idioma, next, next e pronto. Simples, rápido e funcional.

Para os gamers, o linux não roda tudo por culpa das produtoras de jogos. Aqui vou dar alguns exemplos de jogos que não rodam: Valorant, League of Legends, Fortnite, Destiny 2, Call of Duty, Apex Legends e por aí vai. São poucos jogos que não rodam, 90% dos jogos você só vai instalar e dar play. Vão funcionar e às vezes até melhor que no windows. Pra saber se o jogo que você gosta vai rodar bem no linux, consulte aqui nesse site: protondb.

Minha grande questão existencial é que eu estou pregando a palavra do linux pra todos e ninguém me ouve. E eu entendo perfeitamente. Num passado remoto quando faziam isso comigo eu só ignorava. Pensava que era só um doidinho emocionado. Hoje eu me coloco nessa situação e vejo o quanto é útil e muito melhor usar o linux e parar de passar raiva com o windows. 

Os tempos mudaram muito e estamos numa época muito boa para o linux. Sejam bem vindos aos que querem vida nova.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

16 livros para entender os perigos das redes sociais e os objetivos sinistros das big techs

Trago aqui um compilado de livros que li e que me inspiraram a estudar mais sobre o tema das big techs e abandonar as redes sociais. Eu comecei a enxergar problemas lá pelo ano de 2015, quando fiquei incapaz de ler um livro e culpo o facebook por isso. Hoje eu sei que o facebook anda declinando em popularidade, apesar de muitas pessoas ainda fazerem uso, principalmente aqueles ditos acima de 35 anos. Em 2018 estourou o escândalo da Cambridge Analítica e desde então o facebook entrou em descrédito. 

Por ter basicamente destruído minha saúde mental, essa plataforma foi a que passei mais tempo falando mal desde que a abandonei em 2017. De lá pra cá, esses livros funcionaram pra ter mais conhecimento de causa e analisar os motivos que me fazia ficar conectada dando meu tempo de vida a essas big techs e engajada em brigar, analisar, escrever textão e todas essas coisas que hoje considero vergonhoso pra mim.

Vou colocar uma breve descrição do que cada livro fala.

1) DOMINADO PELOS NÚMEROS - David Sumpter

Esse livro traz uma explicação técnica de como os algoritmos são usados pra entender mais sobre nossos gostos e moldar o que vamos ver nas redes sociais. Ele ainda faz uma análise acurada do porquê, mesmo você sendo um metaleiro que aprecia bandas como Obituary, Cannibal Corpse, Sepultura ou Deicide, aparece bichinhos fofinhos e vídeos de pagode dos anos 90.

A questão é bem curiosa, já que o extremismo é coisa humana. Ou seja, essa coisa de sim ou não, 8/80, vai ou racha, preto ou branco não existe nos algoritmos. A máquina entende que, com alguma probabilidade de erro ou acerto, você pode sim ouvir Cannibal Corpse na sua playlist e ser fã de ursinhos carinhosos no sigilo. Nada nos impede disso, o extremismo é puramente ideológico, não refletindo verdadeiramente na complexidade humana.

Essa é uma dica interessante de leitura pra quem quer entender como o sistema dessas redes são sofisticados pra te deixar viciado e te fazer acreditar que o problema é você, não eles.

 

2)  DEZ ARGUMENTOS PARA VOCÊ DELETAR AGORA SUAS REDES SOCIAIS - Jaron Lanier

Eu já postei nesse blog um capítulo desse livro, do qual Lanier se dedica a falar sobre política. Você pode ler aqui, caso tenha interesse. Esse livro traz 10 argumentos pra que você simplesmente delete suas redes sociais. Não existe considerar, nem reduzir o tempo, o autor sugere que você DELETE.

Os argumentos vão desde a perda de liberdade, livre arbítrio e privacidade, passando por assuntos ligados à saúde mental, explicando os motivos da gente ficar mais tristes quando presentes nas redes sociais, até questões extremamente graves como genocídios, estupros e golpes nas democracias causados pelas redes sociais.

Jaron Lanier diz que parou de dar consultoria para filmes de ficção científica por acreditar que esses caras brancos liberais do Vale do Silício usam essas ideias inescrupulosamente pra criar mais problemas ligados à tecnologia. 

Minha dica é começar por esse livro. Ele te dá um imenso norte pra continuar as pesquisas sobre essas nefastas redes sociais. 
 

 3) OS ENGENHEIROS DO CAOS - Giuliano da Empoli

 

Esse livro nos conta a história de Steve Bannon e da Cambridge Analytica e como eles se utilizaram dos algoritmos e os padrões de dominação das redes pra glorificar figuras como Trump, Salvini e Bolsonaro que antes eram desconhecidos ou marginais na vida política e se tornaram presidentes. O autor nos conta como é possível partidos como o Cinco Estrelas conseguirem eleger um número considerável de pessoas sem preparo algum pra ocupar esses cargos. Adianto que é um livro bem assustador e creio que isso pode convencer muita gente a abandonar as redes sociais.

4)  BIG TECH: A ASCENSÃO DOS DADOS E A MORTE DA POLÍTICA - Evgeny Morozov

 

Costumo dizer que esse livro é obrigatório pra quem deseja ter mais profundidade nos temas a respeito das implicações da tecnologia na nossa vida prática. Ou seja, a procura pela solução de problemas usando tecnologia, ou como o autor nomeia "solucionismo digital". Significa que as big techs costumam tentar encontrar solução digital para tudo, problemas urbanos, de trânsito, de moradia, transporte público, etc e muitas vezes a solução daquilo não é digital, mas melhorar a política pública e de acesso.

O autor também argumenta como, ao invés de ajudar, esses aplicativos de solucionismo digital criam muito mais problemas, levam empresas à falência e geram dependência do uso de suas tecnologias para conseguir monopólio de produtos e mão de obra que não são seus. O iFood tá aí pra nos mostrar isso.

Pense bem. As redes sociais criaram um problema imenso na nossa vida e na nossa saúde mental. Assim sendo, por que a solução pra isso não seria excluir o perfil, desligar o celular e viver nossas vidas no modo analógico? O que as pessoas acreditam que pode ser a solução? Criar uma outra rede social "mais humana"?

Meus amigos, não... Solucionismo digital, em grande parte das vezes é falso, cria problemas e atenta contra a democracia. Recomendo fortemente esse livro. Ele é bem embasado, bem escrito e mostra como digitalizar o mundo pode ser extremamente perigoso.

 5) ALGORITMOS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA - Cathy O'Neil

Esse é um livro bem interessante onde a autora demonstra que os aplicativos digitais que vão dominando nossa vida quando fazemos compra, quando lemos, quando saímos e viajamos, quando compramos remédios, comida ou consumimos produtos online, seja o que for, estão sempre presentes e se refinando para atender, não às nossas necessidades, mas às demandas de lucro das big techs. Ou seja, se eles não quiserem vender pra pessoas negras, os algoritmos aprendem a ser preconceituosos punindo as pessoas mais necessitadas e excluindo-as ainda mais do sistema. É uma leitura lenta e um pouco chata no começo, mas vale a pena.

6) FOCO ROUBADO: OS LADRÕES DA ATENÇÃO DA VIDA MODERNA - Johann Hari

 

Esse autor foi radical em submeter a si mesmo a viver uns meses num local isolado sem internet e com um celular com um botão grande pra emergência. Ele tomou essa decisão após levar o sobrinho pra conhecer o museu do Elvis e notar que ninguém prestava muita atenção ao redor, só tiravam fotos pra alimentar as redes sociais ou se distraíam no celular, inclusive seu sobrinho, que quando pequeno, sonhava em visitar esse museu.

Esse livro explora nossa vida de antes, quando conseguíamos prestar atenção aos filmes, a palestras e se concentrar na leitura. Ele mostra como os donos dessas big techs fizeram pra controlar nossa atenção com coisas até simples tipo o coraçãozinho e likes como recompensa e gamificação do uso dessas plataformas.

Indico fortemente pra quem quer recuperar a vontade de ler, trabalhar e estudar sem distrações.
 

 7) INFOCRACIA: DIGITALIZAÇÃO E A CRISE DA DEMOCRACIA - Byung Chul-Han

Byung-Chul Han é um grande filósofo do nosso tempo e nesse livro ele vai nos mostrar como as democracias estão indo pro beleléu e provando que parte disso é culpa nossa.

Nós nos deixamos influenciar por tão pouco, como gados, só porque algo é atraente e brilhante. Damos nossa saúde mental por tão pouca coisa em troca, em um sistema digital que nos humilha e faz coisas moralmente reprováveis, mas não possuímos muito senso de moral pra perceber isso e arruinamos nossas vidas, fracassamos e cada dia nossa energia se esvai por dar poder a essas redes. 

Byung-Chul Han explica os motivos de sermos tão coniventes com isso - mesmo você julgando que não - e nos convida também a entender como as redes potencializam coisas já conhecidas como terríveis mas que são recicladas. Por exemplo, ele diz que não adianta fazer checagem de fatos porque a verdade já foi proclamada e dificilmente as pessoas mudarão uma ideia que já está assimilada como verdadeira em suas cabeças. Pra exemplificar isso, ele usa as propagandas nazistas que induziam o povo acreditar que os judeus estavam matando e causando problemas quando na verdade foram os nazistas que organizaram todo o genocídio.

Eu recomendo fortemente a leitura desse livro. Isso fecha com o que eu sempre costumo dizer nesse blog - e eu vou preparar um post só pra isso -, que toda a checagem de fato - mesmo que venha do seu influencer estudioso com doutorado que só está tentando te alertar - vai contribuir como propaganda em favor de quem está viralizando a informação errada. Uma vez que as pessoas aceitaram mentiras como verdades, elas não vão ouvir checagem de fato.

8) A ERA DO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA - Shoshana Zuboff

Pra você que gosta de temas mais ligados à economia e como funciona as big techs nesse cenário todo, esse livro é a coisa mais interessante e assustadora que há. Ele mostra o poder que essas big techs têm sobre a economia mundial e como eles acumulam riquezas astronômicas minerando nossos dados sem nosso consentimento.

Não há mais privacidade, você é exposto a todo momento, leiloado, vendido e julgado mesmo sem concordar e nem saber disso. A falta de privacidade e a vigilância constante são transformadas em lucros. Esse livro vale seu tempo.


 

 

 

 

9) POLÍTICAS DO ENCANTO - Paolo Demuru

 

O livro explora como as redes sociais são um terreno fértil para o pensamento extremista, o levante do fascismo e um verdadeiro lamaçal para a esquerda. É um livro corajoso e forte, eu particularmente, que detesto redes sociais e seus criadores, fiquei muito feliz em ler isso. Foi como lavar a alma.

Tem um canal que eu sigo no youtube chamado Frederico Krepe. Um dia ele fez um vídeo muito bem articulado explicando a respeito da internet, das redes sociais e como é possível usar essa ferramenta pra mobilizar os trabalhadores. Ok, eu concordo. A internet faz parte da comunicação, não podemos negar.
Além do que, ele diz que não existe essa dicotomia entre vida real e internet, que a vida real é a internet. Se tiver interesse, clique aqui pra ver o vídeo.

A internet é uma espécie de continuidade híbrida da nossa vída, se assim pudermos falar. Como qualquer coisa na vida, se usar demais, pode ser prejudicial para a saúde do corpo e saúde mental. As redes sociais são perigosas, provocam vício e deixa você infeliz. E eu não tô nem tratando de exceção aqui. Nem mesmo gente que tem motivo pra ficar feliz com rede social, aqueles seletos grupos que faturam muito dinheiro com gente ingênua estão transbordando de felicidade, quem dirá pessoas pobres como eu e a maioria. 

Krepe não explica o conceito de guerra híbrida. Só diz de forma errada que ela serve pra explicar "qualquer coisa". Nada menos que falácia. As redes sociais, principalmente se estamos falando de x/twitter são sim instrumentos de guerra híbrida, queira o Krepe entender isso ou não. Guerra híbrida é uma forma de chamar técnicas de ataque militar passadas pra tecnologia, como manipulação psicológica, cyberataques, desinformação e por aí vai. Não se usa canhão na guerra híbrida, usa meme. É ridículo né? Mas infelizmente foi o que essas redes condicionaram as pessoas a fazerem.

Como diz Byung-Chul Han, as redes sociais amplificam notícias falsas como se fossem verdades e as pessoas aceitam isso. Chutam desinformação sobre vacinas na nossa cara e não adianta nada fazer checagem de fato ou querer dar explicação lúcida, o estrago foi feito, será difícil de voltar atrás a menos que essas merdas sejam regulamentadas - e ainda sim, tenho minhas dúvidas se vai conter a desinformação.

Internet não se resume a rede social. Rede social é aquela coisa comandada por bilionários sem o menor escrúpulo que necessitam de gente de esquerda logada pra direita prosperar. A esquerda pode espernear achando que estão agregando algo nas redes, mas elas estão, em parte trabalhando pra gerar matéria prima pra direita conspirar. Não estou alegando, com isso, que a esquerda deva se calar e cessar a comunicação. Seria sim interessante se o x/twitter perdesse sua relevância e fosse enfraquecido. Mas eu não espero por isso, as pessoas acreditam mesmo em suas relevâncias nessas merdas digitais.

A internet também faz parte da nossa vida, mas rede social não resume a internet e não é nem de longe errado questionar o fato mais que concreto que esses bilionários, sem o menor escrúpulo usam essas ferramentas pra lucrarem com desinformação e polarização política. Assim sendo, se você tem algum juízo na cabeça, se envolva com política, mas delete sua rede social sim. Toda luta social é válida e você não está lutando contra um fantasma.


10) UMA VERDADE INCÔMODA - Sheera Frenkel e Cecilia Kang

Esse livro conta a jornada de Mark Zuckerberg, como ele se tornou tão poderoso, como o facebook ficou tão gigantesco e também demonstra como isso causou retrocesso na informação, na democracia e na nossa vida pessoa. 

As autoras também explicam como a meta fez um imenso esforço de negar as acusações que pesavam sobre ela de desinformação, mentiras, manipulações, discursos de ódio, genocídios e manipulação política. A meta alega que não sabia que estava causando esses problemas, mas não é verdade, pois falta de avisos e denúncias não faltaram. Até mesmo um funcionário da parte de segurança da meta tentou avisar ao Zuckerberg o que estava acontecendo e ninguém fez nada.

Elas demonstram até a influência russa nas eleições estadunidenses e como Mark Zuckerberg esteve o tempo todo 100% consciente disso. É uma leitura revoltante, mas que diz muito sobre as intenções desse tipo de gente como Zuckerberg. 


Esse livro sem dúvidas te faz respirar com alívio quando você decidir deletar sua rede social sabendo que faz a coisa certa.

 

11) A FÁBRICA DE CRETINOS DIGITAIS - Michel Desmurget

 

Indicado principalmente pra os pais ou responsáveis por crianças e adolescentes. Aqui o autor demonstra que é absurdamente falsa a ideia de que é necessário o uso de telas para a educação, e que toda essa situação degradante de permitir que crianças tenham celulares e acesso à internet está criando problemas de ansiedade, atenção e foco e ainda criando desigualdade educacional, já que essas mesmas crianças irão crescer e concorrer com adultos que foram criados com educação sem tela e esses terão completa vantagem intelectual.

Esse livro demonstra o que sabemos bem: que as redes sociais e o celular são perigosos, mas pra crianças e adolescentes que ainda estão com o cérebro em formação, isso pode causar danos até irreversíveis. Recomendo fortemente a leitura. 

 


12) A GERAÇÃO ANSIOSA - Jonathan Haidt

 

Esse livro é uma leitura obrigatória pra todos. Quando saiu a polêmica de "adultização" levantado pelo youtuber Felca eu lembrei imediatamente desse livro porque ele mostra de uma forma bem direta como, por exemplo, a meta tem os ingredientes específicos para atrair adolescentes e crianças pra suas plataformas.

Ele expõe até documentos sobre como a meta tem a estratégia correta pra empurrar conteúdos específicos pra esse público juvenil e torná-los viciados, mesmo sem o consentimento dos pais. É bem chocante, mas lembre-se, quem comanda essas plataformas são bilionazis que só querem lucro, tão cagando e andando pra você e sua família.


 

 

13) LIMITE DE CARACTERES - Kate Conger e Ryan Mac

 

Esse excelente livro documenta toda a história de aquisição do Twitter, que não foi nem um pouco limpa e amigável e que conseguiu destruir essa rede social. Esse sujeito é tão mimadinho, egocêntrico e abjeto, que o twitter se tornou um verdadeiro caos depois que ele o adquiriu só pra satisfazer suas vontades infames. Difícil acreditar quem diabos consegue admirar um sujeito desse depois de ler esse livro. Se antes não dava pra imaginar, depois do livro, menos ainda.

 

14) IRRESISTÍVEL - Adam Alter

 

O livro mostra como funciona a dinâmica do vício de forma brilhante, explicando como as redes sociais, jogos, tecnologias de vestir (como smartwatches) e os infames likes são criados propositalmente pra reter sua atenção. Funcionam como um caça-níquel, com cores vibrantes e barulho delicioso pra te manter sempre sentindo prazer.

O livro explora o assunto trazendo histórias de até partir um pouco o coração, como essa estudante que relata que o jogo das kardashians arruinou sua vida ou do rapaz que engordou 30kg jogando WoW e deixou até de tomar banho, passando 20 horas por dia jogando.

Adam Alter não fica falando sobre dopamina como se ela explicasse tudo (na verdade ela sozinha não explica nada), ele vai muito além disso e demonstra que é uma batalha até perdida lutar contra essas coisas. Esses covardes que fabricam essas merdas sabem exatamente como pegar a gente pelo prazer de continuar mantendo engajado e dando atenção para os joguinhos e atividades online que eles fabricam. É um livro bem interessante e que certamente você voltará pra ler de novo. 

15) LIBERDADE E RESISTÊNCIA NA ECONOMIA DA ATENÇÃO - James Williams


Esse autor veio de dentro dessa bagunça das big techs e nos mostra como a ideologia por trás da criação dessas redes sociais e demais tecnologias são inescrupulosas, covardes e como eles também desenvolvem um monte de bobagem sem nenhum cabimento pra extrair nossa atenção em nome do lucro e de outros motivos bem obscuros e sinistros.

Além do mais, o livro é bem aconchegante, você lê e se identifica imediatamente, como se ele estivesse resumindo seu sentimento diante de toda essa celeuma. 

O livro toca num ponto interessante. O autor sugere para os estudiosos que não publiquem os prejuízos que essas coisas trazem pro cérebro apenas para as crianças e adolescentes, mas que exponham como isso afeta brutalmente adultos e idosos.

Como ele diz: "Se nossas tecnologias não estiverem do nosso lado, não devem ter lugar em nossas vidas"

 

16 ) A MÁQUINA DO CAOS - Max Fisher

Esse é o livro que se eu pudesse dar só uma indicação, seria ele. Creio que é o mais completo sobre o mecanismo de engrenagem social criado por essas redes que acabou refletindo no tecido democrático do mundo inteiro.

Se você crê que tem controle sobre a rede que você usa, esse livro vai derrubar essa ideia e demonstrar como coisas até banais e idiotas como briguinha pra saber qual comida ou brinquedo é melhor, pode criar um verdadeiro caos na vida das pessoas. Ou até como um assunto bobo de mal entendido pode criar um caos e prejudicar trabalhadores.

Um exemplo disso é o caso de uma estudante do Smith College que acusou funcionários de impedi-la de comer no refeitório, alegando que ela "comia como uma negra". Isso causou um barulho nas redes sociais e gerou um escândalo enorme. Teve funcionário que saiu de licença, outro se transferiu e um deles pediu demissão.

A estudante em questão estava comendo em um espaço anexado ao refeitório que era pra crianças, e o zelador lhe pediu educadamente pra comer em outro lugar. E foi só isso. Ele só avisou ela, não a ofendeu, nem disse essas palavras grosseiras. O que veio dela, nas palavras do autor, foi uma hipérbole juvenil. 

A aluna que era vítima das redes e de racismo, passou a ser linchada moralmente e atacada. De heroína à vilã. Como diz o autor:

"Poucos pensaram em culpar as plataformas sociais que haviam dado a uma adolescente o poder de acabar com o ganha-pão de trabalhadores de baixa renda, incentivaram-na e a milhares de espectadores a fazer o que fizeram e garantiram que todos passariam por sua impressão errada, transformada em indignação, como algo mais verdadeiro que a verdade." 

Esse livro traz coisas ainda mais terríveis e tenebrosas como o genocídio do povo ruainga em Mianmar, e que sabidamente a ONU culpa o facebook como causador dessa limpeza étnica. Os refugiados - que hoje protagonizaram o maior êxodo do mundo -, processam o facebook por fomentar o discurso de ódio contra eles.

No dia que você se perguntar o que deu na cabeça do povo alemão pra apoiar os nazistas e serem completamente omissos aos judeus sendo mortos e massacrados em campos de concentração, pergunte-se o que dá na nossa cabeça de continuar usando uma rede da qual nós damos força e que causa inúmeros estragos no mundo e na nossa vida. Eu nem vejo problema em fazer essa colocação. Até porque eu não estou chamando de nazista quem usa rede social, não é isso. É simplesmente tapar os olhos e não querer enxergar o que está acontecendo.

Genocídios, estupros, caos, pânico, volta de doenças controladas por causa de movimento anti-vacina, desinformação, destruição da democracia, levante do fascismo, polarização, destruição da saúde mental, crise sanitária com propagandas de apostas e tolices ilegais, fake news sobre diversos tópicos, inclusive mentiras sobre o aquecimento global que dá moral para empresas fazerem o que quiser e sua vida virar um inferno.

Não ignore essas coisas. E se por ventura você ainda estiver pensando que fez amigos e reencontrou o cara que jogava bola contigo na escola quando eram crianças, lembre-se que a quantidade de coisas ruins que essas redes trazem não valem o seu tempo e não tem nenhum custo-benefício.

 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Esqueça a dopamina

 

Quando encontro algo sobre vício em redes sociais, abro pra ler confiando que haverá boas informações. E às vezes tem mesmo. Tem muita gente produzindo bons conteúdos e bastante informativos. Porém, esse do vício e crítica às redes sociais é bem esquisito. Isso porque, os queridos que escrevem essas coisas ou fazem vídeo tentando explicar o que nos torna viciados nas redes sociais, sempre investem no argumento da dopamina, algo que todo mundo tá careca de saber. Funciona assim, você encontra um assunto legal sobre vício em rede social num canal qualquer e ele gasta 5 minutos te explicando que tudo isso só ocorre graças à dopamina e blá blá blá. Esse cara copiou de outro, e de outro e de outro. Aqui quero fazer diferente. Quero falar de vício em redes sociais do ponto de vista de uma pessoa que já foi viciada nessas merdas, mas sem usar nada de científico. Você já deve ter ouvido em algum canal por aí algo sobre dopamina. Não preciso repetir aqui porque acredito que é algo que filosoficamente precisamos explorar e pensar sobre sem ficar procurando resposta em bioquímica. 

Todos estão carecas de ouvir explicações de bioquímica. Se há um vício, tem algo desregulado ali. A grande questão é como podemos controlar e parar com o vício. Acredito que a grande maioria tentou não perder horas da vida nas redes mas não conseguiu. Eu fui uma delas e não vendo muita saída, deletei as redes e nunca mais voltei. Foi o único jeito pra mim, até porque a ideia não é só reduzir, mas sim parar completamente de dar força a essas plataformas. Elas são perigosas e inescrupulosas, já se sabe que causaram genocídios, golpes de estado, já ajudaram a eleger políticos de extrema direita e são responsáveis também por países retrocederem suas leis baseado apenas em opiniões vazias.

Você não está na rede social pra socializar e sim pra ser leiloado, vendido, usado e minerado. Você pode até ouvir seu influencer com doutorado esclarecer sobre alguma desinformação que viralizou, mas lembre-se que antes de mais nada, foram as redes que permitiram que aquela pessoa que antes ficaria na marginalidade social, simplesmente fosse ouvida por milhões. É como tentar resolver um problema que você não pode e que um motor infinitamente maior e mais poderoso está se esforçando pra tornar conteúdos execráveis em tendências opinativas. E claro, seu influencer com doutorado, por mais nobre que seja a intenção, fará exatamente o que o algoritmo espera dele, solucionar um problema que a própria plataforma criou.

As plataformas sabem que brigas, conteúdo duvidoso, gente respondendo fulano e beltrano, viralismo estranho e todo tipo de futilidade gera muito engajamento. Você fica viciado, quer saber mais e mais sobre aquilo e eles te dão o que te gera muito prazer. E será mesmo que só a dopamina explica isso? Será mesmo que esses caras que aprenderam a te adestrar fazem isso apenas contando com a dopamina? Você acha que esses caras não conhecem a questão da criação de hábitos e validação social? Acham que eles ignoram que isso te dá uma espécie de recompensa social? Acha que eles, com muita má fé, não se aproveitam de sua ansiedade, sua solidão, seu tédio e seu estresse pra te empurrar um conteúdo que te consola? Acha que eles não manjam nada sobre engenharia comportamental como a rolagem infinita, vídeos com autoplay, notificações e algoritmos covardes que te mantém preso empurrando todo tipo de merda inútil? E suas emoções negativas? E a questão humana do habito automático? Você acha mesmo que esses caras não dominaram tudo isso pra gamificar as redes te oferecendo biscoitinho e depois vão empurrar tudo pra conta da dopamina?

Quando você quer parar de usar rede social e tem esse choque de realidade, é também a dopamina que está controlando essa retomada de bom senso. Quando você recobra o senso de moral, a dopamina é um dos neurotransmissores por trás disso, mas eu não quero entrar em detalhes. Não tomamos nossas decisões baseada em bioquímica. Não que não seja importante saber disso, mas acreditar que um tal de jejum de dopamina (seja lá o que for isso), possa ser solução para seus problemas, é uma coisa no mínimo de se questionar.

Queria saber por que quando se fala em vício em álcool ou em cigarros, ninguém fica te empurrando essa merda de dopamina. Ninguém fica abrindo livro de bioquímica e nem citando nome de neurotransmissor. Simplesmente as pessoas levantam problemas sociais que provavelmente te fizeram entrar nesse vício. No caso do álcool é muito comum ouvir relatos de pessoas que falam que se envolveram culturalmente em um hábito aceito socialmente e por algum motivo, quando algum episódio da vida ficou obscuro demais, ela se tornou viciada. Ninguém fica falando de grelina, cobalamina, dopamina, gaba, glutamato, serotonina e por aí vai... Saber disso, interfere no que mesmo? Você não pode controlar essas coisas, assim como não tem controle de quando tem vontade de cagar e mijar.

Uma analogia que faço é com aquelas pessoas que, novamente, como se ninguém tivesse careca de saber disso, insistem no ponto de que nosso corpo não quer perder peso porque evoluímos pra guardar energia. E aí começam a falar na longínqua vida do ser humano nas savanas, tempo esse que era difícil conseguir comida e abrigo. A solução, claro, é sempre medicamentosa. Você não vê essas pessoas falando sobre questões de antropologia e cultura, sobre o sistema vigente que vivemos e nem de políticas públicas. Por exemplo, o índice de obesidade no Japão é baixo. Será que isso ocorre porque há algum plasma sagrado no sangue dos japoneses que os impede de engordar ou porque a cultura alimentar pode explicar isso muito bem? Será mesmo que a gente vai sempre ficar à mercê dessas explicações que, ok, estão corretas, mas não são explicações finais sobre o comportamento humano?
Será que taxar essas empresas que fazem ultraprocessados e dificultar o acesso a essas merdas não resolveria uma parte considerável do problema? Incentivar esportes e melhorar o acesso urbano para as pessoas se deslocarem a pé, de bicicleta e outros veículos simples como skate e patins não seria também desejável? Criar mais parques, acesso ao lazer e educação de qualidade não seria uma ideia melhor do que gastar um rio de dinheiro tentando solucionar um problema que em parte essas big foods criaram?

Eu sei que o mundo ideal é bem diferente de pessoas que estão precisando. Eu não sou contra medicamentos, afinal, se o problema foi criado é preciso resolver. Mas é muito difícil de conter o avanço de qualquer coisa quando o problema não é resolvido na fonte. E não, eu me recuso a me conformar que não tem nada a ser feito.

Comprar essa ideia de dopamina é querer tapar um buraco de algo mais sombrio. Precisamos sim fazer alguma coisa, caro leitor. Esqueça essa história de dopamina. Pense nos ganhos ou perdas que você teve de acumular like e expor sua vida pra todo mundo. Pense que talvez, aquele desentendimento que você teve com seus amigos e familiares não teria existido se você não tivesse rede social.

Uns anos, quando ainda tinha orkut, um amigo do meu ex veio me xingar. Usou um scrap pra fazer isso e ainda do perfil da funcionária dele que era minha amiga. É claro que ele está errado e desde esse dia, nunca mais falei com ele, nem meu ex. Mas se não tivesse rede social pra me xingar, o que ele faria? Vomitaria os injustos insultos dele na minha cara? Difícil saber. Isso porque estou falando de uma rede social que não tinha um algoritmo ditando seu comportamento, as pessoas faziam as coisas conforme lhes davam na telha. Imagine nos dias de hoje, eu penso que seria bem pior. Talvez ele faria um vídeo meu me xingando publicamente...

Todos nós queremos validação social, mas as redes levaram isso pra outro nível. Os comportamentos comuns, eles potencializam pra você acreditar que sua vida está ali dentro conectado. Eu acredito que num futuro próximo, não saberemos explicar direito como permitíamos que uma empresa fizesse tal coisa com a gente, sondasse nossa vida, tirasse a privacidade, nos deixasse viciados e destruíssem nossa saúde mental. Esse estudo aqui diz que gastaremos 25 anos de vida nas telas dos celulares. É no mínimo de se pensar.

Pra quem não vê problema nenhum em estar lá conectado, francamente, eu não me importo. Vá na fé, siga com o que você acredita e se joga. Mas se você é desses que vê muitos problemas, sente que algo vai errado e repensa sobre seus hábitos, considere deletar sua rede social. Você vai ver que não fará diferença nenhuma na sua vida, nem na de ninguém, o máximo que você recobrará é sua saúde mental.