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quinta-feira, 23 de abril de 2026

O caso Shy Girl

 


Nesse link aqui do reddit, alguém achou muito esquisito a escrita de um certo livro chamado Shy Girl, de uma escritora chamada Mia Ballard. O autor do post argumenta que o texto dela tem muita, mas muita cara de que foi escrito por IA. E por que? Abuso de travessão "—", palavras com conexões estranhas, como por exemplo:

 "Então a porta se abre com estrondo, e ele entra como uma tempestade, arrastando o fedor azedo de bebida atrás dele, sua presença preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço"

Ou

"Meias brancas sobem pelas minhas pernas, suas rendas delicadas, um sussurro de inocência sobre os machucados por baixo, aqueles que ele diz que não deveriam acontecer se as meias estiverem lá — mas sempre acontecem." 

Isso é a prova cabal de que foi escrito por IA? Certamente não, mas é muito estranho porque não segue bem um padrão que um humano normalmente escreveria quando precisa usar palavras um pouco mais sinestésicas.

Eu já pedi pro Chat GPT escrever assuntos sobre coisas que já tratei aqui. Não foi muito satisfatório o resultado. Chat GPT não conclui, não tem opinião. Tudo que ele escreveu foi apontamento genérico.

"Diante desse cenário, torna-se urgente discutir limites e responsabilidades. Plataformas digitais, anunciantes e os próprios criadores de conteúdo precisam ser cobrados. Mais do que isso, é essencial investir em educação midiática, para que os usuários desenvolvam senso crítico diante desse tipo de propaganda."

Vejam que no caso do livro de Mia Ballard, escrever esse tipo de coisa "preenchendo o ambiente e tornando o ar pastel quebradiço" pode ser um indício de qualquer palavra juntada pelo Chat GPT. Afinal, IA não tem sentimento, não consegue escrever sensação genuína experimentada por um indivíduo que possui cognição. Há quem argumente que não é todo mundo que consegue nomear os sentimentos. Isso é real. Porém, o sentimento tá ali, é sentido e se tentamos falar sobre ele, muitas vezes conseguimos usando exemplos.

Mia Ballard, no entanto, exagerou nas repetições, nas inconsistências, no uso de travessão e em fechamentos de frases que não faziam sentido. O tom de tudo parece neutro demais, coisas bem estranhas para um ser humano. Como escritora, ela deveria reler seu texto e tentar entender se aquilo tem coerência. 

O lance de Shy Girl terminou mal. Pela primeira vez na história uma editora cancela a publicação do livro porque, fazendo análises, concluíram que 70% do livro foi escrito por IA. Mia Ballard, por sua vez, alega não ter usado IA, ela enviou para um revisor e este sim usou IA. Se é verdade, ela terá meios de provar, mas duvido muito. Se eu enviasse meu texto a um revisor e ele usasse IA, eu saberia. É preciso ter tal delicadeza. Por fim, Mia Ballard diz que está com a reputação destruída e a saúde mental em frangalhos. Imagino que deve ter sido triste pra ela, mas não se pode quebrar as regras e esperar que tudo dê certo.

Eu particularmente não sei explicar as razões que me levam a desconfiar que algo foi gerado por IA. Acredito que até o presente momento, a IA "produz" coisas muito artificiais. Não há nada expressivo na IA, ela parece apenas concatenar um certo número de palavras que fazem algum sentido. Falta a qualia, o pessoísmo

Qualia é um termo usado na filosofia pra descrever subjetividades. Eu posso olhar pra uma flor sem julgar, mas a qualia me permite pensar que a flor é de um azul profundo, de um cheiro cheiroso, de uma beleza única. É como se fosse a alma, o signo de cada coisa. A IA parece não ter qualia. Ela só junta lé com cré. Posso estar sendo um tanto simplista, mas é o que me parece.

Uma vez vi um vídeo de entrevista com o físico Roger Penrose falando sobre a IA. Ele usou o teorema da incompletude de Gödel pra explicar que se temos um conjunto de regras, sempre existirá uma verdade que essas regras não conseguem provar, mas nós humanos sabemos se ela é ou não verdadeira. Uma IA não consegue provar que sua própria regra é verdadeira. Nós que temos que observar se aquilo funciona ou não e isso depende da nossa consciência.

Eu posso fazer um calculo usando certinho uma fórmula e esse resultado dar errado. Eu percebo porque tenho consciência pra entender que pode ou não estar certo. Isso acontece porque estamos conscientes do que pensamos.

A IA não entende o significado das coisas que faz, ela é apenas uma calculadora gigante e sofisticada que segue as regras da computação. Isso serve de aviso pra qualquer escritor que esteja aspirando uma chance de ter seu romance publicado. Isso requer trabalho sério e duro e isso implica não pedir pra IA melhorar o texto ou expor ideias nonsenses. Reconhecer a artificialidade da escrita é preciso.

Uma vez eu li um livro chamado Impostora, da escritora R. F. Kuang. O livro conta a história de duas mulheres, June e Athena, que se formam juntas e seguiram fazendo companhia uma para a outra depois da faculdade. Athena se torna uma escritora de extremo sucesso, enquanto June, também escritora, apenas coleciona fracassos. Em dado momento, Athena morre e June rouba o manuscrito do romance que Athena estava concluindo em vida. Ela então decide fazer algumas alterações porcas e publica como se fosse seu. O sucesso do romance é imediato, se tornando um tremendo best seller.

A obra roubada fala sobre os trabalhadores chineses durante a primeira guerra mundial. A editora sugere que June use um nome ambíguo, Juniper Song, para dar algum efeito na obra e assim ela passa a ter uma nova identidade no mundo literário. Porém, no auge do estrondoso sucesso, alguém percebe que aquilo tudo é uma fraude e que a obra pode ter sido roubada de Athena. 

Algum tempo depois da polêmica que só piora as coisas para June, alguém publica algo no twitter dizendo que a obra parece ter sido escrita por uma pessoa e remendada por outra. E esse é um dos pontos que eu queria comentar. Temos muitos exemplos de textos que começaram ser escritos por uma pessoa e outras terminaram. Trago dois exemplos, Assassin of Secrets, de Q. R. Markham e How Opal Mehta Got Kissed de Kaavya Viswanatha. Ambos livros são obras copiadas de vários trabalhos. Muitos leitores notaram que esses autores não plagiaram só as histórias, mas copiaram trechos inteiros de outros livros famosos como James Bond e The Princess Diaries. Era como pegar uma frase e mudar ela colocando as suas considerações. Acredito que esses autores não sabem o que é estilística.

Outro ponto que eu queria comentar é que, Kuang passa no livro a ideia de que as editoras funcionam por meritocracia e isso não é verdade conforme vemos na prática. No caso de Mia Ballard, a editora Hachette Book Group aceitou publicar um livro possivelmente gerado por IA, mas dificilmente deve dar chance a quem faz um trabalho dedicado, bem escrito e caprichoso.

Por fim, quero destacar algo nesse livro que me incomodou, que é o fato das pessoas ficarem surpresas que June não era chinesa e arriscou escrever algo sobre a China. Eu concordo que há coisas sobre nossa cultura que requer um olhar experiente e muitas vezes nativo. Mas a grande questão é que essa coisa identitária não é bem verdade e não se sustenta tanto quando a gente observa a nossa realidade material. Vejam o caso de Leandro Narloch que escreveu o tal guia do politicamente incorreto da história do Brasil, cheio de erros, mentiras e interpretações abjetas. Um Brasileiro falando sobre o Brasil, mas com um ponto de vista completamente errado e pernicioso.

O caso é que nós temos muita resistência à IA. Não que ela não ajude. Eu particularmente uso bastante pra resolver problemas que me deixam travada. Mas é preciso saber dosar. Pedir pra IA fazer tudo é um grande problema. Uma dúvida pontual, ok. Mas resolver volume grande de problemas é complicado.

Ainda sim, o olhar que temos que ter é de desconfiança. Não acredite cegamente nas informações que as IAs te dão. Uma vez um amigo estava debatendo e saiu postando argumento formatado que ele perguntava pro Chat GPT. Disseram pra ele não usar IA e ele garantiu que não estava usando, mas estava. A IA citou trechos de livro que eu mesma reconheci não serem verdadeiros e abri o livro perguntando a ele onde estava escrito aquilo. Depois, as fontes que a IA postava, ou eram artigos que nada tinham a ver com o tema ou não existiam. A maioria não existia. Meu amigo então, admitiu que usou IA. E eu, que só tinha dado a ele duas fontes que ele não olhou, expliquei que eu estudei aquelas duas fontes, não saio por aí lendo um monte de coisa sem critério nenhum.

Se a IA te der exemplos, procure esses exemplos na internet e tente comprovar se aquilo é verídico. Se a IA passar fontes, pesquise essas fontes pra ver se existem ou se estão falando do mesmo assunto que você perguntou para a IA. Se você estiver escrevendo, tente não pedir pra IA reescrever seu texto melhorado. Ela pode ajudar a corrigir gramática, mas revise bem você mesmo pra ter certeza. Processo criativo é trabalhoso e a IA não substitui o trabalho humano.

Sei que ouvimos por aí que ela vai roubar nosso emprego, mas a menos que ela ganhe consciência e saiba exatamente o que está fazendo, eu fico aqui com o benefício da dúvida. Pela internet é possível encontrar textos escritos por IA. Se você puder, aponte. Sei que isso é insano, mas sempre aponte se você desconfiar que algo foi escrito por IA. Ao menos é uma forma de mostrar que não queremos tolerar que nossas vidas sejam tomadas por isso.

E por fim, a velha dica clichê: use com muita sabedoria e moderação. Tente, em princípio não usar. Leia e faça pesquisas primeiro, tente não sair perguntando tudo de cara para a IA. Ainda não temos clareza do que isso pode fazer com nosso cérebro, então o melhor é ter muita moderação e bom senso. 

Eu não tenho uma visão necessariamente otimista, mas não sinto um completo pessimismo na humanidade. Não é todo mundo que vai concordar com isso e o caso Mia Ballard serve pra nos mostrar o quanto o humanismo tem grande valor para todos nós. Se tudo está muito artificial, nós sentimos que tem algo errado. Se você sentir isso, não ignore. Não vamos permitir que a IA tome conta de tudo sem reagir.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

16 livros para entender os perigos das redes sociais e os objetivos sinistros das big techs

Trago aqui um compilado de livros que li e que me inspiraram a estudar mais sobre o tema das big techs e abandonar as redes sociais. Eu comecei a enxergar problemas lá pelo ano de 2015, quando fiquei incapaz de ler um livro e culpo o facebook por isso. Hoje eu sei que o facebook anda declinando em popularidade, apesar de muitas pessoas ainda fazerem uso, principalmente aqueles ditos acima de 35 anos. Em 2018 estourou o escândalo da Cambridge Analítica e desde então o facebook entrou em descrédito. 

Por ter basicamente destruído minha saúde mental, essa plataforma foi a que passei mais tempo falando mal desde que a abandonei em 2017. De lá pra cá, esses livros funcionaram pra ter mais conhecimento de causa e analisar os motivos que me fazia ficar conectada dando meu tempo de vida a essas big techs e engajada em brigar, analisar, escrever textão e todas essas coisas que hoje considero vergonhoso pra mim.

Vou colocar uma breve descrição do que cada livro fala.

1) DOMINADO PELOS NÚMEROS - David Sumpter

Esse livro traz uma explicação técnica de como os algoritmos são usados pra entender mais sobre nossos gostos e moldar o que vamos ver nas redes sociais. Ele ainda faz uma análise acurada do porquê, mesmo você sendo um metaleiro que aprecia bandas como Obituary, Cannibal Corpse, Sepultura ou Deicide, aparece bichinhos fofinhos e vídeos de pagode dos anos 90.

A questão é bem curiosa, já que o extremismo é coisa humana. Ou seja, essa coisa de sim ou não, 8/80, vai ou racha, preto ou branco não existe nos algoritmos. A máquina entende que, com alguma probabilidade de erro ou acerto, você pode sim ouvir Cannibal Corpse na sua playlist e ser fã de ursinhos carinhosos no sigilo. Nada nos impede disso, o extremismo é puramente ideológico, não refletindo verdadeiramente na complexidade humana.

Essa é uma dica interessante de leitura pra quem quer entender como o sistema dessas redes são sofisticados pra te deixar viciado e te fazer acreditar que o problema é você, não eles.

 

2)  DEZ ARGUMENTOS PARA VOCÊ DELETAR AGORA SUAS REDES SOCIAIS - Jaron Lanier

Eu já postei nesse blog um capítulo desse livro, do qual Lanier se dedica a falar sobre política. Você pode ler aqui, caso tenha interesse. Esse livro traz 10 argumentos pra que você simplesmente delete suas redes sociais. Não existe considerar, nem reduzir o tempo, o autor sugere que você DELETE.

Os argumentos vão desde a perda de liberdade, livre arbítrio e privacidade, passando por assuntos ligados à saúde mental, explicando os motivos da gente ficar mais tristes quando presentes nas redes sociais, até questões extremamente graves como genocídios, estupros e golpes nas democracias causados pelas redes sociais.

Jaron Lanier diz que parou de dar consultoria para filmes de ficção científica por acreditar que esses caras brancos liberais do Vale do Silício usam essas ideias inescrupulosamente pra criar mais problemas ligados à tecnologia. 

Minha dica é começar por esse livro. Ele te dá um imenso norte pra continuar as pesquisas sobre essas nefastas redes sociais. 
 

 3) OS ENGENHEIROS DO CAOS - Giuliano da Empoli

 

Esse livro nos conta a história de Steve Bannon e da Cambridge Analytica e como eles se utilizaram dos algoritmos e os padrões de dominação das redes pra glorificar figuras como Trump, Salvini e Bolsonaro que antes eram desconhecidos ou marginais na vida política e se tornaram presidentes. O autor nos conta como é possível partidos como o Cinco Estrelas conseguirem eleger um número considerável de pessoas sem preparo algum pra ocupar esses cargos. Adianto que é um livro bem assustador e creio que isso pode convencer muita gente a abandonar as redes sociais.

4)  BIG TECH: A ASCENSÃO DOS DADOS E A MORTE DA POLÍTICA - Evgeny Morozov

 

Costumo dizer que esse livro é obrigatório pra quem deseja ter mais profundidade nos temas a respeito das implicações da tecnologia na nossa vida prática. Ou seja, a procura pela solução de problemas usando tecnologia, ou como o autor nomeia "solucionismo digital". Significa que as big techs costumam tentar encontrar solução digital para tudo, problemas urbanos, de trânsito, de moradia, transporte público, etc e muitas vezes a solução daquilo não é digital, mas melhorar a política pública e de acesso.

O autor também argumenta como, ao invés de ajudar, esses aplicativos de solucionismo digital criam muito mais problemas, levam empresas à falência e geram dependência do uso de suas tecnologias para conseguir monopólio de produtos e mão de obra que não são seus. O iFood tá aí pra nos mostrar isso.

Pense bem. As redes sociais criaram um problema imenso na nossa vida e na nossa saúde mental. Assim sendo, por que a solução pra isso não seria excluir o perfil, desligar o celular e viver nossas vidas no modo analógico? O que as pessoas acreditam que pode ser a solução? Criar uma outra rede social "mais humana"?

Meus amigos, não... Solucionismo digital, em grande parte das vezes é falso, cria problemas e atenta contra a democracia. Recomendo fortemente esse livro. Ele é bem embasado, bem escrito e mostra como digitalizar o mundo pode ser extremamente perigoso.

 5) ALGORITMOS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA - Cathy O'Neil

Esse é um livro bem interessante onde a autora demonstra que os aplicativos digitais que vão dominando nossa vida quando fazemos compra, quando lemos, quando saímos e viajamos, quando compramos remédios, comida ou consumimos produtos online, seja o que for, estão sempre presentes e se refinando para atender, não às nossas necessidades, mas às demandas de lucro das big techs. Ou seja, se eles não quiserem vender pra pessoas negras, os algoritmos aprendem a ser preconceituosos punindo as pessoas mais necessitadas e excluindo-as ainda mais do sistema. É uma leitura lenta e um pouco chata no começo, mas vale a pena.

6) FOCO ROUBADO: OS LADRÕES DA ATENÇÃO DA VIDA MODERNA - Johann Hari

 

Esse autor foi radical em submeter a si mesmo a viver uns meses num local isolado sem internet e com um celular com um botão grande pra emergência. Ele tomou essa decisão após levar o sobrinho pra conhecer o museu do Elvis e notar que ninguém prestava muita atenção ao redor, só tiravam fotos pra alimentar as redes sociais ou se distraíam no celular, inclusive seu sobrinho, que quando pequeno, sonhava em visitar esse museu.

Esse livro explora nossa vida de antes, quando conseguíamos prestar atenção aos filmes, a palestras e se concentrar na leitura. Ele mostra como os donos dessas big techs fizeram pra controlar nossa atenção com coisas até simples tipo o coraçãozinho e likes como recompensa e gamificação do uso dessas plataformas.

Indico fortemente pra quem quer recuperar a vontade de ler, trabalhar e estudar sem distrações.
 

 7) INFOCRACIA: DIGITALIZAÇÃO E A CRISE DA DEMOCRACIA - Byung Chul-Han

Byung-Chul Han é um grande filósofo do nosso tempo e nesse livro ele vai nos mostrar como as democracias estão indo pro beleléu e provando que parte disso é culpa nossa.

Nós nos deixamos influenciar por tão pouco, como gados, só porque algo é atraente e brilhante. Damos nossa saúde mental por tão pouca coisa em troca, em um sistema digital que nos humilha e faz coisas moralmente reprováveis, mas não possuímos muito senso de moral pra perceber isso e arruinamos nossas vidas, fracassamos e cada dia nossa energia se esvai por dar poder a essas redes. 

Byung-Chul Han explica os motivos de sermos tão coniventes com isso - mesmo você julgando que não - e nos convida também a entender como as redes potencializam coisas já conhecidas como terríveis mas que são recicladas. Por exemplo, ele diz que não adianta fazer checagem de fatos porque a verdade já foi proclamada e dificilmente as pessoas mudarão uma ideia que já está assimilada como verdadeira em suas cabeças. Pra exemplificar isso, ele usa as propagandas nazistas que induziam o povo acreditar que os judeus estavam matando e causando problemas quando na verdade foram os nazistas que organizaram todo o genocídio.

Eu recomendo fortemente a leitura desse livro. Isso fecha com o que eu sempre costumo dizer nesse blog - e eu vou preparar um post só pra isso -, que toda a checagem de fato - mesmo que venha do seu influencer estudioso com doutorado que só está tentando te alertar - vai contribuir como propaganda em favor de quem está viralizando a informação errada. Uma vez que as pessoas aceitaram mentiras como verdades, elas não vão ouvir checagem de fato.

8) A ERA DO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA - Shoshana Zuboff

Pra você que gosta de temas mais ligados à economia e como funciona as big techs nesse cenário todo, esse livro é a coisa mais interessante e assustadora que há. Ele mostra o poder que essas big techs têm sobre a economia mundial e como eles acumulam riquezas astronômicas minerando nossos dados sem nosso consentimento.

Não há mais privacidade, você é exposto a todo momento, leiloado, vendido e julgado mesmo sem concordar e nem saber disso. A falta de privacidade e a vigilância constante são transformadas em lucros. Esse livro vale seu tempo.


 

 

 

 

9) POLÍTICAS DO ENCANTO - Paolo Demuru

 

O livro explora como as redes sociais são um terreno fértil para o pensamento extremista, o levante do fascismo e um verdadeiro lamaçal para a esquerda. É um livro corajoso e forte, eu particularmente, que detesto redes sociais e seus criadores, fiquei muito feliz em ler isso. Foi como lavar a alma.

Tem um canal que eu sigo no youtube chamado Frederico Krepe. Um dia ele fez um vídeo muito bem articulado explicando a respeito da internet, das redes sociais e como é possível usar essa ferramenta pra mobilizar os trabalhadores. Ok, eu concordo. A internet faz parte da comunicação, não podemos negar.
Além do que, ele diz que não existe essa dicotomia entre vida real e internet, que a vida real é a internet. Se tiver interesse, clique aqui pra ver o vídeo.

A internet é uma espécie de continuidade híbrida da nossa vída, se assim pudermos falar. Como qualquer coisa na vida, se usar demais, pode ser prejudicial para a saúde do corpo e saúde mental. As redes sociais são perigosas, provocam vício e deixa você infeliz. E eu não tô nem tratando de exceção aqui. Nem mesmo gente que tem motivo pra ficar feliz com rede social, aqueles seletos grupos que faturam muito dinheiro com gente ingênua estão transbordando de felicidade, quem dirá pessoas pobres como eu e a maioria. 

Krepe não explica o conceito de guerra híbrida. Só diz de forma errada que ela serve pra explicar "qualquer coisa". Nada menos que falácia. As redes sociais, principalmente se estamos falando de x/twitter são sim instrumentos de guerra híbrida, queira o Krepe entender isso ou não. Guerra híbrida é uma forma de chamar técnicas de ataque militar passadas pra tecnologia, como manipulação psicológica, cyberataques, desinformação e por aí vai. Não se usa canhão na guerra híbrida, usa meme. É ridículo né? Mas infelizmente foi o que essas redes condicionaram as pessoas a fazerem.

Como diz Byung-Chul Han, as redes sociais amplificam notícias falsas como se fossem verdades e as pessoas aceitam isso. Chutam desinformação sobre vacinas na nossa cara e não adianta nada fazer checagem de fato ou querer dar explicação lúcida, o estrago foi feito, será difícil de voltar atrás a menos que essas merdas sejam regulamentadas - e ainda sim, tenho minhas dúvidas se vai conter a desinformação.

Internet não se resume a rede social. Rede social é aquela coisa comandada por bilionários sem o menor escrúpulo que necessitam de gente de esquerda logada pra direita prosperar. A esquerda pode espernear achando que estão agregando algo nas redes, mas elas estão, em parte trabalhando pra gerar matéria prima pra direita conspirar. Não estou alegando, com isso, que a esquerda deva se calar e cessar a comunicação. Seria sim interessante se o x/twitter perdesse sua relevância e fosse enfraquecido. Mas eu não espero por isso, as pessoas acreditam mesmo em suas relevâncias nessas merdas digitais.

A internet também faz parte da nossa vida, mas rede social não resume a internet e não é nem de longe errado questionar o fato mais que concreto que esses bilionários, sem o menor escrúpulo usam essas ferramentas pra lucrarem com desinformação e polarização política. Assim sendo, se você tem algum juízo na cabeça, se envolva com política, mas delete sua rede social sim. Toda luta social é válida e você não está lutando contra um fantasma.


10) UMA VERDADE INCÔMODA - Sheera Frenkel e Cecilia Kang

Esse livro conta a jornada de Mark Zuckerberg, como ele se tornou tão poderoso, como o facebook ficou tão gigantesco e também demonstra como isso causou retrocesso na informação, na democracia e na nossa vida pessoa. 

As autoras também explicam como a meta fez um imenso esforço de negar as acusações que pesavam sobre ela de desinformação, mentiras, manipulações, discursos de ódio, genocídios e manipulação política. A meta alega que não sabia que estava causando esses problemas, mas não é verdade, pois falta de avisos e denúncias não faltaram. Até mesmo um funcionário da parte de segurança da meta tentou avisar ao Zuckerberg o que estava acontecendo e ninguém fez nada.

Elas demonstram até a influência russa nas eleições estadunidenses e como Mark Zuckerberg esteve o tempo todo 100% consciente disso. É uma leitura revoltante, mas que diz muito sobre as intenções desse tipo de gente como Zuckerberg. 


Esse livro sem dúvidas te faz respirar com alívio quando você decidir deletar sua rede social sabendo que faz a coisa certa.

 

11) A FÁBRICA DE CRETINOS DIGITAIS - Michel Desmurget

 

Indicado principalmente pra os pais ou responsáveis por crianças e adolescentes. Aqui o autor demonstra que é absurdamente falsa a ideia de que é necessário o uso de telas para a educação, e que toda essa situação degradante de permitir que crianças tenham celulares e acesso à internet está criando problemas de ansiedade, atenção e foco e ainda criando desigualdade educacional, já que essas mesmas crianças irão crescer e concorrer com adultos que foram criados com educação sem tela e esses terão completa vantagem intelectual.

Esse livro demonstra o que sabemos bem: que as redes sociais e o celular são perigosos, mas pra crianças e adolescentes que ainda estão com o cérebro em formação, isso pode causar danos até irreversíveis. Recomendo fortemente a leitura. 

 


12) A GERAÇÃO ANSIOSA - Jonathan Haidt

 

Esse livro é uma leitura obrigatória pra todos. Quando saiu a polêmica de "adultização" levantado pelo youtuber Felca eu lembrei imediatamente desse livro porque ele mostra de uma forma bem direta como, por exemplo, a meta tem os ingredientes específicos para atrair adolescentes e crianças pra suas plataformas.

Ele expõe até documentos sobre como a meta tem a estratégia correta pra empurrar conteúdos específicos pra esse público juvenil e torná-los viciados, mesmo sem o consentimento dos pais. É bem chocante, mas lembre-se, quem comanda essas plataformas são bilionazis que só querem lucro, tão cagando e andando pra você e sua família.


 

 

13) LIMITE DE CARACTERES - Kate Conger e Ryan Mac

 

Esse excelente livro documenta toda a história de aquisição do Twitter, que não foi nem um pouco limpa e amigável e que conseguiu destruir essa rede social. Esse sujeito é tão mimadinho, egocêntrico e abjeto, que o twitter se tornou um verdadeiro caos depois que ele o adquiriu só pra satisfazer suas vontades infames. Difícil acreditar quem diabos consegue admirar um sujeito desse depois de ler esse livro. Se antes não dava pra imaginar, depois do livro, menos ainda.

 

14) IRRESISTÍVEL - Adam Alter

 

O livro mostra como funciona a dinâmica do vício de forma brilhante, explicando como as redes sociais, jogos, tecnologias de vestir (como smartwatches) e os infames likes são criados propositalmente pra reter sua atenção. Funcionam como um caça-níquel, com cores vibrantes e barulho delicioso pra te manter sempre sentindo prazer.

O livro explora o assunto trazendo histórias de até partir um pouco o coração, como essa estudante que relata que o jogo das kardashians arruinou sua vida ou do rapaz que engordou 30kg jogando WoW e deixou até de tomar banho, passando 20 horas por dia jogando.

Adam Alter não fica falando sobre dopamina como se ela explicasse tudo (na verdade ela sozinha não explica nada), ele vai muito além disso e demonstra que é uma batalha até perdida lutar contra essas coisas. Esses covardes que fabricam essas merdas sabem exatamente como pegar a gente pelo prazer de continuar mantendo engajado e dando atenção para os joguinhos e atividades online que eles fabricam. É um livro bem interessante e que certamente você voltará pra ler de novo. 

15) LIBERDADE E RESISTÊNCIA NA ECONOMIA DA ATENÇÃO - James Williams


Esse autor veio de dentro dessa bagunça das big techs e nos mostra como a ideologia por trás da criação dessas redes sociais e demais tecnologias são inescrupulosas, covardes e como eles também desenvolvem um monte de bobagem sem nenhum cabimento pra extrair nossa atenção em nome do lucro e de outros motivos bem obscuros e sinistros.

Além do mais, o livro é bem aconchegante, você lê e se identifica imediatamente, como se ele estivesse resumindo seu sentimento diante de toda essa celeuma. 

O livro toca num ponto interessante. O autor sugere para os estudiosos que não publiquem os prejuízos que essas coisas trazem pro cérebro apenas para as crianças e adolescentes, mas que exponham como isso afeta brutalmente adultos e idosos.

Como ele diz: "Se nossas tecnologias não estiverem do nosso lado, não devem ter lugar em nossas vidas"

 

16 ) A MÁQUINA DO CAOS - Max Fisher

Esse é o livro que se eu pudesse dar só uma indicação, seria ele. Creio que é o mais completo sobre o mecanismo de engrenagem social criado por essas redes que acabou refletindo no tecido democrático do mundo inteiro.

Se você crê que tem controle sobre a rede que você usa, esse livro vai derrubar essa ideia e demonstrar como coisas até banais e idiotas como briguinha pra saber qual comida ou brinquedo é melhor, pode criar um verdadeiro caos na vida das pessoas. Ou até como um assunto bobo de mal entendido pode criar um caos e prejudicar trabalhadores.

Um exemplo disso é o caso de uma estudante do Smith College que acusou funcionários de impedi-la de comer no refeitório, alegando que ela "comia como uma negra". Isso causou um barulho nas redes sociais e gerou um escândalo enorme. Teve funcionário que saiu de licença, outro se transferiu e um deles pediu demissão.

A estudante em questão estava comendo em um espaço anexado ao refeitório que era pra crianças, e o zelador lhe pediu educadamente pra comer em outro lugar. E foi só isso. Ele só avisou ela, não a ofendeu, nem disse essas palavras grosseiras. O que veio dela, nas palavras do autor, foi uma hipérbole juvenil. 

A aluna que era vítima das redes e de racismo, passou a ser linchada moralmente e atacada. De heroína à vilã. Como diz o autor:

"Poucos pensaram em culpar as plataformas sociais que haviam dado a uma adolescente o poder de acabar com o ganha-pão de trabalhadores de baixa renda, incentivaram-na e a milhares de espectadores a fazer o que fizeram e garantiram que todos passariam por sua impressão errada, transformada em indignação, como algo mais verdadeiro que a verdade." 

Esse livro traz coisas ainda mais terríveis e tenebrosas como o genocídio do povo ruainga em Mianmar, e que sabidamente a ONU culpa o facebook como causador dessa limpeza étnica. Os refugiados - que hoje protagonizaram o maior êxodo do mundo -, processam o facebook por fomentar o discurso de ódio contra eles.

No dia que você se perguntar o que deu na cabeça do povo alemão pra apoiar os nazistas e serem completamente omissos aos judeus sendo mortos e massacrados em campos de concentração, pergunte-se o que dá na nossa cabeça de continuar usando uma rede da qual nós damos força e que causa inúmeros estragos no mundo e na nossa vida. Eu nem vejo problema em fazer essa colocação. Até porque eu não estou chamando de nazista quem usa rede social, não é isso. É simplesmente tapar os olhos e não querer enxergar o que está acontecendo.

Genocídios, estupros, caos, pânico, volta de doenças controladas por causa de movimento anti-vacina, desinformação, destruição da democracia, levante do fascismo, polarização, destruição da saúde mental, crise sanitária com propagandas de apostas e tolices ilegais, fake news sobre diversos tópicos, inclusive mentiras sobre o aquecimento global que dá moral para empresas fazerem o que quiser e sua vida virar um inferno.

Não ignore essas coisas. E se por ventura você ainda estiver pensando que fez amigos e reencontrou o cara que jogava bola contigo na escola quando eram crianças, lembre-se que a quantidade de coisas ruins que essas redes trazem não valem o seu tempo e não tem nenhum custo-benefício.