Umas semanas atrás, um jornalista chamado Paulo Figueiredo, querendo fazer uma crítica à Michele Bolsonaro, disse que "Mulher não sabe votar". E ainda continuou o discurso: "Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido". Essas palavras espalharam-se feito erva daninha na internet, virou manchete de jornal e milhares de pessoas deram suas respostas a esse cidadão, inclusive o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, que em mais um ato de desespero, alegou que não concordava com Paulo Figueiredo.
Também tivemos em abril, o caso de um Frei que durante um sermão, disse que "pessoas tatuadas não herdariam o reino de Deus". Bastou uma frase idiota dessa e pronto, a merda toda estava criada na internet. Vi até inúmeros vídeos de charlatões tentando usar a ciência pra mostrar que fazer tatuagem prejudicava sua pele, seu corpo e sua saúde e podia até causar câncer (?!)
Quem acompanha notícias de fora, deve ter tomado conhecimento do caso do Nikocado Avocado, famoso no mundo inteiro por praticar mukbang (ato de comer quantidades exorbitantes de comida). Ele comia, chorava, xingava, o peso dele na balança subia e ele ria, dizendo que o objetivo dele era mesmo ganhar 10, 20, 40kg. Nunca conheci um youtuber que tivesse tanto hate na vida. Nikocado descobriu a fórmula de ganhar dinheiro, e que se dane a imagem dele. Com muito dinheiro ele poderia comprar o que quisesse e cumprir seu objetivo de parar de fazer esse tipo de vídeo e emagrecer. E foi o que ele fez. Emagreceu enquanto continuava ganhando dinheiro com ódio mantendo seu canal com vídeos antigos.
Temos também casos de políticos que vão às faculdades públicas promover discórdia e acabam expulsos de lá pelos estudantes. Olha, meus queridos estudantes, esses caras fazem isso pra conseguir de vocês esse tipo de reação. Eles te usam pra gerar conteúdo nas redes sociais e queimar a imagem das universidades públicas, induzindo as pessoas ao ódio. É mais ou menos como faz o influenciador Jack Doherty, que entra em locais proibidos, em shoppings, em eventos, etc, pra provocar as pessoas e causar indignação.
O resultado de tudo isso, não precisamos nem pensar muito pra entender. Eles causam um enxame de críticas nas redes sociais e conseguem ficar por cima dos tópicos mais comentados. Falem bem ou falem mal, mas falem de mim, nunca fez tanto sentido, não é mesmo? Na internet de hoje, falar mal de alguém pode tornar essa pessoa rica ou tornar ela deputada. E mais ainda, fazer conteúdos que te causem incômodo e ódio poderá colocar o produtor dele numa mansão e você ficará no seu cantinho miserável, fortalecendo eles com ódio e indignação.
O mais próximo em português que temos para rage bait é "isca para raiva". É um tipo de conteúdo criado propositalmente pra causar indignação ou revolta nas pessoas. Exemplos: "Café é pior que refrigerante", ou "Arroz quente causa câncer" ou "brócolis engorda".
Afirmações falsas pra gerar polêmica como "a raiz quadrada de 50 é 25". Cozinhar errado de propósito como entuchar uma panela de óleo ou encharcar a comida de sal. Dizer coisas estúpidas como "Livros deixam as pessoas mais burras e eu posso provar", apenas pra que seu conteúdo passeie pelas redes e angarie seguidores.
E funciona, viu? Como funciona. Se não fosse sucesso fazer isso, as pessoas não fariam. Nesse artigo, a Draft coloca um infográfico mostrando que Rage Bait foi eleita por Oxford como a palavra do ano de 2025. O caso é que os algoritmos leem essas reações de ódio como relevância e distribuem o conteúdo indiscriminadamente. Um efeito bola de neve que só beneficia o criador responsável pelo rage, que faz você de moeda de captação. Ele não precisa te pagar nada, só te usa como massa de manobra e você cai como um patinho.
Eu sei que ninguém quer excluir a rede social porque tem apego com o amigo que não vê desde a quinta série. E quer manter contato com os amigos cuja relação só se mantém por ali mesmo. A rede social se tornou uma espécie de fio bem fininho e frágil de apego ínfimo às relações que um dia foram fortes. Um amigo me disse que não deleta porque quer ficar por dentro do que os alunos dele fazem. Mentira. Eu sei que é mentira, é só uma desculpa. Antes de dar aulas, ele se mantinha lá com qualquer outra desculpa que não me importa, pois eu não cobro que ninguém venha me explicar a razão de continuar naquele ambiente tóxico, cujas desvantagens superam muito as vantagens.
O que acontece é que eu posto muita opinião negativa sobre rede social e as pessoas se sentem obrigadas a me dar satisfações. E mal conseguem pensar nos motivos que as levam a fazer isso. Elas até conseguem elencar1000 coisas negativas pra sair, mas se mantém lá por uma única coisa que julgam ser boa. Não serei injusta quem, infelizmente precisa usar aquele esgoto pra trabalhar. Não é o caso da maioria esmagadora. A maioria só fica lá escrolando e ouvindo opinião. Ou vendo vídeo de gatinhos, que ultimamente têm recebido uma ajudinha da IA.
A estética do instagram é uma coisa perturbadora, na minha opinião. É um mar de bobagens aleatórias e sem fim, não tem como um ser humano normal absorver tanta informação. Fica tudo polido, resumido, performado, vazio... Ter uma relação no instagram é extremamente líquida. O ambiente se molda para arrancar reações de sua parte que muitas vezes não é você. Aquele que briga, que xinga, que fecha o pau é realmente você? Você faz isso na vida real? Se sim, com que frequência?
Minha mensagem aqui é: não caia no rage bait. Se você ver um político indo na sua faculdade falar besteira pra ganhar engajamento na rede social, deixa ele falando sozinho. Deixa ele lá quieto, porque você não vai dar a ele o que ele deseja. Não vai trabalhar de graça pra ele se eleger. Milhares de pessoas que verão o conteúdo dele vão achar que você cumpre todos os estereótipos que ele lhe definiu e dizer com uma equivocada certeza: "ele tem razão. Esses alunos de faculdade pública são todos uns defensores de bandidos e estão prejudicando a família".
Não fazer nada nesses casos, meus amigos, é sim fazer muito, muito mesmo. Vejam aqui outro exemplo. Ano passado uma mulher gravou um vídeo explicando os motivos de ter tirado a filha do quarto aconchegante dela pra colocá-la na varanda do apartamento. O casal concluiu que alugar um cômodo ficaria muito caro, então transformaram o quarto da menina num e-commerce. Nem preciso dizer que isso gerou infinitas indignações. Essa mulher conseguiu um monte de seguidores e ficou nos assuntos mais falados. Isso prejudicou ela? Sem dúvidas não. Afinal, ela gravou um monte de vídeo com o mesmo assunto, provocando mais ira, mais raiva, mais engajamento. Depois anunciou que comprou um apartamento melhor e realocou a filha em um quarto. Tudo, claro, às custas do seu ódio.
Agora me diga... Se ninguém tivesse falado nada, o que teria acontecido? Se ninguém desse a mais ínfima atenção a essa mulher? Se todo mundo entendesse a intenção dela e largasse isso de lado? Eu não posso afirmar com toda certeza do mundo o que poderia acontecer, mas posso dizer que ela não ficaria gravando um vídeo atrás do outro pra angariar tantos seguidores e fazer dinheiro com isso.
E se por ventura você achar irresistível encher o influencer de ódio? Você não vê o menor problema em continuar numa rede social que te induz a isso? Redes que você acha que possui total controle, mas na verdade, elas te controlam?
Vamos pensar um pouco. Resistam ao rage bait. Se eu pudesse criar um movimento na internet, sem dúvida seria: não caia no rage bait, resista! Afinal, isso tem prejudicado e muito a nossa saúde mental, nossa vida, queima nossas opiniões, atrapalham a democracia, favorecem políticos que não gostamos (não importa o seu lado), gera sim violência doméstica e cyberbullying. Não seja um lacaio de rede social, sujeito ao que um algoritmo espera de você. Tente fechar sua rede social e fazer algo pra se acalmar. Lembre-se que o rage bait parasitará as redes sociais como nunca nessa época de eleição e depende de nós mudarmos essa história.


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