Sei que não é tipicamente o assunto do blog, e eu não quero exatamente destrinchar esse caso. O que realmente quero é explorar o poder da narrativa que ele envolve e como as redes sociais fazem coisa parecida em um potencial absurdo.
No dia 20 de janeiro de 1996, três mulheres jovens - Liliane, Valquíria e Kátia -, durante uma chuva e vento forte, pegaram um atalho por um terreno baldio e viram uma criatura esquisita agachada e encostada em um muro. De acordo com elas, era uma coisa incomum, muito magro, pés grandes, olhos brilhantes e três chifres na testa.
Com o tempo de chuva intensa, vento e, como elas mesmas disseram, antes de avistarem a tal criatura, alguém havia lhes alertado que chamaram a polícia pra um homem que supostamente estava assediando as mulheres que passavam por ali. Não que eu duvide da palavra delas, mas isso não seria suficiente para os cenários mais assustadores possíveis? Pense só, você está na rua, cai um temporal, alguém lhe diz que tem um tarado atacando as mulheres e venta forte. Sua mente entra no modo de alerta.
Mas minha ideia não é explorar a fundo esse caso e nem questionar a sanidade das meninas. O que quero é dar um pouco mais de atenção ao que veio depois desse avistamento pelas três de Varginha.
Um famoso ufólogo chamado Ubirajara Rodrigues, vendo uma excelente oportunidade de narrativa, foi até Varginha dizer às meninas que o que elas viram foi um alienígena. Deixo claro que essa parte de oportunidade de narrativa é minha opinião, mas veremos que ela faz sentido, já que a ufologia vive de histórias que ninguém pode comprovar e o que veio a seguir foi uma sequência de acontecimentos férteis para a imaginação.
Ocorre que o parceiro de pesquisa de Ubirajara, o ufólogo Vitório Pacaccini também foi pra Varginha reunir testemunhas e provas de que o avistamento foi algo oriundo de outro mundo. Ele juntou depoimento de muitos moradores que disseram ter visto algo estranho naquela tarde de janeiro. O que chegou nas mídias? Apenas homens dizendo que viram algo luminoso no céu. Não foi mostrado o que Pacaccini disse a eles antes disso.
Também teve alguns eventos curiosos. Entre eles, o caso do policial Marco Eli Chereze. Ele teve uma pústula na axila, um furúnculo e foi submetido a um pequeno procedimento no quartel. Depois, ele deu entrada no hospital com dores intensas na lombar e foi internado. A infecção evoluiu de maneira agressiva, atingiu a circulação e comprometeu outros órgãos. Então, em 15 de fevereiro ele morreu de septicemia, choque séptico e complicação respiratória. O que causou a morte rápida dele foi uma infecção. Eu poderia passar mais uns 10 parágrafos dissertando sobre o estrago que as bactérias podem causar, mas eu me formei em Filosofia, não em Biologia, Medicina. Não vou me arriscar em assunto que não conheço.
A revista Questão de Ciência fez uma excelente matéria que pode ser lida aqui. Eles contam o caso com detalhes. Aqui eu só vou resumir que, para os ufólogos, o soldado morreu porque entrou em contato com a suposta criatura alienígena que deve tê-lo infectado ou feito ele entrar em contato com uma substância desconhecida.
É aqui que eu gostaria de chamar a atenção pro negócio. Se é "desconhecida", isso não nos permite avaliar o que era e nem supor qualquer coisa. Se não sei, então não sei e no caso desse soldado, a narrativa ufológica quer que você acredite que a morte dele foi muito estranha, um jovem saudável morreu em tão pouco tempo, num intervalo tão curto. Se alguém acha que uma bactéria destruir muito rapidamente a vida de uma pessoa é novidade na medicina, eu realmente gostaria de pedir que abra bem os olhos para a realidade infeliz de nossa vida.
Pessoas perfeitamente saudáveis podem ficar doentes de uma hora pra outra. Se estamos falando de infecção, a coisa ainda vai ladeira abaixo.
A causa da morte de Chereze tem explicação científica e médica de sobra. É triste, mas é simples. E todo o caso de Varginha foi construído pra criar uma narrativa que fosse precisa e funcional, jogando os fatos concretos naquela zona cinza de "não tem como saber", mas cuja história, desde o início do avistamento, tem explicação muito simples.
O problema é que ninguém gosta de explicações simples e partir daí, a história do tal ET vai só piorando. Os ufólogos propagaram ideias incríveis, como policiais que levaram o tal ET pra um pronto socorro que não quis atendê-lo. Eu realmente queria entender melhor essa parte porque se tudo era um segredo, por que diabos levariam uma criatura desconhecida a um hospital que provavelmente ninguém conseguiria tratá-la?
Após isso, um policial deu uma declaração que um casal com nanismo deu entrada no hospital para ter um bebê. Isso alimentou mais ainda a imaginação das pessoas e deu mais material para Pacaccine construir sua narrativa. E ele fez isso muito bem, comprando militares pra mentir, usando a verdade pra tentar descredibilizar a polícia, o exército, os médicos e as universidades investindo na velha retórica de que eles se mancomunam pra esconder a verdade da gente.
Anos depois, o ufólogo Ubirajara reconheceu que errou feio, alegando que atrapalhou a memória das meninas em relação ao que elas viram, que fez suposições erradas e que isso não merecia mesmo a atenção que, infelizmente ele fez toda a mídia olhar pra esse caso.
No fim, a conclusão é que, o que as três de Varginha viram no muro naquele fatídico dia chuvoso, foi um homem 100% humano chamado Mudinho. Elas negam, dizem que conheciam Mudinho muito bem, não teriam como confundir ele.
É difícil pra gente aceitar que nossa mente é capaz das coisas mais absurdas quando colocada em alerta. Como a memória das meninas foi prejudicada quando o ufólogo Ubirajara foi para Varginha imputar até falsas memórias nelas, formou-se um cenário em que, negar tudo depois seria realmente muito difícil.
Ok, mas e aí? Como podemos, no final das contas usar a narrativa do ET de Varginha pra fazer um paralelo entre as redes sociais?
Todas as narrativas extraordinárias que tiveram força absoluta na rede social, como terra plana, harp, antivacina, QAnon, Tartária, Ratanabá, carboidrato causa câncer, dieta da selva, fazer chuca com café e o que mais que a imaginação viajar, tiveram começo, propagação, viralismo e blindagem contra críticas.
Uma coisa que você daria muita risada há 20 anos atrás como dieta da selva, ganharam outra dimensão nas redes sociais como malucos falando sério e falsificando assunto científico, ganharam seguidores, blindagem de críticas e isso deixou de ser uma coisa que ficou no campo do ridículo - e que ainda merecia continuar no esgoto de onde veio - e passou a integrar uma verdade.
Pessoas como Pacaccine estão lá aos montes, capazes das coisas mais absurdas para propagar mentiras e ganhar dinheiro com elas. E quero lembrar aqui, que dificilmente essas coisas são desmentidas. Vejam o exemplo da Virgínia. Eu particularmente sempre vejo na minha rede de pessoas, todo mundo falando mal dela. E as notícias são desanimadoras. Defensora de Bets, ela também é responsável por causar uma crise na saúde pública no Brasil.
Mas diante de todas essas atrocidades, por que cada dia ela fica mais rica, mais famosa e consegue só mais seguidores ao invés de afastar as pessoas de lá?
Porque a rede social que ela recebe dinheiro e engana gente ingênua é o terreno que favorece pessoas como ela. Não se trata de uma rede social livre, que todos escolhem o que olham, que o feed é limitado, que você está disseminando informação só pra quem está interessado em ouvi-la.
Não.
O que acontece é que quanto mais você compartilha vídeo informando sobre algo que a Virgínia fez de errado ou denunciando algum golpe que ela propaga, você está ajudando a deixá-la mais famosa. Mas como?
Tudo nas redes sociais é calculado pra favorecer narrativas estúpidas. Você vai compartilhar uma porcaria que comprou na Wepink, que corroeu sua pele, que é propaganda enganosa e pronto. Se viralizar e, digamos que 50 mil pessoas assistam, ao menos uma fatia de 30% vai virar seguidor da Virgínia. Ficarão curiosos pra ir até lá e ver que você está "exagerando", mesmo que você esteja falando a verdade.
Porque as redes sociais são um terreno pensado pra que narrativas completamente absurdas ganhem camadas de credibilidade e isso é irresistível. Acreditar que o governo esconde coisas da gente dá um sentimento de que estamos sendo enganados e precisamos saber a verdade. Eles contra nós.
Sem rede social, isso já tinha um potencial de causar merda, imagine agora que acharam um terreno propício e profissional pra fazer vídeos curtos, retórica impecável e uma merda de uma rede que vai difundir os absurdos pra milhões assistirem.
Enquanto puder, eu vou insistir: delete hoje mesmo sua rede social e não volte mais. Nada que você faz lá é orgânico. Sua militância não fará diferença quando quem manda nas redes são fascistas do Vale do Silício que não se importam com o tecido democrático.
Internet não é rede social. As pessoas podem estar nas redes sociais, mas também estão em todos os cantos dessa internet e passou da hora de entendermos isso.

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