Há muitos relatos espalhados pela internet de pessoas que tiraram qualquer hábito que consideram nocivos, como parar de beber, fumar, escrolar rede social, deletar o tiktok e por aí vai. Eu mesma já fui uma pessoa que estava sempre presente nas redes sociais (no meu caso, o facebook) e quando senti que me perdi completamente da minha vida e não conseguia mais fazer meus hobbies, eu deletei. Meu motivo foi porque acredito que o facebook destruiu minha vida e meu cérebro. Eu perdi o controle e nem conseguia mais ler, que é basicamente meu hobby. Eu também já publiquei um artigo no medium explicando os motivos pelos quais eu parei de beber.
Minha curiosidade sobre esse tema me levou a pesquisar sobre isso na internet, onde encontrei um artigo onde o autor argumenta 20 razões para deixar de jogar vídeo-games. Na tradução do próprio navegador:
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Ok, sabemos que games podem ser sim um problema de vício e tem gente que passa o dia inteiro jogando e deixa as obrigações de lado pra se dedicar aos jogos, principalmente aqueles de competição. Games entram naquela linha tênue entre diversão e problema se você não tomar cuidado. Jogar é legal, mas se for demais, pode dar ruim, assim como fazer exercícios, correr, estudar, trabalhar, etc. As razões mais óbvias para evitar hábitos nocivos é porque eles são nocivos. Porque eles podem causar algum dano à sua saúde no longo prazo, seja física ou mental.
Uma coisa é certa: como sugere o item 6 do artigo, jogando ou não, provavelmente você não vai "desbloquear" o modo milionário. Eu não quero falar de obviedades aqui como nascer rico ou ganhar dinheiro vendendo curso pra gente ingênua no youtube como um certo primo. Também não aprecio mensagens como de um certo psicólogo hypado que nunca deve ter tido a carteira assinada na vida, ensinar você os benefícios de acordar 5 da manhã pra ir correr. Você não precisa partir pra esse extremo. Isso apenas vai colocar você no rol das pessoas que vivem pra performar.
Minha questão é com a produtividade. Por que diabos toda vez que você supera um hábito ruim tem que ser em nome da produtividade? O filósofo Byung-Chul Han, tem um livro chamado A Sociedade do Cansaço, em que ele discorre sobre o fato de o homem de hoje ser o sujeito do desempenho e produtividade. Ele não produz exclusivamente riquezas e bens, a produtividade deixou o material pra se tornar um imperativo moral. O sujeito crê que precisa o tempo todo estar produzindo e melhorando a si mesmo. Hoje ninguém mais precisa de um chicote pra ter disciplina como no século XIX, as pessoas se auto escravizam de bom grado.
Não bastasse isso, o sujeito ainda tem que ouvir mensagens de positividade tóxica como "seja forte", "dê o seu melhor", "nunca pare de evoluir". Como resultado, sempre nos sentimos insuficientes e cansados, porque queremos sempre "chegar lá" (não me pergunte onde). Eu sinceramente não vejo como isso pode ser melhor que jogar um roguelite.
Se um hábito nos perturba, existem muitas razões para desistirmos dele. Aqui mesmo nesse blog eu me dedico desde 2016 a falar sobre redes sociais e o impacto negativo delas em nossas vidas, que de tanto superar os impactos positivos, concluí que era melhor deletar. Desistir de um hábito não significa ser mais produtivo. Há quem se torne produtivo depois de parar com certos hábitos, mas essa não é a mensagem que deveria ser primordial.
Eu particularmente me sinto imensamente frustrada quando leio relato de pessoas que superaram algum vício ou comportamento ruim e começam falar de dopamina como se tivéssemos controle sobre ela ou falar de produtividade. Esses que insistem na produtividade, sério eu fico torcendo de coração pra não voltarem ao hábito ruim.
Nosso trabalho diário, nosso ganha pão, esse precisamos saber algumas coisas. Uma empresa pode te demitir por causa de redes sociais e dependendo do teor, com justa causa. Não sei se vocês se lembram do caso do homem que debochou de currículos que as pessoas enviaram a ele. Tomou uma justa causa e acabou na fila do desemprego. E dificilmente alguma empresa irá contratá-lo.
Esses, claro, são casos extremos. Eu já discuti aqui nesse blog que já fui mandada embora por ficar em rede social, especificamente por causa do facebook. Quando arranjei outro emprego, ainda tinha o facebook, mas criei uma política que, por mais que a empresa permitisse que olhássemos nossas redes sociais, eu jamais daria login lá, nem acessaria via celular. Isso não é ser mais produtivo, é simplesmente não dar brecha pra acontecer merda. Infelizmente, temos que trabalhar todos os dias pra sobreviver, então é melhor não perder tempo pelo motivo de quero continuar tendo emprego.
Talvez você seja do tipo que tem um projeto ou precise estudar. Meu amigo, isso não é ser produtivo, é simplesmente fazer o que precisa ser feito. Lembro que a primeira pessoa que influenciou muito minha vida foi um hipão que conheci nos anos 90 chamado Cock Astral de Lótus. Nomeio sim porque gosto sempre de trazer ele à memória. Ele era um cara que desistiu há tempos das amarras sociais e vivia conforme suas próprias regras. Pra se manter, ele fazia parte de um parque itinerante, e foi assim que o conheci. Cock tinha uma frase bem simples: primeiro o dever, depois o lazer.
Zero mensagem de produtividade mil grau. Algo bem simples que não nos exime de nossa obrigação diária que é trabalhar, estudar ou fazer o que quer que seja de nossas vidas, sem que pra isso precisemos deixar o lazer de lado. Lembro de assistir um documentário na netflix chamado Take Your Pills, onde um médico diz que na época que ele estudava, usava-se droga pra relaxar e fazer um momento de ócio. Hoje, usa-se droga pra se manter focado e estudar. Esse documentário falava especificamente do AddAll, um medicamento muito forte para TDAH, mas é usado indiscriminadamente para manter concentração e foco.
Mas o que pode estar acontecendo? Por que essa discrepância toda entre uma geração que usava droga como entretenimento pra fugir da pressão e outra que usa pra se manter focado?
Claro que as coisas mudaram muito. Nos anos 70 a juventude associava drogas como LSD e maconha à contracultura e rejeição às normas sociais. O trabalho valorizava o tempo de fábrica e hoje também valoriza o conhecimento e capacitação. Além do que, a tecnologia nos escravizou mais ainda ao invés de nos libertar. Emails em qualquer horário, ligações, cobranças, etc. Isso nos tornou muito mais cansados e propensos a qualquer distração. E ao invés de nos perguntarmos por que estamos tão cansados, usamos remédios pra melhorar o desempenho.
Por que a gente não volta ao básico que sempre funciona? Se você precisa estudar, tente não deixar pra depois. Estude um pouco todos os dias focado, nem que seja 30 minutos e no dia seguinte mais um pouco. Isso ajuda mais as coisas entrarem na sua cabeça. Se você tem um projeto pessoal, simplesmente o execute. Não precisa acordar 5 da manhã e ir correr, tomar suco verde, fazer um pré treino, ir pra academia, meditar e sei mais lá o que. Simplesmente faça.
Se só fazer não der, se tiver difícil de começar tudo, se você realmente não tem forças, só quer e não consegue, é hora de procurar por ajuda psicológica. Ou no mínimo entender o que está te dando tanto desgaste. Se os games, por exemplo, tomam todo o seu tempo e você sente que gostaria muito de focar no seu livro, talvez seja a hora de considerar ser muito fiel a um horário estabelecido para o jogo e depois escrever o seu livro. Ou simplesmente eliminar o jogo que está causando muito problema.
Não existem respostas prontas. Se tivesse, ninguém estaria com problemas de peso, de depressão, de baixa estima, financeiro e por aí vai. Mas certamente que largar hábito ruim pra se tornar mais produtivo está bem longe de ser a resposta. Pode funcionar para alguns que acham que vale a pena viver uma vida sempre forrada de disciplinas que beiram modismos e fazem os produtores de conteúdos performarem se enchendo de orgulho por fazer o que ninguém faz. Mas claro que ninguém faz. Eu me recuso a levantar 5 da manhã pra ir correr e ficar sempre passando mensagem de produtividade mil grau enquanto o trabalho fica acumulando.
Quando eu larguei o facebook, eu não me tornei mais produtiva. Quando parei de beber, não teve uma espécie de chavinha que destravasse uma versão melhor. Largar o facebook me reconectou com os livros, afinal, eu tinha meu cérebro de volta. Parar de beber e ficar viciada em água com gás me trouxe benefícios imediatos pra saúde física e mental, mas não me deixou com vontade de ler seja foda e nem levantar 5 da manhã pra ir correr.
Uma vez falei pra um amigo que meus avós não conheceram a internet. Também nunca na vida deles pegaram em um celular. Tampouco comiam um chocolate quando lhes dava vontade indo comprar no mercado. Até porque, comida ultraprocessada naquela época custava caro. Eles comiam normal. E normal que eu digo é arroz, feijão, frango assado, salada de chuchu com batata, frutas, etc. Eles só comiam pizza em raros momentos que podiam ir a um restaurante 1 vez por ano. Também só comiam doce e bolo quando tinha festinha de aniversário. Viver dessa maneira serviu para as pessoas antigas e sem sombra de dúvida não lhes dava nenhuma vontade de ficar ostentando esse "estilo de vida" pra todo mundo. Eles faziam porque precisavam viver.
Hoje temos dificuldade de parar para fazer uma comida. Por que? Será mesmo que precisamos dessas mensagens tolas de rede social que não tem base científica nenhuma como jejum de dopamina, acordar 5 da manhã pra ir correr, tomar suplemento pra melhorar o desempenho, usar drogas pra ganhar mais músculo, comprar curso fajuto de um charlatão te vendendo alguma solução mirabolante para um problema que as redes sociais criaram, ouvir um bobalhão parecido com o lorde Farquaad falar mal das mulheres e xingar de "beta" e "fracassado" homens que muitas vezes precisam de ajuda psicológica?
Tudo por que você não tá conseguindo sentar pra ler um livro ou trabalhar focado na única coisa que te dá sustento? Meus amigos, vamos esclarecer muitas coisas aqui. Abandonar uma rede social, o álcool, os games, a pornografia, o cigarro ou qualquer droga, não fará de você mais produtivo. Pode funcionar para alguns, mas se a única resposta que você busca é produtividade, olha, você não precisa largar essas coisas pra ser produtivo. Você pode sim ser produtivo enchendo a cara e se masturbando vendo brasileirinhas. Você pode ser produtivo mesmo jogando 5 horas de game por dia.
Produtividade é um outro campo filosófico. Se você não consegue trabalhar porque está muito tempo nas redes sociais, talvez deletá-las fará você focar mais, só que muitas vezes não. Procrastinar é um hábito que acompanha a humanidade há tempos e se você sente que seu problema é crônico, ajuda psicológica pode ser o que você precisa. E se você é do tipo que se pune porque ficou 10 minutos lendo seu x/twitter antes de entregar suas demandas, por favor, não seja esse tipo de pessoa. Não se escravize de boa vontade. Conseguir acessar uma rede social por 10 minutos, significa que aquilo não é um problema pra você.
Eu tenho uma amiga que ajuda o pai dela no bar. Ela disse que tem caras que vão lá beber por mais de 20 anos, todos os dias, fielmente como se fosse religião. Ela tem amizade, inclusive com um pedreiro que reformou o apartamento dela e diz que é o sujeito mais competente que já conheceu pra fazer esse tipo de serviço e o cara tá ali no bar do pai dela todo santo dia enchendo a cara. Um sujeito desse não será mais produtivo se parar de beber, pelo simples motivo que ele já é, com ou sem cachaça.
Volto a um conselho antigo que já falei aqui e sempre falo para meus amigos que querem se reconectar com hábitos de leitura: leia duas páginas por dia. No começo será difícil, mas você perceberá como as coisas voltarão a ser prazerosas. Você não será mais produtivo, mas retomará aos prazeres que sente que lhe foram tirados.
Outro conselho é parar de procurar assuntos como produtividade, ou tomar muito cuidado com o que você consome pela internet. Produtividade virou performance, fuja disso. Primeiro porque não precisamos provar nada pra ninguém. E depois porque nossa vida não se resume a formulas simples. Relaxe um pouco e vamos nos esforçar ter nossas vidas de volta.










