terça-feira, 21 de julho de 2026

Uma vida baseada em telas

 


Alguns anos, li um livro chamado Irresistível, de Adam Alter. Ele estuda sobre todos os tipos de vícios no celular e em qualquer outra tecnologia que envolva telas. Tecnologia de vestir (como relógios e anéis com dispositivo de exercício), celular, jogos, games (principalmente os de competição), redes sociais e por aí vai. Adam Alter deu uma entrevista ao ICL em 2024 e disse que nós gastamos aproximadamente 25 anos de nossas vidas em telas.

Isso sem dúvida é preocupante. Mais de 47% do nosso tempo é dedicado às telas. Já me perguntei muitas vezes sobre a dependência em tecnologia. Não dá fugir de muitas coisas, como trabalho, bancos, pagamentos, whatsapp, email, etc. No meu trabalho, por exemplo, eu preciso sempre usar uma senha pelo authenticator para acessar minha VDI. Isso me obriga a levar o celular para o trabalho quando vou pra lá. Eu trabalho no sistema híbrido, 2 vezes no trabalho, 3 em casa.

Diante do meu fracasso de desligar o celular e me manter mais fora do whatsapp do que dentro, fui procurar ajuda psicológica. Esses caras que fabricam essas coisas jogam sujo, e por mais que eu tente lutar, eles sempre vencem. Agora está tudo ok e decidi manter o whatsapp, mas acessar ele somente durante alguns minutos por dia. Quem me conhece está familiarizado com isso e quando precisam de algo, me ligam. Claro que nem sempre é possível. Há dias em que eu falho miseravelmente, mas tento sempre fazer o possível pra não dedicar muito tempo a telas.

Mas isso não é só sobre mim, é sobre todos nós. Um dia, eu vi esse depoimento aqui no reddit:

 



Eu poderia seguir tentando entender por que um menino de 14 anos tem acesso livre a uma IA, mas não vem ao caso. Ele já está num nível bem dramático de vício. Quando pensávamos que não bastasse celulares, redes sociais, jogos, vídeos curtos, etc, ainda tem que lidar com IA. E ok, eu sei que IA pode ajudar, se há mesmo necessidade de fazer disclaimer. Afinal, as pessoas tem uma estranha preferência por exceções ao invés de focar no que está sendo problematizado. As IAs são úteis, mas são feitas com designer e linguajar pra você também ficar viciado(a) nela. E eu não preciso lembrar que alguém com 14 anos de idade ainda está em formação do corpo e mente, é muito mais vulnerável. Portanto, as IAs também causam vício e prendem você nas telas.

Eu já discuti aqui a respeito da bobajada que a gente sempre escuta por aí sobre a dopamina, como se tivéssemos controle sobre isso. Não temos. Minha visão é que vícios precisam de tratamento e infelizmente não é possível pra todo mundo. Enquanto a regulamentação não for uma realidade, resta procurar algum caminho pra recuperação, caso isso seja um incômodo.

Meu caso é bem complicado. Eu me forço a ficar sem o celular. No começo foi muito difícil mas agora eu reacostumei a ficar sem. Tenho horário pra olhar o whatsapp e não tenho redes sociais, salvo as que não me incomodam. As que eu fico dias e dias sem olhar, sem ler, não dizem nada pra mim.

Ter deletado o facebook em 2018 me fez enxergar a coisa por outra perspectiva. Antes parecia impensável ficar sem, mas a vida me mostrou que é tudo muito melhor sem postar, sem olhar feed, sem ter que postar foto, sem nada que corrompa nossa saúde mental. Hoje eu não consigo nem pensar em como é voltar ao facebook. Foi um alívio tão imenso ter ficado sem, que hoje eu mal consigo entender como consegui passar tantos anos logada naquilo.

Por volta de 2014, surgiu um movimento chamado 99 Days of Freedom. Eu o aderi na época e vi muitos depoimentos de pessoas que toparam o desafio e a saúde mental melhorou imediatamente. Livros, caminhadas, conversas com amigos. Mas Zuckerberg não pareceu se importar muito com o crescimento desse movimento. Isso porque ele sabia que depois de 99 dias, tudo voltaria ao normal. O facebook continuaria disponível e acessível pra qualquer pessoa.

Depois que terminou meus 3 meses, voltei ativamente ao facebook como se nada tivesse acontecido. Mas esse movimento nunca saiu da minha memória. Talvez seu criador Merijn Straathof não esteja surpreso em saber como as coisas pioraram muito. Isso indica que o facebook já causava um grande incômodo nas pessoas que achavam que era necessário ter rede social. Não é. Além do mais, redes sociais tem prazo de validade. Elas podem ter muita força no momento, mas isso vai passar.

Em 2010 eu me lembro quando surgiu o movimento NoSurf. Naquela época ainda se falava "surfar na internet" e esse movimento surgiu para que as pessoas não surfassem desmedidamente em redes sociais e escrolassem sem parar. Como vimos, de 2010 pra cá a coisa só piorou. Os smartphones se tornaram ainda mais viciantes, e as redes sociais locais ainda mais tóxicos, de modo que muita gente foi procurar ajuda psicológica pra lidar com isso. O NoSurf ainda está presente no reddit, com relatos dignos de roteiro de filme trash.

Eu não tenho solução para vício. Não existem soluções simples pra problemas complexos. O que posso sugerir é, sem dor no coração, delete sua rede social. Se force a ler um livro, praticar alguma atividade e resista, não volte atrás. Torne a usar a internet como fazíamos nos anos 2000, pra ver sites e blogs, com hora pra começar e sair. É muito difícil lutar contra essas merdas, esses donos das big techs jogam sujo. Mas vamos nos lembrar que, se não quisermos no futuro contar que metade da nossa vida foi gasta em tela, não vejo solução senão lutar e resistir a tudo isso. 

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