quinta-feira, 29 de maio de 2025

Por que vocês escutam influencer fitness?

 

Mais ou menos no ano de 2008, pelo que me lembro, ainda na era dourada dos blogs, li uma postagem falando algo do tipo: "As 10 dietas mais bizarras do mundo". Até encontrei um antigo blog falando sobre isso. Naquela época, apesar de dietas serem populares, essas bizarrices ocupavam um lugar obscuro e marginal no grau de importância da vida.

Eles satirizavam, por exemplo, a dieta uga uga, um deboche para o nome dieta paleolítica. Pra mim isso é algo extremamente risível até os dias de hoje, mas qual não foi minha surpresa ao ver que as coisas mudaram em um nível que o povo decidiu dar algum respaldo científico pra essas bobagens e discutem os riscos, benefícios e diversas nuances dessa tal dieta que num passado nem tão remoto considerávamos bizarrices proferidas por um grupinho de fanáticos.

Alguns influencers andaram virando a chavinha do conteúdo e decidiram entrar nesse universo fitness porque isso dá dinheiro e mais atenção, nem que pra isso falem bobagens sem ter estudo e embasamento adequado.

Houve um tempo que tinha a Gabriela Pugliesi falando um monte de asneiras sobre exercício físico e dietas. Hoje em dia, há legiões desse tipo.

Gracyanne Barbosa, uma celebridade fitness que se não me falha a memória, tinha muitos haters. Os comentários em suas postagens eram o puro suco do ódio. Hoje em dia chamam ela de musa. Saliento que nunca achei nem um pouco legal o hate que Gracyanne recebia. Nunca vi motivo nenhum pra atacar alguém de graça assim, muito menos por causa do corpo. Meu ponto aqui é que as coisas sempre podem mudar. Ontem era ridicularizada, hoje é uma musa inspiradora.

Conteúdo sobre emagrecimento e ganho de massa está por toda internet. Charlatões propagando tolices sobre alimentação e profissionais sempre dispostos a respondê-los desmitificando eternamente essa porcalhada anticientífica.

Fazer checagem de fatos pode ajudar algumas pessoas, mas de modo geral, não é tão relevante. Se uma mentira ganha status de verdade, ela passará a ser verdade. Por isso você vê tanta gente estúpida falando que não pode comer fruta, glúten, lactose e outros alimentos frescos, mas pode usar anabolizantes, insulina e suplementos controversos livremente, conseguem milhares de seguidores e fiéis de seita, que se sacrificarão por eles e gastarão seus dinheiros com procedimentos duvidosos.

Um dia me enviaram um vídeo de uma senhora comendo uma barra de manteiga como se estivesse mordendo um pastel. E ainda falava trocentos rios de bobagens sobre dieta carnívora, o que me faz pensar que, se esse era o objetivo do nosso desquerido lagarto reptiliano Mark Zuckerberg, de fazer tolices se tornarem amplamente difundidas ao ponto de virarem falsas verdades, meus parabéns, ele conseguiu isso com sucesso. Sempre haverá quem acredite que a terra é plana.

O dia é difícil, o metrô tá lotado, você nem sempre tem tempo pra cozinhar e ainda gasta seus preciosos minutinhos ouvindo charlatões. Se não pode fazer uma refeição, compre o pacotinho mágico não sei do que e vire ele com leite. Ou faça jejum a noite, depois de um dia exaustivo de trabalho. Esqueça seus problemas financeiros e gaste um tubo de dinheiro no suplemento da influencer picareta das bets. Acredite que você terá o bumbum da Barbara Borges apenas usando método controverso de aeróbica. Ou que terá um físico igual do Ramon Dino comendo tapioca e usando o cupom de desconto da droguinha do influencer que recebe dinheiro do laboratório obscuro. Eles te iludem pra sugar o seu dinheiro.

Tome cuidado com esses influencers. É a sua saúde que está em jogo. Você não precisa se frustrar porque não consegue ir pra academia todos os dias. Nem precisa, na verdade, fazer academia se você não gosta, aprecie outros esportes. O básico na nossa vida sempre funcionou muito bem e logo não vai demorar para que tenhamos uma crise sanitária e a culpa é majoritariamente dos influencers que causam esses problemas. Muitos deles não servem pra nada, só estão lá unicamente pra sugar o seu dinheiro.

Por que você conta quantos livros você lê?


 

Eu nunca usei Tiktok na vida. Tudo que sei sobre essa rede são informações que vejo por aí, vídeos que os amigos compartilham e coisas que eventualmente vão parar no youtube. O instagram adotou o modelo de vídeos curtos nos reels e o YouTube também tem repetido essa mesma lógica no shorts. Dá pra se ter uma ideia do quão viciante que é o tiktok.

Uma coisa que andou me chamando a atenção, é que muitos Youtubers fazem vídeo falando a respeito de como o hábito da leitura tem se transformado no tiktok. Se por um lado há uma coisa boa em fazer todo mundo ler, por outro, existem pessoas que ficam ansiosas e tristes por não conseguirem ler o volume insano de livros que esses influencers do tiktok são capazes de ler. 

Na época que eu fui adolescente e estudava, não havia essa coisa de clube de livros, ao menos não tão acessível. Eu lia bastante, mas era algo bem individual, dificilmente as pessoas dividiam experiências de leituras e indicavam livros. Quando fui trabalhar com uma moça muito jovem, 24 anos, que tinha ainda lembranças frescas da escola, ela me disse que lia bastante desde a escola, plataformas de livros eram populares. Isso antes do tiktok. Agora, imagino que a coisa deva ter mudado ainda mais.

Eu já me peguei lendo livros que esses influencers indicam e até vi que as livrarias colocam selinho de livro mais indicado no tiktok. Parece que o mercado editorial deu uma esquentada com essas plataformas. Eu não acho ruim, sinceramente até aprecio a ideia de todo mundo ler. Mas há alguns problemas que vieram com isso.

Primeiro, contar quantos livros lê para uma certa competição, na minha opinião é como promover uma perda do prazer da leitura. Aquela leitura profunda, reflexiva, emocionante. Não que isso não ocorra quando você começa a contar quantos livros leu. Mas essa obrigação não é necessária. Mais vale ler um livro grosso com emoção e sem pressa, que 15 livros por mês do qual a leitura não serviu de muita coisa. E eu sei que é possível ler 15 livros e a experiência ser muito gratificante, mas sério, essa é uma falsa obrigatoriedade. É uma competição boba que não serve pra nada.

Se você está lendo um livro de não ficção como os de política, psicologia, história, biografias, etc, é ainda mais complicado porque esse tipo de leitura requer mais reflexão e por vezes é interessante fazer anotações e fichamento. Eu também tenho reparado que muitos desses influencers fazem anotações em seus livros, colam postits, marcadores de páginas, usam aquelas canetas grossas pra destacar frases e muitas vezes até fazem publi delas. Minha avó foi uma professora normalista. Ela deu aula da década de 30 até 60 e eu acabei herdando muitos de seus livros. Nenhum deles veio marcado. Não era um hábito que os antigos faziam e não é um hábito que eu faço. Eu só coloco marcadores quando é livro de estudo. Eu sou formada em filosofia, quando estudo um tema, então eu faço anotações e fichamento. Fora isso, não vejo muita necessidade de marcar livro que muitas vezes eu só vou ler uma vez. 

Mas ok, isso é algo muito particular. Sempre teve quem fizesse isso, minha mãe uma vez emprestou o livro dela e ele voltou todo rabiscado e marcado, o que a fez nunca mais emprestar seus livros. Hoje eu uso bastante leitor digital, o que facilita bastante pra mim, é o lado da tecnologia que eu aprecio. Nele, eu faço anotações, mas sempre marco livros que não são de ficção. Isso é um gosto particular de cada um, mas você não tem essa obrigação. Não faça isso porque viu a fulana do canal x fazendo ou a tiktoker rabiscando livros fazendo publi pra marcas que vendem essas bugigangas.

Eu vou contar um pouquinho do que aconteceu comigo. Houve um tempo que eu tinha engordado bastante e não estava me dando bem com algumas pessoas no trabalho. Estava complicado também me locomover até o trabalho, eu gastava mais de 3 horas pra ir e 3 pra voltar. Chegava em casa quase 9 da noite, cansada, não tinha muito tempo pra quase nada. Eu apenas abria livros, como sempre fiz e lia no transporte público. Aliás, ler no transporte público é um hábito que me acompanha há mais de 20 anos. Hoje em dia existe tecnologia pra ouvir audiobook e eu aproveito elas.

Nessa época eu apreciava muito os canais de booktubers e trabalhava perto da antiga livraria Saraiva. Eu sempre via as resenhas de livros e na medida que podia, entrava lá e comprava livros. Assim, acumulei mais livros do que eu realmente podia ler e muitos deles ainda estão jogados na minha estante. Nunca dei conta de conseguir nem começar e quando comecei, muitos deles nem terminei. Ou seja, consumir não tem nada a ver com realmente ler e se aprofundar na leitura. Antigamente eu ia na livraria, olhava a capa de um monte de livro e depois decidia qual levar. Comprava exatamente o que ia ler e lia com gosto. Hoje em dia, eu tenho muitos, mas muitos livros e quando já não tinha mais onde enfiar livros, eu ia lá e comprava mais. O resultado foi uma estante abarrotada de livros que, muitos deles eu estou decidindo por vender e doar porque eu realmente não vou ler.

Se eu puder te dar uma dica, é sempre pra exercer a paciência quando começar uma leitura. Livros não deveriam ser objeto de ansiedade, você não tem obrigação nenhuma de aceitar desafios de ler 15 livros por mês ou 80 livros por ano. Se você trabalha e estuda, livros deveriam ser usado pra descansar a cabeça, não pra gerar esse estresse. Você também não precisa ter uma estante cheia de livros. Eu li muitos livros clássicos e livros nacionais pegando emprestado na biblioteca da escola, o que, aliás, se você puder, ainda é possível fazer.

O que importa é o enriquecimento que a leitura proporciona, não fazer disputa pra ler mais ou acumular 500 livros na estante. 

 












quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Por que eu não vou criar um orkut, caso ele volte


 

Eu sou uma entusiasta da velha internet. Não que eu deseje que as coisas voltem a ser 100% como era antes, mas é que eu acredito que a internet é um vasto mar de infinitas possibilidades, um universo amplo demais pra permitirmos que toda a comunicação fique a cargo de uma ou outra rede social.

Um amigo até fez uma analogia com os shoppings: se todas as lojas estão num shopping, pra que vou querer ficar rodando por aí se posso ir num lugar só? 

Ora, você se limita entrando só no shopping, enquanto poderia encontrar coisas melhores e até mais baratas por aí afora. Acredito que a mesma lógica é a internet. Descobrir coisas, encontrar pessoas sem estar num mundo onde tudo tende a ser igual é uma ótima experiência. A gente quer se comunicar de qualquer maneira, se não tem rede social, fazemos isso de um jeito ou de outro. Embora eu saiba que blogs não andam em alta e não chegam nem perto disso, eu ainda mantenho esse modesto espaço por anos na esperança de um dia, talvez o blogs voltem a acender. Se isso irá acontecer, eu não sei, mas eu me recuso a difundir informações centralizadas em uma rede social.

Então eu me pergunto, se o orkut voltar mesmo, como ele voltaria? Seria a mesma coisa de 15 anos atrás, com emoticon de gelinho e coraçãozinho? Teria a mesma aparência azul e lilás, com comunidades, lista de amigos e rolagem finita? Você entra, vê o que quer e sai?? Ou esses caras usariam a lógica da economia de atenção? Eu me pergunto isso e tenho uma ligeira curiosidade pra saber como o senhor Orkut Büyükkökten redesenharia essa rede sem sofrer os impactos desses loucos anos de IA.

Chegamos a um ponto que a internet não significa só sair surfando e descobrindo, a internet parece ter sido tomada por algoritmos perversos que te levam a um local só pra reter sua atenção. Há quem ache que a internet é só tiktok e instagram. Ou youtube... Triste, mas infelizmente é real. Tem tanta coisa boa por aí, por que temos que ficar em um local só?

De fato, se o orkut voltar a ser como há 20 anos, ninguém precisa se preocupar muito. Não me recordo de chegar link invasivo, teorias conspiratórias e propaganda de joguinho a cada minuto. Ainda tenho lembrança específica de entrar lá, ir no perfil das pessoas, olhar as comunidades, dar um pouco de risada e sair. Mas isso é passado. Se voltasse hoje, não seria como nos anos 2000. Eu nunca vi épocas voltarem a ser o que eram, os momentos viram lembranças e o recado é que a gente aproveite enquanto temos.

Acredito que a aventura das redes sociais teve seu momento, seu pico na minha vida e eu não acho que são mais necessárias, se é que um dia foram. Foi divertido, triste, teve altos e baixos, mas tudo na vida chega ao fim e minhas atividades nas redes sociais chegaram também.O tempo que tive no orkut foi divertido, mas passou e ficou para trás. E eu tenho uma grande descrença que o orkut voltará igual.

Ganhar dinheiro com rede social quase sempre implica em focar o modelo de negócio na economia de atenção, não acredito que com o Orkut será diferente. Na minha opinião, se ele voltar, dará espaço pra vídeo, rolagem infinita e carregamento ilimitado de fotos. E ainda dará o biscoitinho chamado like.

É ver pra crer...

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Sobre o google ser uma Vila de Potemkin, os Anéis da Web (webRings) e os Youtubers processando informação

 

Quando o marechal Gregório Alexandrovich Potemkin quis impressionar sua amante Catarina, a Grande, levou-a para conhecer uma aldeia falsa na Crimeia em 1787. Tudo ali era fachada para impressionar sua amada com uma falsa cidade, toda bonitinha na frente, mas escondida atrás de um cenário.

É provável que essa história também seja falsa. Não existe evidência alguma de que esses eventos tenham de fato acontecido, mas a vila de fachada é usada hoje para descrever conceitos falsos como o buscador do google. 

Um youtuber fez uma pesquisa escrevendo a palavra "pizza" no buscador da google:

 

Mais de 1.000.000.000 de resultados. Legal né? Seria se não fosse completamente falso.

Fiz a mesma pesquisa e como no vídeo vamos rolando as páginas, empilhadas de 10 em 10. Faça um teste.

Cada página seguinte é mostrada de 10 em 10.

Se você for até o final, verá que não existe 1 bilhão de resultados, mas no máximo 322 ou menos:

Você deve estar pensando: Ok, você precisa repetir a pesquisa incluindo os resultados omitidos. 

Quando fazemos isso, no entanto:

As pessoas começaram a reparar nisso e nomear o google de Vila de Potemkin, pois a quantidade de resultados que o google diz que trazia eram fake. A internet é grande, sem dúvidas há muito mais páginas sobre pizzas e qualquer outro assunto que imaginemos, embora aquela internet primitiva por certo esteja morrendo.

A google, vendo que foi desmascarada em um vídeo viral, retirou a quantidade fake de resultados. Se você fizer uma pesquisa hoje, verá que não aparece mais 1.000.000.000 de resultados.

Eu sinto muita falta de ler blogs e ainda acompanho os raros casos que ainda fazem postagens. Mas o google não os mostra mais nas buscas. É notório que blogs, aqueles antigos e quase nada da antiga web é mostrada no google. Ele suprime resultados com critérios que nós não sabemos.

Você pode comprar relevância nas pesquisas, como faz o Brasil Paralelo ou sites como Canaltech. Portanto, é louvável se você deseja usar outros buscadores. Eu indico o Fuck Off Google. Você pode configurar de onde você quer buscar. No meu caso, eu peço para ele também trazer resultados do wiby.

É claro que você não vai abrir 300 links no mesmo dia, a menos que te sobre muito tempo e vontade. Mas aquele velho antigo conceito de "surfar na web" parece não fazer mais sentido nos dias de hoje e precisamos admitir que era uma coisa muito legal. Hoje em dia, conforme já publicado aqui, a informação nos chega de forma ultraprocessada, de um modo que a gente não consegue lidar com tanta coisa ao mesmo tempo.

Essa matéria da Folha de São Paulo é de 13/08/97. A jornalista fala de um modo até desesperado sobre os anéis da web ou webrings, que funcionava muito bem na internet primitiva, que conforme eu disse anteriormente, hoje está morrendo.

Quem navegou na web naquele tempo, no final dos anos 90 e início dos anos 2000, provavelmente tem uma lembrança de encontrar um site e através dele encontrar um outro e outro ou até mesmo dentro de um mesmo site surfar em links que te levavam para dentro dele mesmo.

Com o tempo, você tinha salvo em seus favoritos os lugares que você gostava de visitar, acompanhar e todas as vezes que abria a internet visitava mais ou menos as mesmas coisas, mas claro, sempre tinha algo novo a ser descoberto.

Se hoje você fizer, digamos, uma pesquisa pelo YouTube, não é estranho que apareça sempre canais muito parecidos, falando sempre as mesmas coisas, com o mesmo tipo de linguajar, referenciando sempre os mesmos vídeos (normalmente aqueles que se tornaram virais).

Por exemplo, se Borboleta for um assunto de relevância no momento, todos os youtubers falarão da mesma coisa, da Borboleta, referenciando o vídeo ou onde nasceu o assunto Borboleta. É como se tudo já estivesse pronto e definido para você.

Mas nem sempre foi assim. Tudo era como cidades independentes onde escrevíamos o que bem entendíamos sem precisar pensar em algoritmos manipulando tudo. 

Hoje nós nos dobramos aos algoritmos. Os youtubers, que tenho a impressão de já terem sido mais livres no passado, seguem sempre um mesmo ritual. Fazem uma abertura, criam vinheta (que até hoje eu não sei pra que serve), choram seu like, seu dinheiro (mesmo que recebam 6 dígitos em dólares da plataforma), enchem o saco com recadinhos idiotas que ninguém quer saber, fazem uma publicidade da super camisetaider que custa caro porque precisam sustentar 6000 famílias de podcaster, fazem aquela chantagenzinha básica pedindo seu dinheiro pro canal continuar, compartilhamento, inscrição...

Só então entram no assunto do vídeo que de originalidade não tem nada. Você tem a impressão de que já viu outro fulaninho falar quase a mesma coisa que ele. Claro, ninguém precisa necessariamente ser original, mas muitas vezes a crítica já vem baseada na opinião que outra pessoa deu e assim funciona todo o fluxo. Muitas vezes eles começam com fórmulas como "eu não ia falar sobre isso" (na verdade ia sim) porque, cá pra nós, o YouTube induz você a postar o que está dando relevância. 

Além do mais, o YouTube desmonetiza certas palavras feias que todo adulto não pode ouvir não é mesmo? Tipo racismo, estupro, suicídio... 

Na antiga web, não é que a gente encontrasse informação de extrema qualidade. Nada disso. Eu sinceramente não entendo direito como é que parece que as coisas desapareceram de um dia para o outro. Mas até hoje, é importante entender que não precisamos dessas big techs pra criar nada, nem pra opinar. Criadores podem criar sem depender de big tech nenhuma. Só você e seu processo criativo.

Eu sei o que muitos pensam, que eu falo isso enquanto escrevo em um blog do google. Eu concordo, por isso estou dando um jeito de levar isso pra uma página pessoal. Sem dúvidas não precisamos também criar tudo em um local só, embora o blogger seja uma ótima ferramenta, que ainda costuma funcionar como era antes.

Tem o problema de visualização. As pessoas hoje querem viver de internet. Eu conheço pessoas que queriam publicar suas ideias, escrever... Mas não fazem isso porque acreditam que não se expressam muito bem. Eu sou uma dessas pessoas e é pra isso que me presto a escrever. Primeiro porque ainda acredito que blogs funcionam muito bem e depois que eu não preciso me submeter às regras do YouTube pra gerar informação.

Nós nos esquecemos do básico. Aquele básico que funciona, aqueles conceitos que sempre estiveram aí e foram se sofisticando como os anéis da web, mas que atendem muito bem o propósito da comunicação livre (e eu digo livre, sem precisar de uma big tech dizendo o que fazer e o que você precisa ver).

Antigamente, procurávamos livremente por informação pela internet, hoje tem gente que paga um clube de livro só pra receber recomendação de leitura do influencer. Francamente... Você acha mesmo que precisamos disso?

Eu sei que muitas pessoas vão preferir ouvir um conteúdo do que ler. Eu também escuto podcast e entro no YouTube. Mas tenha em mente que a internet é um horizonte muito, muito vasto e há muita informação por aí que vai além das fronteiras do que somente o que o google ou a Meta quer que você veja.

Eu tenho fé que nós não deixaremos a boa e velha internet morrer. Qualquer assunto pode ser escrito e compartilhado, criticado e falado sem nenhuma necessidade que uma big tech processe isso.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Os bloqueadores fakes dos senhores das Big Techs

 

Há muitas dicas espalhadas por aí sobre como transformar o seu smartphone em um dumbphone, que seria uma versão mais antiquada e básica de celular. Inclusive muitas pessoas ainda usam flip phones, aqueles dobráveis e tentam fazer o que podem para rejeitar a conveniência. Acredito que seria bom se alguém inventasse um "caminho do meio", um tipo de celular que atende as nossas necessidades de hoje, mas que não fossem coisas ridiculamente viciantes como essas que temos aí. Tenho fé que um dia isso acontecerá. O que podemos fazer é arranjar um jeito de não gastar nosso tempo zumbificados nesses aparelhos.

Eu já tentei pela força da vontade e não deu certo, então fui na força bruta e trancafiei o celular. Depois de muito esforço eu consegui tirar a necessidade de viver grudada no celular. Contudo, eu já tentei métodos de controlar o uso do celular por aplicativos oferecidos na playstore e até mesmo no próprio app androide, o Bem-estar digital. Nada adiantou, então eu desisti. Se é pra usar a força, então precisamos aplicar algo que funcione e os apps oferecidos hoje são insuficientes.

É uma ironia que o smartphone foi algo feito para nos viciar e ao mesmo tempo você pode encontrar "soluções" pra isso que prometem ajudar, mas a maioria das pessoas, eu aposto que não se beneficia delas porque você pode facilmente burlar. É tudo uma fachada, um fingimento que estão te dando uma solução, mas não estão. O Bem-estar digital, por exemplo, oferece opção tanto para você bloquear algum aplicativo após determinado período de uso estabelecido ou você também pode informar um intervalo de período que alguns aplicativos podem ficar bloqueados. Por exemplo, das 9 às 18. Então ele bloqueia e você desfruta seu dia impossibilitado de abrir esses aplicativos. Seria bom se não fosse burlável. 

Se eles deixassem você bloquear também as configurações, aí eu botaria uma fé que temos algo que se pode usar a força. Caso contrário, se você consegue burlar, então nada ali está realmente bloqueado. Assim é com os stories do instagram. Mesmo silenciando e colocando no final da fila, eles ainda estavam ali, só que com marca d'água pra você acreditar que realmente silenciou. Eu já silenciei todos que eu seguia e ainda sim os stories continuam aparecendo, mas com marca d'água. O whatsapp também te dá uma opção de esconder os stories, mas é só clicar numa setinha e você consegue ver de novo. Ele só retira mesmo as notificações, vai do seu esforço não olhar e sinceramente, eu não acho que deveria estar fazendo esforço com um celular na mão.

Como esse retângulo preto consegue nos dominar completamente?

Me fiz muito essa pergunta até um dia parar de estragar meu psicológico com perguntas das quais sabemos as respostas. Essa coisa está aí para sugar a nossa atenção e eu não vejo muitas perspectivas de mudança tão cedo.

Como repeti muitas vezes, o que eu fiz foi me retirar das redes sociais e não dar login em mais nenhuma delas, por mais bem intencionada que seja. Se o orkut voltasse a existir eu não daria login nele porque acho que essa época já foi. O que vivemos lá atrás não voltará mais a acontecer. O Orkut foi a última rede social humana e nem tão cedo veremos outra aparecer.

Eu não consigo ser como aquelas pessoas que acessam as redes 15 minutos por dia ou que nem entram. É muito difícil reduzir o uso e mediante a tantos escândalos e tanta sacanagem dessas big techs, eu acredito que abandonar o navio é o melhor caminho no momento.

Quem consegue usar esses bloqueadores fake, ótimo. É bom se comportar e não burlar, mas é muito difícil. Eu não tenho soluções mágicas de redução de uso. Não vou sugerir que use bloqueadores se não funcionam e nem dizer pra você encontrar solução dentro do seu próprio celular. Nada disso funcionou pra mim, o que funcionou foi ter usado exercício de respiração, não levar o celular para a cama e arranjar outras atividades. É muito difícil no começo, mas garanto que dá certo.

Solucionismo digital só dá certo no digital. Na nossa vida prática e real, o que temos que fazer é voltar a viver a realidade.

Profissionais de saúde fazendo dancinha



Eu tenho uma amiga nutricionista que durante muitos anos alimentava um perfil no instagram. Era uma pessoa bem ativa e acreditava ser inadmissível deletar sua conta, o trabalho dela dependia muito daquilo. Assim, a rotina dela como profissional era colocar em seu planner os assuntos que ela postaria, reels, stories e carrossel de fotos.

Quando algum boçal aleatório criava polêmica falando algo de errado sobre nutrição, lá estava minha amiga para desmentir, como diversos de seus colegas que se formaram e levavam ciência a sério. Os vídeos davam muita visualização e ela sempre conseguia novos clientes. Fazia lives com outros influencers de mesma profissão e assim um divulgava o outro e tratavam de assuntos conforme suas especialidades.

Mas um dia, algo deu errado e a saúde mental da minha amiga colapsou. Ela teve um burnout bem feio, precisou ser medicalizada. Ela ficou pensativa sobre o que havia de tão errado assim, já que levava uma vida muito tranquila, ia cedo para o consultório, atendia, às vezes passava do horário, mas nada que a deixasse cansada demais, ela sabia lidar bem com isso. Ela estuda bastante, é verdade, mas isso nunca foi um grande problema, ela gosta do que faz. O que havia de errado? 

Minha amiga trabalhava muito em suas redes sociais e de graça. Isso a fazia acumular mais seguidores que clientes. É bem verdade que a agenda dela ficava cheia, mas isso, de acordo com ela, não se diferenciava muito do que ela fazia antes de ter uma conta no instagram. 

A informação que ela lançava atingia lá uma grande quantidade de visualizações, mas isso tinha um custo porque quem curtia recebia conteúdos não só dela, mas ligados aos assuntos que ela tratava. Ou seja, ela contribuía pra inflar a bolha algorítmica para que o instagram leiloe publicidades. Ela estava trabalhando de graça para o instagram aprender e gerar conteúdos para os usuários que nem eram dela. Então ela tomou uma dura decisão que foi deixar o instagram e alimentar o seu site pessoal. Ela ficou surpresa porque não mudou muita coisa. Ela não precisa mais trabalhar de graça e nem fazer dancinha pra alavancar seguidores, só precisa pagar um anúncio que o google encaminha seu site por região.

Ela reclamava muito da carga emocional que certas coisas traziam a ela. Um exemplo disso é quando algum desocupado charlatão fala besteira e os profissionais sérios o desmente. Eu penso: isso nunca vai parar? Sempre vai ter um maluco falando bobagens sobre alguma coisa científica e um profissional estará de prontidão pra desmentir (e vai perder)? Mas se estamos falando de rede social, esse tipo de atitude vale a pena e quando minha amiga fazia isso, muita gente não gostava e fazia comentários que, como sabemos, pessoalmente não teriam coragem. Por mais que a gente tenha sangue pra aguentar, nem sempre essas coisas passam despercebido e podem nos deixar abalados em algum nível.

Mas quem decide ser amigável com você apenas por ética? Quando se trata de rede social, a polêmica e o engajamento vale muito e isso seguramente levará dinheiro e publicidade aos envolvidos. Se me perguntam se tenho algo contra que um profissional formado faça dancinha, eu vou dizer que não. É evidente que as pessoas fazem o que bem entendem de suas vidas e com seus diplomas. Mas é preciso também sempre pensar e muito os custos disso no presente e no futuro. Você realmente precisa mesmo se submeter ao que um algoritmo quer pra ganhar dinheiro? Acho que a parada de lutar por condições mais dignas de trabalho é muito mais válido.

De repente todo mundo aceita que essas big techs tenham o monopólio de toda a comunicação, acreditam que é indispensável não ter rede social e quando tem, sabem que os conteúdos que mais geram visualizações são aqueles que contém polêmica, dancinha, brigas e por aí vai.

Eu já abandonei cursar em locais que não te dão escolhas e jogam na sua cara que se você não tiver rede social, não vai saber o que está acontecendo. Já parei de praticar Muai Thay em uma determinada academia porque eu não tenho conta no Instagram e era o único meio que eles davam de saber dos horários e avisos de quando não haveria aula. Sempre publicavam nos stories deles e eu não preciso passar por esse tipo de estresse.

Às vezes precisamos sair um pouco da conveniência para não virarmos escravos dos desejos de um. Quem sabe o que ganho escrevendo um blog que sei que quase ninguém lê. Mas eu tenho fé que no futuro as coisas podem sempre mudar e nós encontraremos uma saída.

domingo, 7 de julho de 2024

Quem realmente vai largar as redes?


Fotografia de Joseph Szabo
  Tenho lembranças ruins de drogas porque eu já bebi muito nessa vida e também fui fumante. Parei de fumar em dezembro de 2012, quase 12 anos, portanto. Também já fui aquela jovem maconheira e inconsequente, que não ligava muito para o que fosse acontecer comigo. O negócio era viver, curtir e isso que importava.

Assim minha vida foi passando e eu me dei conta que nada mudava. Não havia ganho nenhum em manter vício, só gastava dinheiro e ficava doente. No dia seguinte eu precisava trabalhar, já que as contas pra pagar nunca dão folga. Viver sempre no prazer, com emoção com cigarros e bebidas, isso era legal, mas em algum momento deixou de ser.

Se a gente notar bem nos filmes e séries, bebida alcoólica sempre está envolvida. Os personagens legais e descolados parecem não ligar muito para o que vão comer, mas gostam bastante de beber. Aliás, a comida deles quase nunca é tão boa, eles comem tranqueira e não se importam com o resto. James Bond mesmo, o 007 tem alcoolismo severo, de acordo com pesquisadores da Universidade de Otago e não aguentaria nem ficar de pé pra cumprir suas missões. Se algum evento exigir alta performance de alguém como correr longas distâncias, lutar, levantar cedo, viajar, etc, o comportamento deve ser exemplar, comer bem, se exercitar todos os dias e evitar bebida e cigarros. E nem pensar que eles teriam aqueles corpos sarados.

As companhias de cigarro até pagam para influenciadores de grande alcance fazer publicidade de produtos como o cigarro eletrônico. Eles miram sempre no público jovem porque é muito difícil convencer uma pessoa mais velha a fazer qualquer coisa. Eles são as forças por trás da rebeldia do jovem crer que está sendo um outsider fumando, bebendo e usando drogas, mas na verdade é só um boneco de vodu das grandes corporações que precisam de lucro. As pessoas legais do seriado estão bebendo e fumando. Estão comendo mal, tomando vodka no café da manhã e fazendo algo com o cigarro na mão. O herói da história, o mocinho, normalmente não é o cara que acorda cedo, faz exercício, se alimenta bem, não fuma, não bebe e cuida de sua aparência. Ok, acordar cedo não significa grande coisa e a maioria de nós não acorda cedo porque quer, mas sair do sedentarismo, se alimentar bem e evitar esses hábitos de beber e fumar é desejável pra vida de qualquer pessoa, sobretudo aquelas que vão saltar de um trem pra caçar um bandido.

O que quero dizer com esse post é que essa imagem do cara rebelde que vai contra a sociedade, que fuma e bebe, foi construída ao longo de anos para convencer a gente a fumar e beber. No século XVIII, o cigarro era muito atrelado às classes sociais. Aqueles senhores da aristocracia eram as pessoas que tinham acesso ao fumo e portanto, era visto como um símbolo de boa colocação social. As bebidas alcoólicas também eram dadas socialmente dessa maneira. Inclusive as bebidas alcoólicas e o fumo resistiram bem a guerra às drogas porque os homens brancos bem nascidos não queriam que ela fosse proibida.

Nos dias de hoje, as redes sociais são aquelas coisas que todo mundo ainda tem e no caso da geração z, já nascem vivenciando isso com a condição de que é normal ter rede social. As pessoas reclamam do twitter, que é uma insanidade onde se propaga tretas e quebra-pau sem sentido, mas não saem de lá. Claro, há quem diga que trabalha e não pode ficar sem, mas se o twitter perdesse a atenção, essas pessoas seriam forçadas a saírem de lá. E o foco desse post não é quem trabalha com rede social, mas sim a maioria que reclama, mas continua lá. Sabem que tem algo de errado mas acreditam que não podem ficar sem, precisam estar logado. Reclamam da vida boa que todo mundo leva no instagram com viagens e sei mais lá o que, mas são incapazes de sair de lá. O instagram, aliás, essa rede que se tiktokizou, o grande problema pra mim é mostrar pouco do que a gente realmente quer ver e entuchar o feed com publicidade e tolices que prendem nossa atenção, videozinhos curtos de gente estranha fazendo coisa esquisita.

Na minha opinião, os verdadeiros rebeldes à sociedade são aqueles que podem dizer não a coisas que causam problemas. Eu aqui sempre acho uma boa ideia deletar as redes sociais, mas não posso obrigar ninguém a fazer, embora incentive. É sempre bom viver sem estar exposto. No momento que escrevo esse texto, quero saber qual será o próximo viralismo, a próxima polêmica, quem a internet dará fama, pelo bem ou pelo mal. Isso é algo normal nas redes sociais, os assuntos se tornam polêmicos, entram em alta e caem no esquecimento. A Choquei volta a ser o que era antes, Pablo Marçal fica mais famoso do que nunca e nem sendo condenado pela justiça, figuras como Renato Cariani deixam de ficar em alta. 

É o preço que se paga por aceitar todas essas coisas controladas por grandes corporações e não por nós. A única solução que vejo é sair. Já fui do partido de que era possível controlar e não acessar, mas eu estava enganada. A única solução é deletar e parar de dar atenção a esse monte de bobagem.


***ATUALIZAÇÃO***
No dia 07/07/2024, esse post foi ao ar e eu não sabia que Pablo Marçal se tornaria candidato à prefeitura de SP, com expressiva quantidade de votos. Ele quase foi para o segundo turno!
Ele mesmo compartilha bobagens nonsenses na página dele para que o conteúdo seja viralizado.
Nesse vídeo, ele explica que joga informação falsa de propósito para ser corrigido e assim fazer o vídeo dele viralizar.
Sei que ocupo um lugar de irrelevância imensa insistindo em blogs, mas não vejo jeito melhor de trocar informação que não tenha sido processada e influenciada por um algoritmo. Compartilhar vídeo de pessoas como ele, é perigoso. Está na hora de todos percebermos que os influencers que fazem o modelo de react só querem ganhar dinheiro, não possuem nenhum compromisso sério com mudanças significativas.