sexta-feira, 24 de abril de 2026

Como seu influencer com doutorado trabalha de graça pro charlatão

 

 

Em 2024, o coaching Pablo Marçal colocou em seu perfil do instagram, um vídeo em que ele dizia ter passado pela experiência de uma turbina do helicóptero falhar enquanto ele e a família estavam presentes dentro dele. De acordo com Marçal, o piloto entrou em pânico, mas ele tratou logo de acalmá-lo, já que eles estavam na "reta final do voo". E ainda tirou onda com o cara, dizendo que ele, o referido piloto, tinha treinamento pra isso. Como toda pessoa que sofre daquele famoso efeito dunning-kruger, o que Marçal quis dizer foi o seguinte: "hei, eu sei mais que você, que recebeu treinamento pra isso?". Engraçado né? Mais ainda, como uma figura caricata dessa consegue enganar as pessoas com esse papo idiota.

Mas e se eu te dissesse que essa mentira que ele contou é proposital? Que ele sabe que está mentindo e joga informação de propósito pra viralizar? Que ele cria vídeos falando bobagens de propósito pro pessoal corrigir. Veja aqui esse vídeo dele mesmo explicando suas táticas.

Seu influencer "bem intencionado" se presta a assistir o vídeo dele de graça, que às vezes ele mesmo foi na página de origem procurar e lançou piada em cima pra se promover. Só que ao fazer isso, ele acabou dando extrema visibilidade a essas figuras que, sejamos honestos, na internet de outrora sequer teriam vez.

O influencer do bem fez o seu react, informou você que tudo aquilo estava errado e praticou seu ato genuinamente verdadeiro de combate à desinformação, além de trazer esclarecimentos. Você achou útil, afinal, se não fosse por ele, talvez você não saberia a real informação. Aí você compartilha porque quer que todos saibam a verdade. Só que esse ato do bem gera um outro problema: o algoritmo não manda o conteúdo dele só pra você. Vai viralizar por toda rede social e será visto por pessoas que terão curiosidade pra saber quem é essa figura que o influencer do bem reagiu. E agora que a merda toda tá feita, o sujeito que fala bosta de propósito pro teu influencer com doutorado desmentir ganhou mais seguidores, mais visibilidade e mais dinheiro.

Eu entendo o influencer do bem. Ele estudou, se prestou a ler artigo, a perder o precioso tempo dele no combate à desinformação, mas cá pra nós, é uma espécie de efeito backfire, um fenômeno psicológico em que a pessoa fortalece mais ainda suas crenças mesmo quando é confrontada com a verdade. Você desmascara absolutamente tudo aquilo, ponto a ponto e prova que é mentira. Como resultado, a pessoa fica ainda mais firme em sua crença. Eu não estou exatamente dizendo que isso sempre ocorrerá, mas é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser tanto cara quanto coroa.

Temos inúmeros exemplos na vida real de coisas bem esquisitas que contemplam esse fenômeno.

1) Barbra Streisand 

Por meio de um processo judicial, ela tentou remover da internet uma foto aérea de sua casa por questão de proteção. Ninguém tinha visto sua casa antes mas depois do processo vir a público, a foto aérea da casa viralizou no mundo inteiro. Gerou até um nome "efeito Streisand".

 

2) Alex Jones

Jornalistas tentaram desmentir as teorias estapafúrdias desse cidadão e isso só instigava a curiosidade alheia. As pessoas foram todas em seu vídeo pra consumir o conteúdo original. Tentar informar aumentou o volume da desinformação.

 

3) Anders Behring Breivik 

Depois do ataque, houve bastante cobertura de conscientização. Porém, isso deu visibilidade e as pessoas foram atrás da ideologia dele. Informar também pode dar palco meus amigos...

 

4) Logan Paul  

A avalanche de críticas contra um vídeo polêmico na floresta do suicídio no Japão fez ele brilhar mais ainda alcançando mais gente do que ele mesmo imaginava. Criticar impulsiona o alcance. 

 

5) Checagem de fatos do facebook

Vou aqui dar meus dois centavos de opinião contrária aos que acreditam que checagem de fato pode ser útil. Eu achava isso também, mas depois de pesquisar um pouco, ler e entender o que está por trás do engajamento, mudei bastante de opinião. Como bem disse Byung-Chul Ham, não adianta fazer checagem de fatos. Não porque ela é inútil, mas porque vivemos num excesso de opiniões e conteúdos diversificados. Se os conteúdos são bons ou ruins, vai depender do ponto de vista. Checagem vira só mais um conteúdo disputando a atenção. Nas redes sociais o que vale mais é engajamento e o que provoca raiva, indignação e ódio é priorizado pra que o viralismo continue se espalhando e você perca seu tempo dando atenção.

 

A noticia do cara que matou os próprios filhos e depois se matou pra punir a ex me deixou chocada. Eu não tenho a menor dúvida que o que esse sujeito fez é doentio e errado. Essa mulher é uma vítima. Mas acharam que seria uma boa ideia espalhar uma mentira que ela o traiu. Isso fez com que o delírio persecutório se voltasse contra ela. Foi então que desmentiram essa bobagem. A real é quem traiu foi ele, mas pouco adiantou esclarecer isso. A notícia se espalhou ainda mais. E ainda que ela tivesse traído, isso não justifica crime nenhum.

O ativo mais importante das redes sociais é sua atenção e ela se dá por meio de engajamento. Pouco importa se estão tentando combater desinformação. Seu influencer do bem está contribuindo para a disseminação de mais desinformação ainda. Isso é a condição material de estar na rede social. Você não precisa estar ali, você escolheu estar. Mas você não escolhe o que vai ver, isso quem decide é a big tech e cada engajamento seu significa que você trabalha de graça pra eles.

Você trabalha noite e dia com curtida, like, engajamento no combate à desinformação fazendo isso numa rede social que é feita pra que as pessoas percam completamente a percepção da realidade. Você entrega seu tempo e sua vida pra eles de bom grado e a recompensa é só likes e notificações. Rede social é aquele lugar onde pessoas que tomam sol no brioco ganham respaldo porque ela é desenhada pra isso. Rede social torna fantasias absurdas em realidade.

Eu sei o que muitos pensam: esse é o bom e velho papo manjado de "não dar palco". Eu até ficava irritada com isso antigamente, quando fazia sentido. Afinal, é preciso debater coisas ruins, falar sobre suicídio e morte abertamente, sobre nazismo, sobre escravidão, racismo e assuntos incômodos. Devemos debater política, sem sombra de dúvidas. Devemos fazer denúncias, isso é até indiscutível. Mas hoje reagir a conteúdos produzidos por pessoas estúpidas é trabalhar de graça pra elas, gostem as pessoas de saber disso ou não. As redes potencializam e dão volume a vozes polêmicas.

Em um post aqui do blog, eu coloquei um print de um sujeito dizendo que Hitler era da magia negra de esquerda.


Lá pelos anos de 2014, essa história de nazismo de esquerda ganhou força total nas redes sociais. Antes ficava escondida em lugares obscuros da internet. O blog podia até ser famoso, mas só olhava quem ia lá visitar. A rede social, no entanto, é uma fábrica de cliques e faz com que pessoas desse calibre tenham respaldo e isso é proposital, pois gera engajamento e quanto mais engajamento, mais atenção. Atenção significa lucro.

O Alex Jones, teórico da conspiração há décadas, não tinha nenhum respaldo antes da era do engajamento nas redes. Ele disse que o Massacre de Sandy Hook foi tudo encenado e que as vítimas eram atores. O vídeo dele foi compartilhado, engajado e visto por milhões de pessoas pelo mundo. Ele foi condenado, mas o estrago estava feito e as famílias são perseguidas até hoje.

Outro exemplo são essas dietas extremas como da selva, do paleolítico, low carb, glúten free e por aí vai. Eu garanto que elas sempre existiram, sempre. Tem posts muito antigos que já traziam essas coisas como bizarras e a dieta uga-uga está entre elas. Só que a diferença é que isso ficava na marginalidade da internet e as redes sociais as transformaram em coisa séria.

Fico aqui me perguntando se figuras como Monark cairiam tanto nas graças das pessoas se não tivesse tanto engajamento e vídeo fazendo react. React favorece quem está lucrando com o conteúdo alheio, mas favorece o canal de onde sai a desinformação.

E a minha resposta para seu influencer do bem? Há grandes chances dele só querer dinheiro e foda-se as consequências. Eu sempre insisti que as pessoas procurassem textos escritos na internet ao invés de informações, digamos, ultraprocessadas nas redes sociais. Se alguém diz algo sobre Aristóteles, vá ler o próprio. Se alguém diz que um livro é ruim, leia ele pra ver se é mesmo. São práticas que fazem com que o cérebro não atrofie e nem se afunde nesse esgoto que são as redes sociais.

Se você optar por criticar, faça isso de forma responsável. Evite react, evite citar nomes, tente abordar o assunto de forma séria e não debochada. Lembre-se que hoje isso pode ofender e ofensa é um sentimento passível de engajamento. Se você decidiu estar numa rede social trabalhando de graça pra um algoritmo, ok, cada um com seus problemas. Mas hoje, tentar combater desinformação idiota é dar palco e favorecimento sim. As big techs vão usar essa sua boa vontade de informar como instrumento de viralismo.

E viralismo favorece desinformação.

Ah, e mais uma coisa... Existem casos em que até funciona o react e a checagem de fatos. Mas como argumentei antes, é como jogar uma moeda, 50% de chance de ser cara, 50% de chance de ser coroa. Considere ao menos pensar sobre.

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O caso Shy Girl

 


Nesse link aqui do reddit, alguém achou muito esquisito a escrita de um certo livro chamado Shy Girl, de uma escritora chamada Mia Ballard. O autor do post argumenta que o texto dela tem muita, mas muita cara de que foi escrito por IA. E por que? Abuso de travessão "—", palavras com conexões estranhas, como por exemplo:

 "Então a porta se abre com estrondo, e ele entra como uma tempestade, arrastando o fedor azedo de bebida atrás dele, sua presença preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço"

Ou

"Meias brancas sobem pelas minhas pernas, suas rendas delicadas, um sussurro de inocência sobre os machucados por baixo, aqueles que ele diz que não deveriam acontecer se as meias estiverem lá — mas sempre acontecem." 

Isso é a prova cabal de que foi escrito por IA? Certamente não, mas é muito estranho porque não segue bem um padrão que um humano normalmente escreveria quando precisa usar palavras um pouco mais sinestésicas.

Eu já pedi pro Chat GPT escrever assuntos sobre coisas que já tratei aqui. Não foi muito satisfatório o resultado. Chat GPT não conclui, não tem opinião. Tudo que ele escreveu foi apontamento genérico.

"Diante desse cenário, torna-se urgente discutir limites e responsabilidades. Plataformas digitais, anunciantes e os próprios criadores de conteúdo precisam ser cobrados. Mais do que isso, é essencial investir em educação midiática, para que os usuários desenvolvam senso crítico diante desse tipo de propaganda."

Vejam que no caso do livro de Mia Ballard, escrever esse tipo de coisa "preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço" pode ser um indício de qualquer palavra juntada pelo Chat GPT. Afinal, IA não tem sentimento, não consegue escrever sensação genuína experimentada por um indivíduo que possui cognição. Há quem argumente que não é todo mundo que consegue nomear os sentimentos. Isso é real. Porém, o sentimento tá ali, é sentido e se tentamos falar sobre ele, muitas vezes conseguimos usando exemplos.

Mia Ballard, no entanto, exagerou nas repetições, nas inconsistências, no uso de travessão e em fechamentos de frases que não faziam sentido. O tom de tudo parece neutro demais, coisas bem estranhas para um ser humano. Como escritora, ela deveria reler seu texto e tentar entender se aquilo tem coerência. 

O lance de Shy Girl terminou mal. Pela primeira vez na história uma editora cancela a publicação do livro porque, fazendo análises, concluíram que 70% do livro foi escrito por IA. Mia Ballard, por sua vez, alega não ter usado IA, ela enviou para um revisor e este sim usou IA. Se é verdade, ela terá meios de provar, mas duvido muito. Se eu enviasse meu texto a um revisor e ele usasse IA, eu saberia. É preciso ter tal delicadeza. Por fim, Mia Ballard diz que está com a reputação destruída e a saúde mental em frangalhos. Imagino que deve ter sido triste pra ela, mas não se pode quebrar as regras e esperar que tudo dê certo.

Eu particularmente não sei explicar as razões que me levam a desconfiar que algo foi gerado por IA. Acredito que até o presente momento, a IA "produz" coisas muito artificiais. Não há nada expressivo na IA, ela parece apenas concatenar um certo número de palavras que fazem algum sentido. Falta a qualia, o pessoísmo

Qualia é um termo usado na filosofia pra descrever subjetividades. Eu posso olhar pra uma flor sem julgar, mas a qualia me permite pensar que a flor é de um azul profundo, de um cheiro cheiroso, de uma beleza única. É como se fosse a alma, o signo de cada coisa. A IA parece não ter qualia. Ela só junta lé com cré. Posso estar sendo um tanto simplista, mas é o que me parece.

Uma vez vi um vídeo de entrevista com o físico Roger Penrose falando sobre a IA. Ele usou o teorema da incompletude de Gödel pra explicar que se temos um conjunto de regras, sempre existirá uma verdade que essas regras não conseguem provar, mas nós humanos sabemos se ela é ou não verdadeira. Uma IA não consegue provar que sua própria regra é verdadeira. Nós que temos que observar se aquilo funciona ou não e isso depende da nossa consciência.

Eu posso fazer um calculo usando certinho uma fórmula e esse resultado dar errado. Eu percebo porque tenho consciência pra entender que pode ou não estar certo. Isso acontece porque estamos conscientes do que pensamos.

A IA não entende o significado das coisas que faz, ela é apenas uma calculadora gigante e sofisticada que segue as regras da computação. Isso serve de aviso pra qualquer escritor que esteja aspirando uma chance de ter seu romance publicado. Isso requer trabalho sério e duro e isso implica não pedir pra IA melhorar o texto ou expor ideias nonsenses. Reconhecer a artificialidade da escrita é preciso.

Uma vez eu li um livro chamado Impostora, da escritora R. F. Kuang. O livro conta a história de duas mulheres, June e Athena, que se formam juntas e seguiram fazendo companhia uma para a outra depois da faculdade. Athena se torna uma escritora de extremo sucesso, enquanto June, também escritora, apenas coleciona fracassos. Em dado momento, Athena morre e June rouba o manuscrito do romance que Athena estava concluindo em vida. Ela então decide fazer algumas alterações porcas e publica como se fosse seu. O sucesso do romance é imediato, se tornando um tremendo best seller.

A obra roubada fala sobre os trabalhadores chineses durante a primeira guerra mundial. A editora sugere que June use um nome ambíguo, Juniper Song, para dar algum efeito na obra e assim ela passa a ter uma nova identidade no mundo literário. Porém, no auge do estrondoso sucesso, alguém percebe que aquilo tudo é uma fraude e que a obra pode ter sido roubada de Athena. 

Algum tempo depois da polêmica que só piora as coisas para June, alguém publica algo no twitter dizendo que a obra parece ter sido escrita por uma pessoa e remendada por outra. E esse é um dos pontos que eu queria comentar. Temos muitos exemplos de textos que começaram ser escritos por uma pessoa e outras terminaram. Trago dois exemplos, Assassin of Secrets, de Q. R. Markham e How Opal Mehta Got Kissed de Kaavya Viswanatha. Ambos livros são obras copiadas de vários trabalhos. Muitos leitores notaram que esses autores não plagiaram só as histórias, mas copiaram trechos inteiros de outros livros famosos como James Bond e The Princess Diaries. Era como pegar uma frase e mudar ela colocando as suas considerações. Acredito que esses autores não sabem o que é estilística.

Outro ponto que eu queria comentar é que, Kuang passa no livro a ideia de que as editoras funcionam por meritocracia e isso não é verdade conforme vemos na prática. No caso de Mia Ballard, a editora Hachette Book Group aceitou publicar um livro possivelmente gerado por IA, mas dificilmente deve dar chance a quem faz um trabalho dedicado, bem escrito e caprichoso.

Por fim, quero destacar algo nesse livro que me incomodou, que é o fato das pessoas ficarem surpresas que June não era chinesa e arriscou escrever algo sobre a China. Eu concordo que há coisas sobre nossa cultura que requer um olhar experiente e muitas vezes nativo. Mas a grande questão é que essa coisa identitária não é bem verdade e não se sustenta tanto quando a gente observa a nossa realidade material. Vejam o caso de Leandro Narloch que escreveu o tal guia do politicamente incorreto da história do Brasil, cheio de erros, mentiras e interpretações abjetas. Um Brasileiro falando sobre o Brasil, mas com um ponto de vista completamente errado e pernicioso.

O caso é que nós temos muita resistência à IA. Não que ela não ajude. Eu particularmente uso bastante pra resolver problemas que me deixam travada. Mas é preciso saber dosar. Pedir pra IA fazer tudo é um grande problema. Uma dúvida pontual, ok. Mas resolver volume grande de problemas é complicado.

Ainda sim, o olhar que temos que ter é de desconfiança. Não acredite cegamente nas informações que as IAs te dão. Uma vez um amigo estava debatendo e saiu postando argumento formatado que ele perguntava pro Chat GPT. Disseram pra ele não usar IA e ele garantiu que não estava usando, mas estava. A IA citou trechos de livro que eu mesma reconheci não serem verdadeiros e abri o livro perguntando a ele onde estava escrito aquilo. Depois, as fontes que a IA postava, ou eram artigos que nada tinham a ver com o tema ou não existiam. A maioria não existia. Meu amigo então, admitiu que usou IA. E eu, que só tinha dado a ele duas fontes que ele não olhou, expliquei que eu estudei aquelas duas fontes, não saio por aí lendo um monte de coisa sem critério nenhum.

Se a IA te der exemplos, procure esses exemplos na internet e tente comprovar se aquilo é verídico. Se a IA passar fontes, pesquise essas fontes pra ver se existem ou se estão falando do mesmo assunto que você perguntou para a IA. Se você estiver escrevendo, tente não pedir pra IA reescrever seu texto melhorado. Ela pode ajudar a corrigir gramática, mas revise bem você mesmo pra ter certeza. Processo criativo é trabalhoso e a IA não substitui o trabalho humano.

Sei que ouvimos por aí que ela vai roubar nosso emprego, mas a menos que ela ganhe consciência e saiba exatamente o que está fazendo, eu fico aqui com o benefício da dúvida. Pela internet é possível encontrar textos escritos por IA. Se você puder, aponte. Sei que isso é insano, mas sempre aponte se você desconfiar que algo foi escrito por IA. Ao menos é uma forma de mostrar que não queremos tolerar que nossas vidas sejam tomadas por isso.

E por fim, a velha dica clichê: use com muita sabedoria e moderação. Tente, em princípio não usar. Leia e faça pesquisas primeiro, tente não sair perguntando tudo de cara para a IA. Ainda não temos clareza do que isso pode fazer com nosso cérebro, então o melhor é ter muita moderação e bom senso. 

Eu não tenho uma visão necessariamente otimista, mas não sinto um completo pessimismo na humanidade. Não é todo mundo que vai concordar com isso e o caso Mia Ballard serve pra nos mostrar o quanto o humanismo tem grande valor para todos nós. Se tudo está muito artificial, nós sentimos que tem algo errado. Se você sentir isso, não ignore. Não vamos permitir que a IA tome conta de tudo sem reagir.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ler é mais fácil, indiscutivelmente

 

Você está pesquisando na internet. Digamos que queira uma lista de recomendação de jogos, filmes, séries ou livros sobre determinados assuntos. Você abre o youtube e pesquisa, com muito otimismo, até encontra um vídeo de 10 minutos, mas grande parte deles tem de 15 a 30 minutos. Você dá play e já suspira de desânimo porque vai ter que assistir 2 minutos de propaganda sem a possibilidade de pular.

Mas não só isso. Não basta a propaganda, o produtor do vídeo também vai começar o dando recadinho inútil do tipo "eu não ia falar sobre isso", mentira, ia sim. Pede pra você se inscrever, esmola like, enche as paciências com vinheta inútil, também faz propaganda e aí sim ele entra no assunto do vídeo. Você acelera porque acredita que não tem tempo, quer umas dicas mais rápidas. Você nem pensa em abrir a internet e procurar por textos, você vai no youtube. Ou você pode também ir no tiktok, já que lá tem vídeo curto e sua mente não está mais acostumada a exercer paciência.

A teoria da internet morta diz que até 2016, a internet ainda era como nós conhecemos lá no passado. Depois disso, tudo mudou. As redes sociais dominaram o mercado e as cidades digitais entraram em ruínas. Para a grande maioria, a internet virou instagram, facebook, twitter, tiktok e youtube e tudo fora disso parece não existir mais. Ainda existem pessoas insistentes, que escrevem em blogs como eu, mas isso aqui é um fracasso absoluto. Eu só continuo porque ainda acredito que podemos retomar a web sem necessidade nenhuma de rede social.

Quando criei esse blog, inclusive, eu tinha facebook. Foi naquele tempo que percebi que não conseguia mais ler nada, minha paixão por livros ficou no passado. Eu não aceitei isso e retomei a leitura, diminuí  a frequência nas redes e por fim, excluí o facebook há quase 10 anos e nunca mais voltei. Nesse tempo ainda fazia grande sentido ter blog. As pessoas no facebook compartilhavam coisas vindas de blogs, ainda navegavam pela internet e procuravam assuntos de seus interesses usando buscadores como google. Hoje, muitos nem ligam mais o computador, e na minha opinião, os celulares estão muito mais adaptados pra ver vídeos. 

Voltando lá pro assunto que você foi pesquisar e caiu num vídeo qualquer que poderia ser feito em 4 minutos, mas deu 20 contando com propaganda e inutilidades desses youtubers, se você pesquisasse o assunto em texto, certamente você poderia encontrar uma lista amigável. Encontraria jogos bacaninhas escondidos na plataforma de games ou livros aconchegantes que você ficou feliz de descobrir que existiam.

O texto não ficaria esmolando seu like. Qualquer coisa fora do contexto, você poderia pular. Ok, vc pode fazer isso no vídeo, mas ler um texto funciona melhor. É mais rápido. Consumir a mídia escrita é um exercício também de paciência. Antes era tudo natural, hoje parece que não temos mais paciência pra ler nem uma polêmica até o fim. Eu acompanhava muito o blog mundo gump. Ele ainda existe, ainda é atualizado, eu ainda visito. Não com tanta frequência, mas ainda estou por lá. O autor do blog escrevia coisas polêmicas sobre suas atividades no blog que geravam textos imensos, mais de 10 minutos de leitura e as pessoas liam tudo com atenção. 

Mas, muitos blogs que eu visitava não existem mais. Os autores deles migraram para as redes sociais e ficaram por lá. Ou o blog, infelizmente acabou se transformando em um canal no youtube.

Eu gostava muito de listas. Elas ainda existem por aí. Se você procurar "lista org" no buscador, vai aparecer muitos sites assim.

Clique aqui pra um exemplo 

Eu recomendo que você, ao menos de vez em quando, crie o hábito de pesquisar textos na internet e ler eles antes de recorrer a vídeos. Era natural ler. A gente lia sem qualquer problema, era prazeroso. Era o que tínhamos. Hoje, pra muita gente ler se tornou um peso enorme, é mais fácil e irresistível assistir vídeos, ou ouvir enquanto faz outra coisa.

Como eu disse anteriormente, meu blog é um fracasso total. Sequer aparece nas pesquisas do google e o blogger é do google. Se você digitar "fecharede blog" no buscador do duckduck go, ainda aparece. Eu recomendo usar outros buscadores que não seja o google. O google não te mostra tudo, suprime pesquisas e você vai achar que aquela informação não está ali presente em textos, mas está. O google, no entanto, não está mostrando pra você porque a google só te mostra o que ELA acha relevante.

Alguns podem argumentar que escrever blogs não dá dinheiro. Eu discordo, mas vejam, nem tudo é por dinheiro. Eu nunca comecei a escrever pra ganhar dinheiro, eu não tenho essa ilusão. E ainda que fosse propício, eu sigo meu princípio que informação tem que ser gratuita. Eu não frequentei uma faculdade pública pra ficar retendo informações e cobrando pra dar acesso exclusivo para as pessoas.

 


Estava pior, mas até um canal de um webcomunista chamado História Pública fechou alguns vídeos pra quem pode pagar por eles. As pessoas precisam viver, concordo, mas se você tem um ideal, faça sua estadia na internet valer a pena pra todo mundo.

Textos não te cobram, não te entucham de propaganda, não pioram sua ansiedade, não tentam fazer você comprar camiseta bosta que nem o youtuber acredita nisso. Leia mais. Sei que são palavras de quem não tem relevância digital alguma, mas tente relaxar, ter paciência e não permitir que esse mar de informação que é a internet se afunde nas mãos de algumas big techs sem escrúpulo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Virei uma pregadora da palavra Linux

 


Há 20 anos eu usava o Debian e era um horror, ao menos no início. Até me habituar e conseguir fazer as coisas do dia a dia, demorei umas 2 semanas. Fiquei muitos anos assim, até voltar pro windows novamente. Pra ser honesta, não entendia bem de formatação e nunca quis arriscar ter linux de novo. Eu não sabia instalar, não conhecia ninguém que sabia e ficou por isso mesmo. Também nunca quis pagar pra fazerem isso, até porque os notebooks que comprei nos anos seguintes já vinham com o windows. E assim os anos passaram.

Então chegamos em 2022. Eu tinha um Vaio até que bom. HD de 1TB, intel i5 broadwell, 8GB de ram, coisas que suportam e muito bem o básico do meu dia a dia. Quando entrou o home office, era esse notebook que eu usava. Eu precisava de excel, do teams e de um acesso à VM. E o excel eu poderia usar dentro da VM. Basicamente meu notebook só precisava ser um terminal burro.

Mas tudo deu muito errado. Uma coisa simples se tornou um suplício porque esse notebook era "pouco" pro windows: demorava 20 minutos pra ligar. Fiz de tudo pra deixar o sistema o mais limpo possível, configurei tudo, mas não adiantava. Se tinha atualização - das quais a gente nunca pede -, demorava até 40 minutos pra ligar. Cada vez que eu era forçada a parar o trabalho pra atualizar, era um novo choro. Isso atrasava demais a minha vida e, nesse tempo, a empresa que eu trabalhava se recusou a me dar um notebook novo. Eu sei... Tá totalmente errado, mas a gente precisa trabalhar né...

Então, eu gastei um dinheiro que não podia pra comprar um notebook novo. Ele veio com o windows 11 instalado e com SSD, o que ajudou muito, pois ligava bem rápido e não tinha mais problemas. Além do mais, para uso pessoal estava de bom tamanho. Assim, o velho Vaio de guerra foi abandonado num cantinho obscuro da estante dentro de uma bag pegando poeira.

Pulando pra 2025, comecei a olhar mais os canais que divulgam linux. A facilidade de instalação e o uso dele me chamou muito a atenção. Além, do que, eu comprei um PC Gamer e não queria pagar pelo windows. Se ele custasse R$100,00 ainda seria caro na minha opinião, e não me importo com julgamentos. Não vale R$1.099,00 nem a pau. É muito caro pra pouca coisa e falta total de liberdade. Nunca entendi bem a razão de não conseguir desinstalar aquela coisa grotesca do copilot. Além do que, nunca me senti realmente estável com o windows. O medo de dar alguma novidade ruim sempre me acompanhou nessa jornada. Então eu peguei aquele Vaio empoeirado e instalei o linux Pop!_OS. E fiquei feliz de ter feito isso, é tão simples que eu mal acreditei que formatei meu próprio notebook.

Quando reiniciou, tive outra surpresa: ligou em 10 segundos. Ou seja, o Linux ressuscita tudo que o windows aposenta. Meu note velho voltou à vida. Usei, teste, aprovei. Quando o PC gamer chegou, coloquei o Zorin OS e tem funcionado muito bem assim. Eu jogo normalmente, com gráficos lindíssimos e tudo flui muito bem. No trabalho, eu descobri o teams for linux, que não é oficial da microsoft mas funciona como mágica e, diferente do windows, não é um suplício pra dar login, nem precisa daquele lixo do intune que minha empresa exige e eu tenho bastante resistência em instalar. Meu patrimônio, minhas regras.

Muitos são do partido que o usuário só quer ligar a máquina e usar. Ok, eu também sou dessas. Tanto que fiz idiotice pra comprar um notebook novo que eu pudesse ligar e usar. Mas o linux não é como há 15 anos. Hoje é simples, intuitivo, e grande parte das pessoas que só usam pra mexer em planilha, ver vídeo no youtube e estudar, de fato não precisam do windows. Aqueles que trabalham com determinados aplicativos, como o office, podem usar ele online ou usar os aplicativos do linux como onlyoffice e libre office. Sério, é a mesma coisa. Quem escreve tese de mestrado e usa o computador pra pesquisa seria beneficiado pelo linux. Programadores, de maneira geral, com certeza o linux é muito melhor pra vocês, exceto se você é desenvolvedor Delphi/ .Net / C# /Xcode /Jogos com engines windows e qualquer coisa que só tenha assistência ao windows. Pessoas que usam photoshop, corel draw, pro tools e ferramentas com suporte apenas no windows e macOS também não estão aptas a fazer migração até o presente momento. Mas é um nicho específico. Grande parte das pessoas podem fazer migração e isso lhes traria grandes benefícios. Você não se preocuparia em parar o trabalho pra atualizar nada, não teria IA nenhuma no sistema, desinstala o que quer, roda o que quer, sua máquina velha vai voltar à vida com linux, sem gargalo e seu gasto será ZERO.

Além do mais, os que partem desse princípio e dizem que "é só configurar o windows", ainda que você faça isso, o sistema não te dará liberdade. A telemetria continuará existindo, goste você ou não. A propaganda e as notícias inúteis continuarão lá. E pra quem só quer ligar e usar, saibam que os usuários médios - como eu -, que mesmo que possuam algum conhecimento, também é um trabalho ficar fazendo isso. Não queremos ligar e ficar configurando, queremos ligar e usar. E aqui vou falar a palavra usuário porque é isso que somos pro windows: usuários que se acostumam com tudo que eles empurram goela abaixo por julgarmos não haver outras opções. O windows te chama de usuário, o linux de comunidade.

Não quero dizer com isso que o linux é perfeito. Não meus amigos, ele não é e certamente há coisas que terão problemas. Mas o windows também tem problemas e muitas vezes a gente precisa pastar pra resolver. Coisas que funcionam como um toque de mágica são utópicas. Mas vale muito a pena usar o linux, principalmente porque as distros não são mais como antes. São simples, fáceis e bonitas como o linux Mint, o Zorin OS e o Pop!_OS. E pra instalar elas, basta fazer um pendriver bootável (que você encontra fácil um tutorial na internet), reiniciar seu computador apertando F12 (ou qualquer modo como seu computador entra no boot), selecionar a iso do linux no pendriver e instalar dando next. Sério. Só escolher o idioma, next, next e pronto. Simples, rápido e funcional.

Para os gamers, o linux não roda tudo por culpa das produtoras de jogos. Aqui vou dar alguns exemplos de jogos que não rodam: Valorant, League of Legends, Fortnite, Destiny 2, Call of Duty, Apex Legends e por aí vai. São poucos jogos que não rodam, 90% dos jogos você só vai instalar e dar play. Vão funcionar e às vezes até melhor que no windows. Pra saber se o jogo que você gosta vai rodar bem no linux, consulte aqui nesse site: protondb.

Minha grande questão existencial é que eu estou pregando a palavra do linux pra todos e ninguém me ouve. E eu entendo perfeitamente. Num passado remoto quando faziam isso comigo eu só ignorava. Pensava que era só um doidinho emocionado. Hoje eu me coloco nessa situação e vejo o quanto é útil e muito melhor usar o linux e parar de passar raiva com o windows. 

Os tempos mudaram muito e estamos numa época muito boa para o linux. Sejam bem vindos aos que querem vida nova.