quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Vamos falar sobre o ET de Varginha e narrativas

 

Sei que não é tipicamente o assunto do blog, e eu não quero exatamente destrinchar esse caso. O que realmente quero é explorar o poder da narrativa que ele envolve e como as redes sociais fazem coisa parecida em um potencial absurdo.

No dia 20 de janeiro de 1996, três mulheres jovens - Liliane, Valquíria e Kátia -, durante uma chuva e vento forte, pegaram um atalho por um terreno baldio e viram uma criatura esquisita agachada e encostada em um muro. De acordo com elas, era uma coisa incomum, muito magro, pés grandes, olhos brilhantes e três chifres na testa. 

Com o tempo de chuva intensa, vento e, como elas mesmas disseram, antes de avistarem a tal criatura, alguém havia lhes alertado que chamaram a polícia pra um homem que supostamente estava assediando as mulheres que passavam por ali. Não que eu duvide da palavra delas, mas isso não seria suficiente para os cenários mais assustadores possíveis? Pense só, você está na rua, cai um temporal, alguém lhe diz que tem um tarado atacando as mulheres e venta forte. Sua mente entra no modo de alerta. 

Mas minha ideia não é explorar a fundo esse caso e nem questionar a sanidade das meninas. O que quero é dar um pouco mais de atenção ao que veio depois desse avistamento pelas três de Varginha. 

Um famoso ufólogo chamado Ubirajara Rodrigues, vendo uma excelente oportunidade de narrativa, foi até Varginha dizer às meninas que o que elas viram foi um alienígena. Deixo claro que essa parte de oportunidade de narrativa é minha opinião, mas veremos que ela faz sentido, já que a ufologia vive de histórias que ninguém pode comprovar e o que veio a seguir foi uma sequência de acontecimentos férteis para a imaginação.

Ocorre que o parceiro de pesquisa de Ubirajara, o ufólogo Vitório Pacaccini também foi pra Varginha reunir testemunhas e provas de que o avistamento foi algo oriundo de outro mundo. Ele juntou depoimento de muitos moradores que disseram ter visto algo estranho naquela tarde de janeiro. O que chegou nas mídias? Apenas homens dizendo que viram algo luminoso no céu. Não foi mostrado o que Pacaccini disse a eles antes disso.

Também teve alguns eventos curiosos. Entre eles, o caso do policial Marco Eli Chereze. Ele teve uma pústula na axila, um furúnculo e foi submetido a um pequeno procedimento no quartel. Depois, ele deu entrada no hospital com dores intensas na lombar e foi internado. A infecção evoluiu de maneira agressiva, atingiu a circulação e comprometeu outros órgãos. Então, em 15 de fevereiro ele morreu de septicemia, choque séptico e complicação respiratória. O que causou a morte rápida dele foi uma infecção. Eu poderia passar mais uns 10 parágrafos dissertando sobre o estrago que as bactérias podem causar, mas eu me formei em Filosofia, não em Biologia, Medicina. Não vou me arriscar em assunto que não conheço.

A revista Questão de Ciência fez uma excelente matéria que pode ser lida aqui. Eles contam o caso com detalhes. Aqui eu só vou resumir que, para os ufólogos, o soldado morreu porque entrou em contato com a suposta criatura alienígena que deve tê-lo infectado ou feito ele entrar em contato com uma substância desconhecida. 
É aqui que eu gostaria de chamar a atenção pro negócio. Se é "desconhecida", isso não nos permite avaliar o que era e nem supor qualquer coisa. Se não sei, então não sei e no caso desse soldado, a narrativa ufológica quer que você acredite que a morte dele foi muito estranha, um jovem saudável morreu em tão pouco tempo, num intervalo tão curto. Se alguém acha que uma bactéria destruir muito rapidamente a vida de uma pessoa 
é novidade na medicina, eu realmente gostaria de pedir que abra bem os olhos para a realidade infeliz de nossa vida.

Pessoas perfeitamente saudáveis podem ficar doentes de uma hora pra outra. Se estamos falando de infecção, a coisa ainda vai ladeira abaixo. 

A causa da morte de Chereze tem explicação científica e médica de sobra. É triste, mas é simples. E todo o caso de Varginha foi construído pra criar uma narrativa que fosse precisa e funcional, jogando os fatos concretos naquela zona cinza de "não tem como saber", mas cuja história, desde o início do avistamento, tem explicação muito simples.

O problema é que ninguém gosta de explicações simples e partir daí, a história do tal ET vai só piorando. Os ufólogos propagaram ideias incríveis, como policiais que levaram o tal ET pra um pronto socorro que não quis atendê-lo. Eu realmente queria entender melhor essa parte porque se tudo era um segredo, por que diabos levariam uma criatura desconhecida a um hospital que provavelmente ninguém conseguiria tratá-la? 

Após isso, um policial deu uma declaração que um casal com nanismo deu entrada no hospital para ter um bebê. Isso alimentou mais ainda a imaginação das pessoas e deu mais material para Pacaccine construir sua narrativa. E ele fez isso muito bem, comprando militares pra mentir, usando a verdade pra tentar descredibilizar a polícia, o exército, os médicos e as universidades investindo na velha retórica de que eles se mancomunam pra esconder a verdade da gente.

Anos depois, o ufólogo Ubirajara reconheceu que errou feio, alegando que atrapalhou a memória das meninas em relação ao que elas viram, que fez suposições erradas e que isso não merecia mesmo a atenção que, infelizmente ele fez toda a mídia olhar pra esse caso.

No fim, a conclusão é que, o que as três de Varginha viram no muro naquele fatídico dia chuvoso, foi um homem 100% humano chamado Mudinho. Elas negam, dizem que conheciam Mudinho muito bem, não teriam como confundir ele. 

É difícil pra gente aceitar que nossa mente é capaz das coisas mais absurdas quando colocada em alerta. Como a memória das meninas foi prejudicada quando o ufólogo Ubirajara foi para Varginha imputar até falsas memórias nelas, formou-se um cenário em que, negar tudo depois seria realmente muito difícil.

Ok, mas e aí? Como podemos, no final das contas usar a narrativa do ET de Varginha pra fazer um paralelo entre as redes sociais?

Todas as narrativas extraordinárias que tiveram força absoluta na rede social, como terra plana, harp, antivacina, QAnon, Tartária, Ratanabá, carboidrato causa câncer, dieta da selva, fazer chuca com café e o que mais que a imaginação viajar, tiveram começo, propagação, viralismo e blindagem contra críticas.

Uma coisa que você daria muita risada há 20 anos atrás como dieta da selva, ganharam outra dimensão nas redes sociais como malucos falando sério e falsificando assunto científico, ganharam seguidores, blindagem de críticas e isso deixou de ser uma coisa que ficou no campo do ridículo - e que ainda merecia continuar no esgoto de onde veio - e passou a integrar uma verdade. 

Pessoas como Pacaccine estão lá aos montes, capazes das coisas mais absurdas para propagar mentiras e ganhar dinheiro com elas. E quero lembrar aqui, que dificilmente essas coisas são desmentidas. Vejam o exemplo da Virgínia. Eu particularmente sempre vejo na minha rede de pessoas, todo mundo falando mal dela. E as notícias são desanimadoras. Defensora de Bets, ela também é responsável por causar uma crise na saúde pública no Brasil.

Mas diante de todas essas atrocidades, por que cada dia ela fica mais rica, mais famosa e consegue só mais seguidores ao invés de afastar as pessoas de lá?

Porque a rede social que ela recebe dinheiro e engana gente ingênua é o terreno que favorece pessoas como ela. Não se trata de uma rede social livre, que todos escolhem o que olham, que o feed é limitado, que você está disseminando informação só pra quem está interessado em ouvi-la.

Não.

O que acontece é que quanto mais você compartilha vídeo informando sobre algo que a Virgínia fez de errado ou denunciando algum golpe que ela propaga, você está ajudando a deixá-la mais famosa. Mas como?

Tudo nas redes sociais é calculado pra favorecer narrativas estúpidas. Você vai compartilhar uma porcaria que comprou na Wepink, que corroeu sua pele, que é propaganda enganosa e pronto. Se viralizar e, digamos que 50 mil pessoas assistam, ao menos uma fatia de 30% vai virar seguidor da Virgínia. Ficarão curiosos pra ir até lá e ver que você está "exagerando", mesmo que você esteja falando a verdade.

Porque as redes sociais são um terreno pensado pra que narrativas completamente absurdas ganhem camadas de credibilidade e isso é irresistível. Acreditar que o governo esconde coisas da gente dá um sentimento de que estamos sendo enganados e precisamos saber a verdade. Eles contra nós.

Sem rede social, isso já tinha um potencial de causar merda, imagine agora que acharam um terreno propício e profissional pra fazer vídeos curtos, retórica impecável e uma merda de uma rede que vai difundir os absurdos pra milhões assistirem.

Enquanto puder, eu vou insistir: delete hoje mesmo sua rede social e não volte mais. Nada que você faz lá é orgânico. Sua militância não fará diferença quando quem manda nas redes são fascistas do Vale do Silício que não se importam com o tecido democrático.

Internet não é rede social. As pessoas podem estar nas redes sociais, mas também estão em todos os cantos dessa internet e passou da hora de entendermos isso.

domingo, 2 de agosto de 2026

Xteink, o curioso aparelhinho que me fez ler 4 vezes mais

 

Há uns anos, li um livro de Evgeny Morozov chamado "Big Tech a ascensão dos dados e a morte da política" e admito que tive vontade de arremessar meu celular contra a parede. Morozov usa a palavra solucionismo digital, onde ele tece uma crítica bem construída a essa onda das big techs tentarem solucionar tudo com tecnologia. Está doente? Monitore usando tecnologia. Precisa caminhar? Faça isso 3x mais usando relógio digital. Tem que tomar remédio? Não precisa se preocupar, use seu despertador no celular pra te lembrar. Está viciado no seu celular? Oras, a solução é baixar alguma coisa extraordinária oriunda de seu próprio celular pra cortar esse vício. A gente sabe que não adianta nada, mas lá vamos de novo.

Um amigo disse que tinha VPN e andava por aí com o celular no modo avião. Eu respondi a ele: desliga essa coisa, meu querido. Sabe o que é melhor que solucionismo digital? Não ter tecnologia nenhuma onde cabe apenas nós e nossa consciência. Eu sempre disse aqui que não precisávamos de rede social nenhuma pra nos comunicarmos. A internet é um universo vasto e rede social é só um nicho pequeno dela, acreditem ou não. É só mais um endereço que você acessa e com o adicional que isso pode estragar sua vida. Sem exageros.

Eu escrevi tudo isso pra adiantar o que vem por aqui: o xteink não vai curar ninguém do vício. Ele é um leitor digital que não possui elementos de distração, assim sendo, você consegue ler mais. Você pode levá-lo pra todo lugar. Ao metrô, às filas do banco, do mercado, na espera do médico, pra faculdade, para os intervalos de treino na academia... As opções são vastas. Ele cabe no seu bolso, quase não ocupa espaço e pode até ser grudado no seu celular através de um anel com ímã que vem junto na caixa.

Eu comprei essa coisinha justamente pelo tamanho e facilidade que existe nele. Ele não é touch e é bastante gratificante passar as páginas apertando um botão. Ele não possui qualquer elemento de distração. Não tem navegador, nem loja, nada. Você pode pegar arquivos epubs e colocar nele usando um código de barras via wi-fi. Simples e prático.

Muita gente diz que ele destrói o Kindle ou o Kobo. Não me cabe dizer que sim ou que não. Eu sou proprietária de um Kindle e uso bastante, principalmente quando vou dormir. Mas esse aparelhinho realmente foi uma surpresa muito grande. Eu acabo sempre lendo, mas muitas vezes preciso me esforçar um pouco pra abrir um livro, principalmente se eu tiver com ressaca literária. Nesses casos eu dou um tempo e espero passar, pra me aventurar de novo. Esse ano, minha meta era tentar ler um livro por semana e com esse aparelhinho, foi possível.

Eu não sei explicar os fatores psicológicos que me fazem continuar segurando essa coisinha sem soltar. Talvez porque ele seja extremamente simples, é pequeno, cabe em qualquer lugar e tem o design muito agradável. De todo jeito, tem me ajudado a ler mais. 

Eu não abandonei os livros físicos, principalmente os técnicos e os filosóficos. Mas vamos notar que esse tipo de tecnologia é a coisa mais legal. Eu adoro tecnologia, só não gosto de como essas empresa escolhem os modelos de negócios delas, abusando da nossa atenção. Esse negócio é pequeno, simples e ajuda muito a ler mais, por isso decidi trazer aqui como sugestão. A única coisa ruim que achei é que ele não tem luz, não é possível ler a noite, só se você ascender um abajur ou uma lanterninha. Fora isso, só alegria.

O sistema que vem nele, o Xtos, eu achei ruim, já que ele é pensado para processar textos em mandarim. Assim, optei por instalar o crosspoint, um sistema aberto, criado e mantido pela comunidade, que está disponível de graça. Os novos Xteinks estão vindo com bloqueio, através do site da crosspoint, você consegue desbloquear e instalar o sistema. Ele está disponível em português e mais de 30 idiomas, todos traduzidos pela comunidade. A instalação não demora nem 2 minutos. Simples demais.

Muita gente alega que esse aparelho tem curado o brain rot ou deterioração cerebral causada pelo excesso de tecnologia e redes sociais. Eu teria cuidado com essa alegação. Esse aparelho ajuda a ler mais, não há dúvidas, mas ser mais focado, se livrar do vício em telas e em redes sociais requer um pouco mais de esforço que livros e outras distrações. Ajuda psicológica ainda é o mais recomendado e lutar para que exista regulamentação e a gente não vire escravo dessas porcarias.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sobre a centralização de postagens em uma única rede dominante

 


Há muitos anos, na época do finado Orkut, eu seguia uma comunidade das Crônicas de Nárnia. Como pessoa muito jovem, era fã dos livros de Lewis. Mas o que me chamava a atenção nessa comunidade é que cada vez que postávamos algo que queríamos discutir, os adms deletavam e diziam que alguém já tinha levantado esse tópico não sei onde e você deveria comentar em um post que já existia. Quando você abria o post, ou não era bem o que você queria perguntar, ou ninguém responderia suas dúvidas, já que era um comentário no meio de tantos, além do post estar com a data bem distante.

Quando saiu o filme, eles criaram um tópico específico para comentar somente o filme. Se você quisesse levantar algum outro detalhe, não podia, porque tinha que centralizar tudo num tópico só. Não questiono a obsessão dos adms por organização, mas eu não conseguia entender. Um cara que fiz amizade nessa comunidade decidiu inaugurar a própria comunidade dele das Crônicas de Nárnia com liberdade total de expressão e a antiga ficou pra trás. Os adms reclamaram, mas perderam a razão. Se o orkut deixava você usar os espaços, então use. Pra que centralizar tudo? Afinal, tudo já estava centralizado no Orkut.

Há pouco tempo, um amigo me disse que preferia usar ou instagram ou tiktok pra ver tudo. Segundo ele, se você tinha a opção de comprar em um shopping onde tem tudo, pra que procurar lojas paralelas por aí, incluindo o cinema? Vá em um lugar só e tudo estará lá, centralizado. E eu, que nem acreditei que li isso, respondi: mas a cidade já é centralizada. A internet já é centralizada, pra que recentralizar tudo em uma rede social se a www está aí pra essa finalidade?

É uma lógica que não vou entender e não preciso. Sei que é cômodo você fazer uma viagem só a um local com tudo próximo que ficar rodando por aí. Mas por aí existem opções muitas vezes mais baratas, então pode valer a pena sim.

Eu criei um substack, mas reparei que é uma rede que necessita de engajamento e eu não quero fazer isso. Não quero gastar horas dentro de rede social lendo feed e fazendo "amigos". Eu não tenho mais paciência pra isso, dia após dia fazer sempre a mesma coisa a troco de visualização. Gente, a menos que você trabalhe com uma merda dessa com adicional de insalubridade, eu nem consigo mais me imaginar vivendo assim.

A internet já foi um lugar onde pessoas postavam das coisas mais interessantes às mais estranhas, ao que hoje leva a carinhosa alcunha de Icebergs, onde encontrávamos todo tipo de camada e acredite, isso era muito divertido. Ainda existe, nunca morreu, as pessoas só não estão lá. Eu pretendo levar esse blog aqui para o neocities e manter ambos, afinal, nunca se sabe o que a google pode decidir amanhã ou depois.

Não podemos prever o futuro, mas acredito fortemente que as redes sociais e a economia da atenção vai declinar. Nunca na história da internet vi coisas permanecerem no auge pra sempre. Vejo que hoje as pessoas preferem voltar àqueles espaços de comunidades, como discord, podcasts e telegram. Não que isso seja muito bom, mas é uma ascensão interessante. Vi até que aquelas salas de bate papo começam a voltar timidamente. As pessoas procuram muito por vídeos de relatos de como foi sair das redes sociais. Esse blog mesmo, que eu considero um grande fracasso, tem aumentado o fluxo de leitores, principalmente postagens falando mal de rede social. 

Tudo voltar a ser como antes, eu considero muito difícil. Mas será cada vez mais e mais comum encontrar pessoas que não usam rede social ou que desejam voltar ao básico.

Nós não precisamos de rede social pra nos comunicarmos, eis a real. A internet já é um local onde você pode fazer isso e um dia as pessoas se tocarão disso. Pode demorar um pouco, mas acontecerá. Na internet as coisas podem durar, mas nunca ficam no auge pra sempre e com as redes sociais não será diferente. Elas têm prazo de validade sem dúvida o hype chegará ao fim.

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A IA depende de você, não o contrário

Queria fazer uma breve reflexão sobre o fato de vermos tantas notícias estúpidas sobre IAs, principalmente aquelas do tipo: "Não temos controle sobre isso" ou a mais recente, que a nova IA da OpenIA se rebelou. Sério, eu começo a ficar com raiva até de quem fica propagando essas chamadas sensacionalistas. Como pessoa crítica das IAs e descrentes de todas elas desde o início, meus amigos gostam de me enviar as notícias mais escabrosas e minha resposta quase sempre é: manda a OpenIA provar que isso aconteceu com ciência e artigo. Aí talvez eu possa analisar. Fora isso, é só lero lero.

Essa situação fez o autor e cientista da computação Dr. Carl Newport escrever esse artigo, atitude que ele chama carinhosamente de Doom Trolling, ou seja, quando essas empresas de IA fazem um alarmismo proposital pra promover medo e previsões catastróficas sobre os próprios produtos e o futuro da humanidade. Como ele mesmo diz em um vídeo:

"Em vez de promover suas ferramentas com entusiasmo (como Steve Jobs fazia com o iPhone) os CEOs e executivos adotam uma postura solene de alerta, prevendo cenários como: extinção da raça humana ou perda de controle sobre superinteligências, desemprego em massa e colapso da economia em poucos anos e riscos de segurança nacional equivalentes a guerras nucleares"

Ora, se é verdade, por que essas empresas continuam fazendo isso? Se eles não terão controle nenhum sobre, pra quer continuar o projeto? Finalizem e destruam tudo, é perigoso. Fim. Mas é claro que isso não é verdade. Esse alarmismo todo funciona muito bem. Vende, cria polêmica, além de atrair bilhões em investimento. Não é um paradoxo que bilionários que controlam o planeta aceitem perder o controle pra uma IA que eles mesmos criaram?

Sabemos que existe uma seita que cultua o Vale do Silício e essas empresas atendem a esse chamado vivendo em suas bolhas, sem eco, sem medir consequências e sem saber direito como funciona o mundo aqui fora. Homens privilegiados e liberais, que acreditam genuinamente na singularidade da IA e nessa ideia apocalíptica. A mente humana adora esse tipo de alarmismo bobo, que não aprendemos a tirar da cabeça, nos recusamos a crescer e analisar criticamente todas as coisas.

Agora vamos para a ótica real: quem opera essas IAs? Não somos nós? O que aconteceria se o mundo inteiro simplesmente parasse de utilizar essas merdas? Obviamente um grande nada. As empresas entrariam em crise e Sam Altman ficaria desesperado falando qualquer baboseira pra nos convencer a usar seus produtos. A IA é o que é por nossa causa e não o contrário. Quem tem potencial de destruí-las somos nós e não o contrário. Sem a gente, a IA não é nada. É bom recobrarmos nosso senso de moral a partir de agora e não cair nesse alarmismo dessas empresas canalhas. Costumo sempre dizer que se a IA fez é porque um humano assim quis.

Como admiradora de Carl Sagan desde a juventude, sua frase continua célebre: "afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias". Até que haja artigos científicos revisados por pares e dados abertos provando que modelos de linguagem estão desenvolvendo autonomia real e risco sistêmico, tudo isso continua sendo o que realmente é: estratégia comercial, relações públicas e cortina de fumaça para encobrir problemas reais do presente, tipo direitos autorais, consumo de energia e viabilidade financeira dessas empresas.


 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Uma vida baseada em telas

 


Alguns anos, li um livro chamado Irresistível, de Adam Alter. Ele estuda sobre todos os tipos de vícios no celular e em qualquer outra tecnologia que envolva telas. Tecnologia de vestir (como relógios e anéis com dispositivo de exercício), celular, jogos, games (principalmente os de competição), redes sociais e por aí vai. Adam Alter deu uma entrevista ao ICL em 2024 e disse que nós gastamos aproximadamente 25 anos de nossas vidas em telas.

Isso sem dúvida é preocupante. Mais de 47% do nosso tempo é dedicado às telas. Já me perguntei muitas vezes sobre a dependência em tecnologia. Não dá fugir de muitas coisas, como trabalho, bancos, pagamentos, whatsapp, email, etc. No meu trabalho, por exemplo, eu preciso sempre usar uma senha pelo authenticator para acessar minha VDI. Isso me obriga a levar o celular para o trabalho quando vou pra lá. Eu trabalho no sistema híbrido, 2 vezes no trabalho, 3 em casa.

Diante do meu fracasso de desligar o celular e me manter mais fora do whatsapp do que dentro, fui procurar ajuda psicológica. Esses caras que fabricam essas coisas jogam sujo, e por mais que eu tente lutar, eles sempre vencem. Agora está tudo ok e decidi manter o whatsapp, mas acessar ele somente durante alguns minutos por dia. Quem me conhece está familiarizado com isso e quando precisam de algo, me ligam. Claro que nem sempre é possível. Há dias em que eu falho miseravelmente, mas tento sempre fazer o possível pra não dedicar muito tempo a telas.

Mas isso não é só sobre mim, é sobre todos nós. Um dia, eu vi esse depoimento aqui no reddit:

 



Eu poderia seguir tentando entender por que um menino de 14 anos tem acesso livre a uma IA, mas não vem ao caso. Ele já está num nível bem dramático de vício. Quando pensávamos que não bastasse celulares, redes sociais, jogos, vídeos curtos, etc, ainda tem que lidar com IA. E ok, eu sei que IA pode ajudar, se há mesmo necessidade de fazer disclaimer. Afinal, as pessoas tem uma estranha preferência por exceções ao invés de focar no que está sendo problematizado. As IAs são úteis, mas são feitas com designer e linguajar pra você também ficar viciado(a) nela. E eu não preciso lembrar que alguém com 14 anos de idade ainda está em formação do corpo e mente, é muito mais vulnerável. Portanto, as IAs também causam vício e prendem você nas telas.

Eu já discuti aqui a respeito da bobajada que a gente sempre escuta por aí sobre a dopamina, como se tivéssemos controle sobre isso. Não temos. Minha visão é que vícios precisam de tratamento e infelizmente não é possível pra todo mundo. Enquanto a regulamentação não for uma realidade, resta procurar algum caminho pra recuperação, caso isso seja um incômodo.

Meu caso é bem complicado. Eu me forço a ficar sem o celular. No começo foi muito difícil mas agora eu reacostumei a ficar sem. Tenho horário pra olhar o whatsapp e não tenho redes sociais, salvo as que não me incomodam. As que eu fico dias e dias sem olhar, sem ler, não dizem nada pra mim.

Ter deletado o facebook em 2018 me fez enxergar a coisa por outra perspectiva. Antes parecia impensável ficar sem, mas a vida me mostrou que é tudo muito melhor sem postar, sem olhar feed, sem ter que postar foto, sem nada que corrompa nossa saúde mental. Hoje eu não consigo nem pensar em como é voltar ao facebook. Foi um alívio tão imenso ter ficado sem, que hoje eu mal consigo entender como consegui passar tantos anos logada naquilo.

Por volta de 2014, surgiu um movimento chamado 99 Days of Freedom. Eu o aderi na época e vi muitos depoimentos de pessoas que toparam o desafio e a saúde mental melhorou imediatamente. Livros, caminhadas, conversas com amigos. Mas Zuckerberg não pareceu se importar muito com o crescimento desse movimento. Isso porque ele sabia que depois de 99 dias, tudo voltaria ao normal. O facebook continuaria disponível e acessível pra qualquer pessoa.

Depois que terminou meus 3 meses, voltei ativamente ao facebook como se nada tivesse acontecido. Mas esse movimento nunca saiu da minha memória. Talvez seu criador Merijn Straathof não esteja surpreso em saber como as coisas pioraram muito. Isso indica que o facebook já causava um grande incômodo nas pessoas que achavam que era necessário ter rede social. Não é. Além do mais, redes sociais tem prazo de validade. Elas podem ter muita força no momento, mas isso vai passar.

Em 2010 eu me lembro quando surgiu o movimento NoSurf. Naquela época ainda se falava "surfar na internet" e esse movimento surgiu para que as pessoas não surfassem desmedidamente em redes sociais e escrolassem sem parar. Como vimos, de 2010 pra cá a coisa só piorou. Os smartphones se tornaram ainda mais viciantes, e as redes sociais locais ainda mais tóxicos, de modo que muita gente foi procurar ajuda psicológica pra lidar com isso. O NoSurf ainda está presente no reddit, com relatos dignos de roteiro de filme trash.

Eu não tenho solução para vício. Não existem soluções simples pra problemas complexos. O que posso sugerir é, sem dor no coração, delete sua rede social. Se force a ler um livro, praticar alguma atividade e resista, não volte atrás. Torne a usar a internet como fazíamos nos anos 2000, pra ver sites e blogs, com hora pra começar e sair. É muito difícil lutar contra essas merdas, esses donos das big techs jogam sujo. Mas vamos nos lembrar que, se não quisermos no futuro contar que metade da nossa vida foi gasta em tela, não vejo solução senão lutar e resistir a tudo isso. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O que é Rage Bait e porque você deve resistir a ele

 



Umas semanas atrás, um jornalista chamado Paulo Figueiredo, querendo fazer uma crítica à Michele Bolsonaro, disse que "Mulher não sabe votar". E ainda continuou o discurso: "Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido". Essas palavras espalharam-se feito erva daninha na internet, virou manchete de jornal e milhares de pessoas deram suas respostas a esse cidadão, inclusive o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, que em mais um ato de desespero, alegou que não concordava com Paulo Figueiredo.
 
Também tivemos em abril, o caso de um Frei que durante um sermão, disse que "pessoas tatuadas não herdariam o reino de Deus". Bastou uma frase idiota dessa e pronto, a merda toda estava criada na internet. Vi até inúmeros vídeos de charlatões tentando usar a ciência pra mostrar que fazer tatuagem prejudicava sua pele, seu corpo e sua saúde e podia até causar câncer (?!)
 
Quem acompanha notícias de fora, deve ter tomado conhecimento do caso do Nikocado Avocado, famoso no mundo inteiro por praticar mukbang (ato de comer quantidades exorbitantes de comida). Ele comia, chorava, xingava, o peso dele na balança subia e ele ria, dizendo que o objetivo dele era mesmo ganhar 10, 20, 40kg. Nunca conheci um youtuber que tivesse tanto hate na vida. Nikocado descobriu a fórmula de ganhar dinheiro, e que se dane a imagem dele. Com muito dinheiro ele poderia comprar o que quisesse e cumprir seu objetivo de parar de fazer esse tipo de vídeo e emagrecer. E foi o que ele fez. Emagreceu enquanto continuava ganhando dinheiro com ódio mantendo seu canal com vídeos antigos.
 
Temos também casos de políticos que vão às faculdades públicas promover discórdia e acabam expulsos de lá pelos estudantes. Olha, meus queridos estudantes, esses caras fazem isso pra conseguir de vocês esse tipo de reação. Eles te usam pra gerar conteúdo nas redes sociais e queimar a imagem das universidades públicas, induzindo as pessoas ao ódio. É mais ou menos como faz o influenciador Jack Doherty, que entra em locais proibidos, em shoppings, em eventos, etc, pra provocar as pessoas e causar indignação.
 

O resultado de tudo isso, não precisamos nem pensar muito pra entender. Eles causam um enxame de críticas nas redes sociais e conseguem ficar por cima dos tópicos mais comentados. Falem bem ou falem mal, mas falem de mim, nunca fez tanto sentido, não é mesmo? Na internet de hoje, falar mal de alguém pode tornar essa pessoa rica ou tornar ela deputada. E mais ainda, fazer conteúdos que te causem incômodo e ódio poderá colocar o produtor dele numa mansão e você ficará no seu cantinho miserável, fortalecendo eles com ódio e indignação.
 
O mais próximo em português que temos para rage bait é "isca para raiva". É um tipo de conteúdo criado propositalmente pra causar indignação ou revolta nas pessoas. Exemplos: "Café é pior que refrigerante", ou "Arroz quente causa câncer" ou "brócolis engorda".
Afirmações falsas pra gerar polêmica como "a raiz quadrada de 50 é 25". Cozinhar errado de propósito como entuchar uma panela de óleo ou encharcar a comida de sal. Dizer coisas estúpidas como "Livros deixam as pessoas mais burras e eu posso provar", apenas pra que seu conteúdo passeie pelas redes e angarie seguidores.
 
E funciona, viu? Como funciona. Se não fosse sucesso fazer isso, as pessoas não fariam. Nesse artigo, a Draft coloca um infográfico mostrando que Rage Bait foi eleita por Oxford como a palavra do ano de 2025. O caso é que os algoritmos leem essas reações de ódio como relevância e distribuem o conteúdo indiscriminadamente. Um efeito bola de neve que só beneficia o criador responsável pelo rage, que faz você de moeda de captação. Ele não precisa te pagar nada, só te usa como massa de manobra e você cai como um patinho.
 
Eu sei que ninguém quer excluir a rede social porque tem apego com o amigo que não vê desde a quinta série. E quer manter contato com os amigos cuja relação só se mantém por ali mesmo. A rede social se tornou uma espécie de fio bem fininho e frágil de apego ínfimo às relações que um dia foram fortes. Um amigo me disse que não deleta porque quer ficar por dentro do que os alunos dele fazem. Mentira. Eu sei que é mentira, é só uma desculpa. Antes de dar aulas, ele se mantinha lá com qualquer outra desculpa que não me importa, pois eu não cobro que ninguém venha me explicar a razão de continuar naquele ambiente tóxico, cujas desvantagens superam muito as vantagens.
 
O que acontece é que eu posto muita opinião negativa sobre rede social e as pessoas se sentem obrigadas a me dar satisfações. E mal conseguem pensar nos motivos que as levam a fazer isso. Elas até conseguem elencar1000 coisas negativas pra sair, mas se mantém lá por uma única coisa que julgam ser boa. Não serei injusta quem, infelizmente precisa usar aquele esgoto pra trabalhar. Não é o caso da maioria esmagadora. A maioria só fica lá escrolando e ouvindo opinião. Ou vendo vídeo de gatinhos, que ultimamente têm recebido uma ajudinha da IA. 
 
A estética do instagram é uma coisa perturbadora, na minha opinião. É um mar de bobagens aleatórias e sem fim, não tem como um ser humano normal absorver tanta informação. Fica tudo polido, resumido, performado, vazio... Ter uma relação no instagram é extremamente líquida. O ambiente se molda para arrancar reações de sua parte que muitas vezes não é você. Aquele que briga, que xinga, que fecha o pau é realmente você? Você faz isso na vida real? Se sim, com que frequência?
 
Minha mensagem aqui é: não caia no rage bait. Se você ver um político indo na sua faculdade falar besteira pra ganhar engajamento na rede social, deixa ele falando sozinho. Deixa ele lá quieto, porque você não vai dar a ele o que ele deseja. Não vai trabalhar de graça pra ele se eleger. Milhares de pessoas que verão o conteúdo dele vão achar que você cumpre todos os estereótipos que ele lhe definiu e dizer com uma equivocada certeza: "ele tem razão. Esses alunos de faculdade pública são todos uns defensores de bandidos e estão prejudicando a família".
 
Não fazer nada nesses casos, meus amigos, é sim fazer muito, muito mesmo. Vejam aqui outro exemplo. Ano passado uma mulher gravou um vídeo explicando os motivos de ter tirado a filha do quarto aconchegante dela pra colocá-la na varanda do apartamento. O casal concluiu que alugar um cômodo ficaria muito caro, então transformaram o quarto da menina num e-commerce. Nem preciso dizer que isso gerou infinitas indignações. Essa mulher conseguiu um monte de seguidores e ficou nos assuntos mais falados. Isso prejudicou ela? Sem dúvidas não. Afinal, ela gravou um monte de vídeo com o mesmo assunto, provocando mais ira, mais raiva, mais engajamento. Depois anunciou que comprou um apartamento melhor e realocou a filha em um quarto. Tudo, claro, às custas do seu ódio.
 
Agora me diga... Se ninguém tivesse falado nada, o que teria acontecido? Se ninguém desse a mais ínfima atenção a essa mulher? Se todo mundo entendesse a intenção dela e largasse isso de lado? Eu não posso afirmar com toda certeza do mundo o que poderia acontecer, mas posso dizer que ela não ficaria gravando um vídeo atrás do outro pra angariar tantos seguidores e fazer dinheiro com isso.
 
E se por ventura você achar irresistível encher o influencer de ódio? Você não vê o menor problema em continuar numa rede social que te induz a isso? Redes que você acha que possui total controle, mas na verdade, elas te controlam?
 
Vamos pensar um pouco. Resistam ao rage bait. Se eu pudesse criar um movimento na internet, sem dúvida seria: não caia no rage bait, resista! Afinal, isso tem prejudicado e muito a nossa saúde mental, nossa vida, queima nossas opiniões, atrapalham a democracia, favorecem políticos que não gostamos (não importa o seu lado), gera sim violência doméstica e cyberbullying. Não seja um lacaio de rede social, sujeito ao que um algoritmo espera de você. Tente fechar sua rede social e fazer algo pra se acalmar. Lembre-se que o rage bait parasitará as redes sociais como nunca nessa época de eleição e depende de nós mudarmos essa história.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Deixar um hábito ruim não implica ser mais produtivo


 

Há muitos relatos espalhados pela internet de pessoas que tiraram qualquer hábito que consideram nocivos, como parar de beber, fumar, escrolar rede social, deletar o tiktok e por aí vai. Eu mesma já fui uma pessoa que estava sempre presente nas redes sociais (no meu caso, o facebook) e quando senti que me perdi completamente da minha vida e não conseguia mais fazer meus hobbies, eu deletei. Meu motivo foi porque acredito que o facebook destruiu minha vida e meu cérebro. Eu perdi o controle e nem conseguia mais ler, que é basicamente meu hobby. Eu também já publiquei um artigo no medium explicando os motivos pelos quais eu parei de beber.

Minha curiosidade sobre esse tema me levou a pesquisar sobre isso na internet, onde encontrei um artigo onde o autor argumenta 20 razões para deixar de jogar vídeo-games. Na tradução do próprio navegador:

 


Ok, sabemos que games podem ser sim um problema de vício e tem gente que passa o dia inteiro jogando e deixa as obrigações de lado pra se dedicar aos jogos, principalmente aqueles de competição. Games entram naquela linha tênue entre diversão e problema se você não tomar cuidado. Jogar é legal, mas se for demais, pode dar ruim, assim como fazer exercícios, correr, estudar, trabalhar, etc. As razões mais óbvias para evitar hábitos nocivos é porque eles são nocivos. Porque eles podem causar algum dano à sua saúde no longo prazo, seja física ou mental.

Uma coisa é certa: como sugere o item 6 do artigo, jogando ou não, provavelmente você não vai "desbloquear" o modo milionário. Eu não quero falar de obviedades aqui como nascer rico ou ganhar dinheiro vendendo curso pra gente ingênua no youtube como um certo primo. Também não aprecio mensagens como de um certo psicólogo hypado que nunca deve ter tido a carteira assinada na vida, ensinar você os benefícios de acordar 5 da manhã pra ir correr. Você não precisa partir pra esse extremo. Isso apenas vai colocar você no rol das pessoas que vivem pra performar. 

Minha questão é com a produtividade. Por que diabos toda vez que você supera um hábito ruim tem que ser em nome da produtividade? O filósofo Byung-Chul Han, tem um livro chamado A Sociedade do Cansaço, em que ele discorre sobre o fato de o homem de hoje ser o sujeito do desempenho e produtividade. Ele não produz exclusivamente riquezas e bens, a produtividade deixou o material pra se tornar um imperativo moral. O sujeito crê que precisa o tempo todo estar produzindo e melhorando a si mesmo. Hoje ninguém mais precisa de um chicote pra ter disciplina como no século XIX, as pessoas se auto escravizam de bom grado.

Não bastasse isso, o sujeito ainda tem que ouvir mensagens de positividade tóxica como "seja forte", "dê o seu melhor", "nunca pare de evoluir". Como resultado, sempre nos sentimos insuficientes e cansados, porque queremos sempre "chegar lá" (não me pergunte onde). Eu sinceramente não vejo como isso pode ser melhor que jogar um roguelite.

Se um hábito nos perturba, existem muitas razões para desistirmos dele. Aqui mesmo nesse blog eu me dedico desde 2016 a falar sobre redes sociais e o impacto negativo delas em nossas vidas, que de tanto superar os impactos positivos, concluí que era melhor deletar. Desistir de um hábito não significa ser mais produtivo. Há quem se torne produtivo depois de parar com certos hábitos, mas essa não é a mensagem que deveria ser primordial.

Eu particularmente me sinto imensamente frustrada quando leio relato de pessoas que superaram algum vício ou comportamento ruim e começam falar de dopamina como se tivéssemos controle sobre ela ou falar de produtividade. Esses que insistem na produtividade, sério eu fico torcendo de coração pra não voltarem ao hábito ruim.

Nosso trabalho diário, nosso ganha pão, esse precisamos saber algumas coisas. Uma empresa pode te demitir por causa de redes sociais e dependendo do teor, com justa causa. Não sei se vocês se lembram do caso do homem que debochou de currículos que as pessoas enviaram a ele. Tomou uma justa causa e acabou na fila do desemprego. E dificilmente alguma empresa irá contratá-lo.


Esses, claro, são casos extremos. Eu já discuti aqui nesse blog que já fui mandada embora por ficar em rede social, especificamente por causa do facebook. Quando arranjei outro emprego, ainda tinha o facebook, mas criei uma política que, por mais que a empresa permitisse que olhássemos nossas redes sociais, eu jamais daria login lá, nem acessaria via celular. Isso não é ser mais produtivo, é simplesmente não dar brecha pra acontecer merda. Infelizmente, temos que trabalhar todos os dias pra sobreviver, então é melhor não perder tempo pelo motivo de quero continuar tendo emprego.

Talvez você seja do tipo que tem um projeto ou precise estudar. Meu amigo, isso não é ser produtivo, é simplesmente fazer o que precisa ser feito. Lembro que a primeira pessoa que influenciou muito minha vida foi um hipão que conheci nos anos 90 chamado Cock Astral de Lótus. Nomeio sim porque gosto sempre de trazer ele à memória. Ele era um cara que desistiu há tempos das amarras sociais e vivia conforme suas próprias regras. Pra se manter, ele fazia parte de um parque itinerante, e foi assim que o conheci. Cock tinha uma frase bem simples: primeiro o dever, depois o lazer.

Zero mensagem de produtividade mil grau. Algo bem simples que não nos exime de nossa obrigação diária que é trabalhar, estudar ou fazer o que quer que seja de nossas vidas, sem que pra isso precisemos deixar o lazer de lado. Lembro de assistir um documentário na netflix chamado Take Your Pills, onde um médico diz que na época que ele estudava, usava-se droga pra relaxar e fazer um momento de ócio. Hoje, usa-se droga pra se manter focado e estudar. Esse documentário falava especificamente do AddAll, um medicamento muito forte para TDAH, mas é usado indiscriminadamente para manter concentração e foco.


Mas o que pode estar acontecendo? Por que essa discrepância toda entre uma geração que usava droga como entretenimento pra fugir da pressão e outra que usa pra se manter focado?

Claro que as coisas mudaram muito. Nos anos 70 a juventude associava drogas como LSD e maconha à contracultura e rejeição às normas sociais. O trabalho valorizava o tempo de fábrica e hoje também valoriza o conhecimento e capacitação. Além do que, a tecnologia nos escravizou mais ainda ao invés de nos libertar. Emails em qualquer horário, ligações, cobranças, etc. Isso nos tornou muito mais cansados e propensos a qualquer distração. E ao invés de nos perguntarmos por que estamos tão cansados, usamos remédios pra melhorar o desempenho.

Por que a gente não volta ao básico que sempre funciona? Se você precisa estudar, tente não deixar pra depois. Estude um pouco todos os dias focado, nem que seja 30 minutos e no dia seguinte mais um pouco. Isso ajuda mais as coisas entrarem na sua cabeça. Se você tem um projeto pessoal, simplesmente o execute. Não precisa acordar 5 da manhã e ir correr, tomar suco verde, fazer um pré treino, ir pra academia, meditar e sei mais lá o que. Simplesmente faça.

Se só fazer não der, se tiver difícil de começar tudo, se você realmente não tem forças, só quer e não consegue, é hora de procurar por ajuda psicológica. Ou no mínimo entender o que está te dando tanto desgaste. Se os games, por exemplo, tomam todo o seu tempo e você sente que gostaria muito de focar no seu livro, talvez seja a hora de considerar ser muito fiel a um horário estabelecido para o jogo e depois escrever o seu livro. Ou simplesmente eliminar o jogo que está causando muito problema. 

Não existem respostas prontas. Se tivesse, ninguém estaria com problemas de peso, de depressão, de baixa estima, financeiro e por aí vai. Mas certamente que largar hábito ruim pra se tornar mais produtivo está bem longe de ser a resposta. Pode funcionar para alguns que acham que vale a pena viver uma vida sempre forrada de disciplinas que beiram modismos e fazem os produtores de conteúdos performarem se enchendo de orgulho por fazer o que ninguém faz. Mas claro que ninguém faz. Eu me recuso a levantar 5 da manhã pra ir correr e ficar sempre passando mensagem de produtividade mil grau enquanto o trabalho fica acumulando.

Quando eu larguei o facebook, eu não me tornei mais produtiva. Quando parei de beber, não teve uma espécie de chavinha que destravasse uma versão melhor. Largar o facebook me reconectou com os livros, afinal, eu tinha meu cérebro de volta. Parar de beber e ficar viciada em água com gás me trouxe benefícios imediatos pra saúde física e mental, mas não me deixou com vontade de ler seja foda e nem levantar 5 da manhã pra ir correr. 

Uma vez falei pra um amigo que meus avós não conheceram a internet. Também nunca na vida deles pegaram em um celular. Tampouco comiam um chocolate quando lhes dava vontade indo comprar no mercado. Até porque, comida ultraprocessada naquela época custava caro. Eles comiam normal. E normal que eu digo é arroz, feijão, frango assado, salada de chuchu com batata, frutas, etc. Eles só comiam pizza em raros momentos que podiam ir a um restaurante 1 vez por ano. Também só comiam doce e bolo quando tinha festinha de aniversário. Viver dessa maneira serviu para as pessoas antigas e sem sombra de dúvida não lhes dava nenhuma vontade de ficar ostentando esse "estilo de vida" pra todo mundo. Eles faziam porque precisavam viver.

Hoje temos dificuldade de parar para fazer uma comida. Por que? Será mesmo que precisamos dessas mensagens tolas de rede social que não tem base científica nenhuma como jejum de dopamina, acordar 5 da manhã pra ir correr, tomar suplemento pra melhorar o desempenho, usar drogas pra ganhar mais músculo, comprar curso fajuto de um charlatão te vendendo alguma solução mirabolante para um problema que as redes sociais criaram, ouvir um bobalhão parecido com o lorde Farquaad falar mal das mulheres e xingar de "beta" e "fracassado" homens que muitas vezes precisam de ajuda psicológica?

Tudo por que você não tá conseguindo sentar pra ler um livro ou trabalhar focado na única coisa que te dá sustento? Meus amigos, vamos esclarecer muitas coisas aqui. Abandonar uma rede social, o álcool, os games, a pornografia, o cigarro ou qualquer droga, não fará de você mais produtivo. Pode funcionar para alguns, mas se a única resposta que você busca é produtividade, olha, você não precisa largar essas coisas pra ser produtivo. Você pode sim ser produtivo enchendo a cara e se masturbando vendo brasileirinhas. Você pode ser produtivo mesmo jogando 5 horas de game por dia.

Produtividade é um outro campo filosófico. Se você não consegue trabalhar porque está muito tempo nas redes sociais, talvez deletá-las fará você focar mais, só que muitas vezes não. Procrastinar é um hábito que acompanha a humanidade há tempos e se você sente que seu problema é crônico, ajuda psicológica pode ser o que você precisa. E se você é do tipo que se pune porque ficou 10 minutos lendo seu x/twitter antes de entregar suas demandas, por favor, não seja esse tipo de pessoa. Não se escravize de boa vontade. Conseguir acessar uma rede social por 10 minutos, significa que aquilo não é um problema pra você. 

Eu tenho uma amiga que ajuda o pai dela no bar. Ela disse que tem caras que vão lá beber por mais de 20 anos, todos os dias, fielmente como se fosse religião. Ela tem amizade, inclusive com um pedreiro que reformou o apartamento dela e diz que é o sujeito mais competente que já conheceu pra fazer esse tipo de serviço e o cara tá ali no bar do pai dela todo santo dia enchendo a cara. Um sujeito desse não será mais produtivo se parar de beber, pelo simples motivo que ele já é, com ou sem cachaça.

Volto a um conselho antigo que já falei aqui e sempre falo para meus amigos que querem se reconectar com hábitos de leitura: leia duas páginas por dia. No começo será difícil, mas você perceberá como as coisas voltarão a ser prazerosas. Você não será mais produtivo, mas retomará aos prazeres que sente que lhe foram tirados.

Outro conselho é parar de procurar assuntos como produtividade, ou tomar muito cuidado com o que você consome pela internet. Produtividade virou performance, fuja disso. Primeiro porque não precisamos provar nada pra ninguém. E depois porque nossa vida não se resume a formulas simples. Relaxe um pouco e vamos nos esforçar ter nossas vidas de volta.